janeiro 7, 2026 | Abraham Costa

Indescartável: O Portador das Demon Spirits | Light Novel – Capítulos 1 a 3

Capítulo 1 — O Que Fica Enterrado

Elias Sampaio aprendeu cedo que algumas coisas simplesmente não chamavam atenção.

A argila era uma delas.

Ela sustentava construções, estradas, cidades inteiras — mas ninguém falava sobre argila. Não virava notícia. Não rendia status. Quem trabalhava com ela existia apenas enquanto fosse útil. Depois, era substituído sem cerimônia.

Indescartável: O Portador das Demon Spirits é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

A mina ficava afastada da cidade, cercada por mata fechada. O som constante das máquinas se misturava ao canto distante de insetos e pássaros, criando um ruído contínuo que, depois de um tempo, deixava de ser percebido. Era ali que Elias passava a maior parte dos dias, coberto de poeira vermelha, repetindo movimentos até o corpo agir sozinho.

Ele não reclamava.

Não porque gostasse — mas porque reclamar não mudava nada.

Enquanto os outros conversavam sobre motos novas, festas de fim de semana ou apostas, Elias mantinha o fone desligado e a mente ocupada com outras coisas. Mapas antigos, teorias esquecidas, estruturas que não se encaixavam na história oficial. Pirâmides fora do lugar. Ruínas soterradas que ninguém investigava porque não davam retorno financeiro imediato.

Mistérios não pagavam salário.

Naquele dia, o turno estava quase acabando quando o supervisor avisou que quem quisesse poderia ficar para hora extra. A produção precisava bater a meta da semana. Alguns recusaram. Elias aceitou sem pensar muito.

Desceu mais fundo do que o habitual.

A argila naquela camada era diferente. Mais escura, mais compacta, como se tivesse sido comprimida por algo durante muito tempo. O impacto da pá não soava como antes. Havia um eco estranho, seco demais para ser apenas terra.

No terceiro golpe, a pá bateu em algo sólido.

Elias parou.

Ajoelhou-se e afastou a argila com cuidado. O objeto surgiu aos poucos: um medalhão antigo, coberto por marcas e símbolos desgastados. O metal estava corroído, manchado, como se tivesse atravessado décadas de água e calor — e, ainda assim, os símbolos permaneciam nítidos demais para algo comum.

Um arrepio leve percorreu sua nuca.

Não parecia valioso no sentido comum. Não brilhava. Não chamava atenção. Mas havia algo ali que fazia o olhar demorar mais do que o necessário.

Elias levou o medalhão até a superfície e mostrou ao supervisor, esperando curiosidade, algum protocolo, talvez uma foto.

O homem mal olhou.

Fez uma careta.

— Joga isso fora ou guarda no bolso, sei lá. Só não traz isso pra perto de mim. Coisa velha não vale nada.

Não houve discussão.

Não houve interesse.

Elias guardou o medalhão no bolso do uniforme. O metal estava frio contra a perna, pesado demais para algo tão pequeno.

O turno terminou pouco depois. Os outros subiram rindo, reclamando do cansaço. Elias ficou para trás por alguns minutos, observando a entrada escura do túnel que descia ainda mais fundo.

Ele não pensou em destino.

Nem em presságio.

Pensou apenas que, se algo estava enterrado ali há tanto tempo, não tinha sido por acaso.

Colocou o capacete, ligou a lanterna e desceu novamente.

O som do mundo foi ficando distante.

Capítulo 2 — Sob Camadas Antigas

Quanto mais Elias descia, mais a mina parecia antiga.

As marcas nas paredes já não eram apenas de máquinas. Havia trechos onde a argila fora arrancada de forma irregular, como se ferramentas diferentes tivessem sido usadas em épocas distintas. A madeira que sustentava o teto rangia baixo, num som contínuo que não era exatamente ameaça — era aviso.

Ele avançou com cuidado.

A lanterna iluminava poucos metros à frente, criando sombras longas que se moviam conforme ele respirava. O silêncio ali embaixo nunca era completo. Havia sempre o gotejar lento da água e o eco distante de algo cedendo.

Elias levou a mão ao bolso sem perceber.

O medalhão estava ali.

Frio.
Pesado demais.

Não queimava. Não vibrava. Não fazia nada que pudesse ser chamado de sobrenatural. Ainda assim, carregá-lo era como segurar algo que se recusava a ser esquecido.

Ele encontrou a camada exata de onde o retirara. A argila escura formava uma parede quase lisa, compacta demais para um depósito comum. Ao tocar a superfície, sentiu irregularidades que não seguiam padrão de escavação.

Era ali.

No terceiro golpe, o chão respondeu.

O rangido da madeira mudou de tom.

Não foi alto. Foi longo. Profundo. Como um suspiro preso.

Elias recuou.

O estalo veio do teto. Depois outro. A argila começou a ceder em placas. Ele virou para correr no exato momento em que o chão desapareceu sob seus pés.

A queda foi curta, mas violenta.

O ombro bateu primeiro. Depois as costas. Ele rolou até parar em água fria. A lanterna piscou… e apagou.

Escuridão.

Antes que pudesse se mover, o túnel desabou.

Terra e pedra se acumularam sobre suas pernas. O ar foi expulso dos pulmões. Elias tentou gritar, mas só conseguiu inspirar poeira e água.

Nada se movia.

Então, vozes.

— Tem alguém lá embaixo!
— A galeria cedeu!

Luzes surgiram entre frestas. Elias tentou responder, mas o corpo não obedecia.

Foi quando o medalhão esquentou.

Não queimava.

Mas acordava.

Uma luz fraca atravessou o tecido, refletindo na água ao redor. Por um instante, tudo pareceu distante. As vozes abafadas. O peso no peito absoluto.

Ele foi puxado para fora minutos depois.

O céu era azul demais.

O medalhão pressionava o peito como se quisesse atravessar a carne.

E então, o mundo começou a se afastar.

Capítulo 3 — Quando Ninguém Está Olhando

O hospital não estava preparado para milagres.

Elias chegou em uma maca, coberto de terra vermelha e água barrenta. O corpo imóvel demais para alguém tão jovem. As luzes da emergência revelaram ferimentos internos, costelas comprometidas, respiração irregular.

— Pressão caindo.
— Saturação despencando.

A médica leu o relatório sem levantar a voz. Não havia pânico ali. Apenas rotina.

Elias não ouvia.

Ou talvez ouvisse tudo de muito longe.

O tempo perdeu forma. Restaram fragmentos: o impacto, o peso da terra, o céu azul visto por um segundo.

E o medalhão.

Sob o lençol fino, ele começou a irradiar calor — lento, persistente, invisível aos monitores.

— Pupilas não respondem.
— Prepara intubação.

O tubo entrou. As máquinas assumiram.

Por alguns minutos, a linha estabilizou.

Depois, falhou.

— Parada.

Compressões. Medicamentos. Ordens curtas.

O corpo reagiu uma vez.

Depois, não reagiu mais.

— Hora do óbito: 03h17.

O hospital seguiu em frente.

Quando ninguém olhava, o medalhão brilhou.

A luz não escapou.

Foi absorvida.

Por dentro, algo se soltou.

Não houve dor.
Nem medo.

A sensação foi a de largar um peso antigo.

Elias foi puxado, rápido, como atravessar uma correnteza invisível.

O hospital desapareceu.

Não houve túnel de luz.

Apenas escuridão…

seguida pelo som de água correndo.

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janeiro 5, 2026 | Abraham Costa

Reencarnado na Idade do Fogo — Light Novel (Capítulos 4–6)

Capítulo 4 — O Terreno Antes da Chama

Asta aprendeu rápido que aquele mundo não recompensava coragem.

Recompensava controle.

O frio vinha em ondas. Uma noite parecia suportável; na seguinte, o vento cortava como lâmina. E com o vento vinha a tosse — seca, irritante, deixando os olhos vermelhos e a respiração pesada.

Reencarnado na Idade do Fogo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

A aldeia não morria mais de fome como antes… mas agora começava a morrer devagar.

E Asta sabia o motivo.

Eles não tinham fogo.

Não para cozinhar.
Não para aquecer.
Não para secar roupas molhadas.
Não para tratar feridas com calor.

Viviam como animais inteligentes, presos entre a floresta e a própria carne.

Nayara o observava. Não precisava perguntar. Ela sabia que ele pensava no que ninguém ousava pensar.

Na terceira tarde de chuva, Asta saiu sozinho para a floresta, seguindo o curso do vento. Não caçava. Procurava sinais que a tribo ignorava: troncos ocos, pedras estranhas, lugares onde o chão parecia diferente.

Ele encontrou.

Uma clareira onde uma árvore antiga havia sido rasgada. A madeira estava aberta como uma ferida. Por dentro, o coração do tronco era negro, seco, quebradiço.

Carvão.

Asta ajoelhou-se e tocou o interior. Não estava quente. Não havia brasa. Nem fumaça. Era apenas o vestígio de um raio antigo.

Ainda assim, era ouro.

Porque aquilo provava algo que a tribo havia esquecido:

O mundo já tivera fogo.
Eles apenas não sabiam mantê-lo.

Enquanto observava, algo se encaixou em sua mente.

A Mercearia se manifestou — não como tela, nem como voz. Veio como a sensação de estar nos trilhos certos.

Mercearia Ancestral — Categoria Liberada:
“Protocolo de Calor”
(técnicas de preparo, segurança, risco e manutenção)

Não apareceu “como fazer fogo”.

Apareceu o que realmente importava:

Como não morrer tentando.

Asta entendeu o aviso com clareza assustadora.

Chuva apagava tudo.
Vento espalhava faíscas.
Fogo atraía olhos — humanos e não humanos.

Então aquele momento não seria sobre conquistar a chama.

Seria sobre preparar o terreno.

Ele passou dias fazendo coisas que pareciam inúteis aos outros.

Reuniu fibras secas de certos cipós — os que não apodreciam rápido.
Separou folhas que repeliam umidade por mais tempo.
Identificou pó de madeira mais fino, que pegava faísca com facilidade.
Guardou tudo em embrulhos de couro, por camadas, como pequenos tesouros.

Uma vez, testou duas pedras perto de uma rocha dura.

Uma única faísca surgiu.

Ele não insistiu.

Não ali.
Não com vento.

Porque a Mercearia não lhe dera poder.

Tinha lhe dado disciplina.

No fim da semana, voltou para a aldeia com as mãos manchadas de carvão e o olhar mais sério.

Nayara o esperava perto do estoque. Observou as marcas negras e os embrulhos de couro.

— Isso é comida? — perguntou.

— Não. — Asta respondeu. — É futuro.

Ela estreitou os olhos.

— O tipo de futuro que mata gente?

Asta encarou o chão por um instante.

— O tipo de futuro que mata gente… se for tratado como brinquedo.

Nayara entendeu. Pela primeira vez, sua postura mudou de avaliar para preparar.

— Então você não faz isso sozinho.

Asta não discutiu.

Naquela aldeia, quando alguém começava a se tornar necessário, outra coisa nascia junto:

O medo de quem perderia poder.

E Asta já sentia isso nos olhares ao redor.

Capítulo 5 — A Primeira Decisão

A primeira chama não nasceu como milagre.

Nasceu como uma decisão.

Depois de dias de chuva, a noite finalmente veio seca. O vento não cessou, mas diminuiu o suficiente para não transformar uma faísca em desastre.

Asta pediu um espaço.

Não pediu autorização.

Pediu um perímetro.

Nayara entendeu imediatamente.

Escolheu quatro guerreiros e os posicionou ao redor do local. Não para proteger Asta — mas para proteger a aldeia do que ele poderia trazer.

Os anciãos quiseram se aproximar.

Nayara os conteve com um gesto.

— Hoje ninguém encosta. Hoje ninguém opina.

O tom não admitia resposta.

Asta ajoelhou-se em um círculo de terra limpa, longe das palhas e dos couros pendurados.

Se a chama escapasse, não levaria a aldeia junto.

Então, pela primeira vez, a Mercearia apareceu do jeito certo.

Não como loja.

Mas como escolhas inevitáveis.

Mercearia Ancestral — Protocolo de Calor
Regras Liberadas:
Isolar combustíveis
Controlar vento
Preparar “ninho seco”
Chama mínima antes de chama útil

Asta respirou fundo.

Não tinha fósforo.
Não tinha metal.
Não tinha nada além do corpo e do mundo.

Mas tinha método.

Montou um ninho com fibras secas e pó fino de madeira, protegido por folhas mais grossas — como um teto. Simples. Mas funcional.

Depois, pegou uma tira de fibra trançada e fez um arco tosco com um galho curvo.

Não bonito.
Não perfeito.

Funcional.

Alguns caçadores riram baixo.

— Brinquedo.

Asta ignorou.

Firmou uma vareta contra a base de madeira seca e iniciou o atrito. Não com força — com ritmo.

Primeiro, nada.

Depois, fumaça.

Ele continuou.

A fumaça virou pó escuro.

Ele não parou.

O pó brilhou por um segundo… e apagou.

Um ancião soltou um som de desprezo.

Asta não olhou.

Apenas ajustou.

Mais seco.
Menos vento.
Ângulo melhor.

Tentou novamente.

E então surgiu um ponto vermelho.

Pequeno. Quase tímido.

Uma brasa.

A aldeia inteira prendeu a respiração.

Asta levantou o ninho com cuidado absoluto e soprou apenas o suficiente.

Uma língua amarela apareceu.

Uma única língua.

Ele imediatamente cobriu parcialmente com folhas, protegendo do vento.

A chama não cresceu de uma vez.

Ela aprendeu a existir.

Quando finalmente se firmou, o calor tocou o rosto de todos.

Alguns recuaram.
Outros choraram.
Um guerreiro caiu de joelhos.

Nayara não se moveu.

Ela olhou para o fogo como se olhasse para uma arma.

— Ninguém toca. — disse. — Ninguém leva. Ninguém repete.

— É da tribo! — protestou um ancião.

— Hoje é da sobrevivência. — respondeu Nayara. — Amanhã decidimos.

Asta entendeu.

Ela estava criando tempo.

Porque o perigo não era só o fogo.

Era o que viria por causa dele.

Naquela mesma noite, a prova apareceu.

Não como ataque.

Mas como silêncio.

Os animais da aldeia pararam de reagir. Os pássaros sumiram. Até o vento pareceu hesitar.

Algo observava da floresta.

Não entrou.

Apenas marcou presença.

A Mercearia encaixou-se de novo, como um aviso gelado:

Protocolo de Calor — Observação:
Luz atrai vida.
Nem toda vida teme chama.

Asta entendeu.

O fogo salvara a aldeia do frio.

Mas anunciara Ul’Khan ao mundo.

Capítulo 6 — O Preço de Existir

O fogo não trouxe festa.

Trouxe silêncio.

Na primeira noite após a chama ser mantida, ninguém cantou. As pessoas se aproximaram para se aquecer, mas mantiveram distância — como se aquela coisa viva pudesse morder.

O calor resolvia problemas imediatos.

Roupas secavam.
Feridas fechavam melhor.
Crianças paravam de tremer.

Mas algo mudava junto.

As sombras ficaram mais longas.
Os rostos, mais atentos.
E a floresta… mais quieta.

— Eles não dormem. — murmurou Nayara.

— Não. — Asta respondeu. — Eles pensam.

Na terceira noite, a cabana ritual se abriu.

Maera Ul’Khan saiu sozinha, apoiada em um bastão simples. Os cabelos negros caíam soltos pelas costas. O colar antigo repousava sobre o peito.

Ela parou diante da fogueira.

Estendeu a mão, sentindo o calor sem tocar.

— Então… ele voltou.

— Mãe. — disse Nayara.

Maera não respondeu de imediato.

— Faz anos que não vejo isso vivo. — continuou. — Não desde a última tentativa.

Alguns anciãos desviaram o olhar.

Maera encarou Asta.

— Foi você.

— Foi.

— Você sabe o que isso chama?

— Sei o que resolve. — respondeu Asta. — E sei o que atrai.

Ela assentiu.

Contou a história sem drama.

Quando Ul’Khan tentou crescer, o mundo respondeu. As bestas mágicas vieram da floresta. Algumas não temiam o fogo.

O rei liderou a defesa.

Funcionou… por um tempo.

Na última noite, o fogo foi alto demais.

As bestas vieram juntas.

O rei segurou a linha até a aldeia fugir.

O corpo nunca foi recuperado.

— O fogo sempre cobra. — disse Maera. — Não no mesmo dia.

Ela olhou para Asta.

— Se vai mantê-lo, precisa ser melhor.

— Não quero repetir nada. — respondeu ele.

Ela o estudou.

— Você não tem o olhar de quem quer governar.

— Não quero.

— Bom. — disse Maera. — Os que querem, morrem cedo.

Nos dias seguintes, a aldeia mudou.

O fogo foi vigiado.
O estoque, controlado.
As patrulhas, dobradas.

Asta não dava ordens altas.

Ele organizava.

E isso incomodava.

— Outras tribos vão ver o fogo. — disse Maera certa tarde.

— Já estão vendo.

— Vão querer saber quem manda.

— Que vejam.

Ela inclinou levemente a cabeça.

Naquela noite, um chamado ecoou da floresta.

Não ataque.

Aviso.

Asta permaneceu acordado, observando a chama mínima.

O fogo salvara Ul’Khan.

Mas também a marcara.

E agora, quem quisesse poder, vingança ou domínio…

Saberia onde procurar.

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janeiro 3, 2026 | Abraham Costa

O Último Oráculo — Light Novel | Capítulos 1 a 3

Capítulo 1 — Invisível até o Fim

Bernardo acordou antes do sol.

Não porque queria — mas porque o corpo já não aceitava dormir mais do que aquilo. O chão de concreto da obra ainda guardava o frio da madrugada, mesmo com o cheiro pesado de tinta fresca impregnado no ar.

O Último Oráculo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ele se levantou devagar, alongando as costas. Um estalo seco ecoou no silêncio.

— Mais um dia… — murmurou, sem entusiasmo.

Pegou a camiseta jogada sobre um balde vazio, vestiu sem se importar com as manchas antigas e saiu do cômodo improvisado que usava como dormitório. Não havia cama. Apenas um pedaço de papelão dobrado e uma mochila velha encostada no canto.

Bernardo era pintor.

Ou melhor… fazia de tudo numa obra, desde que pagassem.

Trabalhava de dia.
Trabalhava à noite.

Quando havia serviço, dormia ali mesmo, economizando passagem, comida, tempo.

Dinheiro nunca sobrava.

As mãos estavam sempre manchadas de tinta, por mais que esfregasse. A pele ardia com o sol, com o pó, com o cansaço acumulado de semanas sem descanso de verdade.

Durante o dia, ninguém o notava.
À noite, ninguém se lembrava dele.

E quando alguma mulher aparecia — alguma moça rindo com amigas, passando perto da obra — ele já sabia.

Nem precisava tentar.

As poucas vezes em que criou coragem, ouviu variações do mesmo sorriso constrangido, do mesmo olhar de pena.

“Você é legal, mas…”
“Não faz meu tipo.”
“Prefiro só amizade.”

Bernardo aprendeu a sorrir de volta.
Aprendeu a fingir que não doía.

Naquela noite, o estômago roncou mais alto que o cansaço. O dinheiro do dia tinha sido pouco, mas suficiente para algo simples.

— Um hambúrguer… já tá bom.

Saiu da obra com passos lentos, atravessando a rua em direção à lanchonete da esquina. O sinal estava fechado. Algumas pessoas esperavam na calçada oposta.

Entre elas, um senhor mais velho, parado perto demais da rua.

Bernardo notou o caminhão tarde demais.

O som do motor veio alto, pesado. O sinal abriu… mas o caminhão não reduziu.

— Ei! — alguém gritou.

O velho deu um passo à frente, confuso.

Bernardo não pensou.

Correu.

Empurrou o senhor com força, sentindo o impacto seco dos corpos colidindo. O mundo pareceu girar por um segundo — e então veio o som.

Metal.
Freios.
Um impacto brutal.

O corpo de Bernardo foi lançado para o lado, o chão subindo rápido demais.

A dor não veio de imediato.

Veio o frio.

O céu acima parecia estranho. As luzes da rua borradas. Pessoas gritando. Alguém chamando por ajuda.

Ele tentou respirar… mas o ar não vinha direito.

O senhor estava vivo. Tremendo, mas vivo.

Bernardo sorriu, mesmo com a boca cheia de sangue.

— Ainda bem…

Enquanto a visão escurecia, uma única ideia atravessou sua mente — crua, feia, sincera.

Não sobre heroísmo.
Não sobre justiça.

Mas sobre tudo o que nunca viveu.

Nunca foi desejado.
Nunca foi escolhido.
Nunca foi visto.

Se tivesse… só uma chance.

Só uma.

Não para ser bom.
Não para ser justo.

Mas para não morrer invisível outra vez.

O som das sirenes ficou distante.

E então… não houve mais nada.

Capítulo 2 — Entre o Nada e a Possibilidade

O silêncio veio primeiro.

Não foi escuro.
Não foi claro.

Foi… ausência.

Bernardo tentou respirar — por reflexo — e percebeu que não precisava. Não havia ar entrando nos pulmões. Não havia pulmões.

Mesmo assim, ele pensava.

— …morri?

A palavra não ecoou. Não houve som algum. Ainda assim, ele a “ouviu”, como se o pensamento tivesse peso próprio.

Não sentia dor.
Também não sentia alívio.

Era como estar acordado demais.

As imagens da rua voltaram, quebradas. O caminhão. O impacto. O rosto assustado do velho. O gosto metálico na boca.

— Salvei alguém… — pensou.
— Que piada.

Se aquilo fosse o fim, não parecia recompensa nenhuma.

Algo estranho surgiu então. Não um toque, mas a sensação de estar sendo observado. Não por olhos — por algo mais amplo, mais distante.

Memórias começaram a surgir, uma após a outra, sem ordem.

As obras.
As noites dormindo no chão.
Os risos que nunca foram para ele.
Os “não”.

Sempre os “não”.

Ele fechou os olhos — mesmo sem saber se ainda os tinha.

— Se isso aqui for tudo… — pensou — …é sacanagem.

A frustração cresceu. Não como raiva explosiva, mas como algo denso, antigo, acumulado.

Ele não queria ser herói.
Não queria medalha.
Não queria agradecimento.

Só não queria que a vida acabasse daquele jeito.

— Eu trabalhava mais do que qualquer um…
— Aguentava mais do que qualquer um…

As palavras vinham sem som, mas com força.

— E mesmo assim… nada.

O vazio reagiu.

Não houve voz.
Não houve figura divina.

Mas o espaço ao redor pareceu se reorganizar.

Fragmentos surgiram na névoa.

Não imagens claras — mas possibilidades.

Cidades em chamas.
Bandeiras rasgadas.
Torres caindo.
Criaturas que não deveriam existir.
Pessoas olhando para o céu, esperando respostas.

Bernardo sentiu um arrepio que não vinha do corpo.

— Que porra é essa…?

As cenas não vinham em sequência. Eram linhas sobrepostas, algumas se cruzando, outras se apagando antes de se formar por completo.

Ele entendeu, instintivamente.

Nada daquilo estava decidido.

Algumas imagens desapareciam quando ele tentava focar. Outras surgiam quando desviava a atenção.

— Isso… não é futuro.

Era diferente.

Era como observar caminhos que podiam existir — mas ainda não existiam.

— Então é isso? — pensou. — Vai me mostrar tudo o que eu nunca vou viver?

O ressentimento voltou, mais forte.

— Se eu tivesse outra chance…

O pensamento não foi bonito.
Não foi nobre.

Foi cru.

— Eu não ia aceitar ser invisível de novo.
— Eu não ia aceitar passar fome, dormir no chão, ser ignorado.
— Eu ia viver. Do meu jeito.

O vazio pareceu afundar ao redor dele.

As linhas se aproximaram.

Por um instante, Bernardo sentiu algo parecido com medo.

Não de morrer — isso já tinha acontecido.

Mas de acordar em algo pior.

— Se for pra recomeçar… — pensou — …então que não seja igual.

O cinza começou a se desfazer, puxando sua consciência como uma corrente silenciosa.

Não houve luz no fim do túnel.

Houve queda.

E, no fundo dela, algo o esperava.

Capítulo 3 — O Oráculo Que Não Deveria Existir

A primeira coisa que Bernardo sentiu foi o peso.

Não o peso do corpo —
mas o peso de estar dentro dele.

O ar entrou nos pulmões de uma vez, arrancando um engasgo seco de sua garganta. Ele se virou de lado por instinto, sentindo o tecido macio da cama sob os dedos.

— …gh…

O som saiu estranho. Mais baixo. Mais contido.

Bernardo abriu os olhos.

O teto não era concreto.
Nem madeira velha.

Era pedra lisa, clara, cortada por símbolos que ele não reconhecia — e que, estranhamente, pareciam familiares.

— Onde… — tentou falar.

A voz era jovem.

Mas não era a dele.

Ele se sentou devagar. O coração acelerado. A cabeça pesada, como se tivesse passado dias acordado. O ambiente entrou em foco aos poucos: velas, tapeçarias, o cheiro suave de incenso misturado com algo metálico.

Não era hospital.
Não era sonho.

Bernardo levou a mão ao rosto.

A pele era lisa.
Os dedos não tinham calos.
Não havia tinta impregnada.

Passou a mão pelo cabelo — e parou no meio do movimento.

— Roxo…?

Levantou-se com cuidado. As pernas tremiam. Um espelho simples, encostado na parede, refletiu uma figura que ele não reconhecia.

Jovem.
Pálido.
Cabelo roxo.
Olhos de um cinza estranho, quase metálico.

— …não sou eu.

A memória veio de uma vez.

O vazio.
As linhas.
A queda.

— Então… reencarnei.

Não houve euforia.
Nem gratidão.

Apenas cautela.

Bernardo fechou os olhos por um instante — e então sentiu.

Algo deslizando por trás da visão.

Não era imagem.
Não era som.

Era sobreposição.

Quando abriu os olhos, o mundo parecia o mesmo — e, ao mesmo tempo, não.

Linhas finas cruzavam o espaço como rachaduras no ar. Algumas eram estáveis. Outras tremiam. Algumas se apagavam quando ele tentava focar.

— …isso é…

Ele deu um passo à frente.

Uma linha à esquerda se dissolveu.
Outra surgiu, mais distante.

Bernardo recuou.

— Não é futuro… — murmurou. — São possibilidades.

Ele não via o que ia acontecer.

Via o que poderia ter acontecido… ou ainda podia, se algo mudasse.

Antes que pudesse pensar mais, a porta se abriu.

Dois homens entraram.

Vestes cerimoniais.
Expressões neutras demais.

— O Oráculo despertou. — disse um deles, sem emoção.

Bernardo sentiu um arrepio.

— Oráculo…?

O segundo homem se aproximou, observando-o como se fosse um objeto frágil.

— Não se levante demais. Seu corpo ainda é… instável.

Instável.

— Onde estou? — perguntou Bernardo, medindo cada palavra.

Os homens trocaram um olhar breve.

— Na capital. — respondeu o primeiro. — Você foi trazido há meses. Comprado, para ser mais exato.

A palavra atingiu como um soco.

— Comprado?

— Oráculos não nascem apenas do destino. — continuou o homem. — Alguns são… adquiridos.

O estômago de Bernardo revirou.

Memórias que não eram dele surgiram, fragmentadas.

Testes.
Previsões falhas.
Relatórios ignorados.
Olhares de desprezo.

— Suas leituras nunca coincidiram com as oficiais. — disse o segundo. — Por isso ficou desacordado tanto tempo. Alguns diziam que era fingimento.

Bernardo entendeu.

O corpo em que reencarnou…
já era considerado um erro.

— Então por que ainda estou aqui? — perguntou.

O primeiro homem sorriu. Um sorriso vazio.

— Porque até previsões erradas servem para alguma coisa.

Silêncio.

— E porque, até prova em contrário… — completou — …você ainda é oficialmente um Oráculo.

Bernardo baixou o olhar. As linhas ao redor vibraram levemente.

Ele não tinha poder.
Não tinha status.
Não tinha confiança.

Só tinha algo que ninguém ali compreendia.

E, se descobrissem…

Bernardo respirou fundo.

— Entendi.

Aquilo não era o começo de uma nova vida.

Era o início de uma sobrevivência muito mais perigosa.

Próximo capítulo

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janeiro 1, 2026 | Abraham Costa

O Último Herdeiro de Verdevale – O Renascimento de um Domínio (Capítulos 10–12)

Capítulo 10 — O Nome que Voltou a Existir

Líria se aproximou, exausta, mas sorrindo.

— Vencemos…

Renato respondeu baixo, quase como se falasse apenas para si mesmo:

— Não. Apenas começamos. O Império agora sabe… que Verdevale está vivo.
E da próxima vez… eles não virão com quarenta. Virão com centenas.

O Último Herdeiro de Verdevale é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ainda assim, em seus olhos âmbar, não havia medo.
Havia apenas determinação.
E uma chama que crescia a cada batalha.

Verdevale havia deixado de ser um nome esquecido.
Agora… era uma ameaça.

A fumaça da batalha ainda pairava sobre as colinas quando a noite caiu. Os corpos dos soldados imperiais foram enterrados em silêncio, enquanto os sobreviventes foram deixados partir, carregando o peso da derrota.

Mas, em Verdevale, os fogos acesos não eram de luto — eram de celebração.

Crianças corriam pelas ruas improvisadas. Homens e mulheres dançavam ao som de tambores batidos em couro seco. Nunca antes haviam se sentido tão unidos. Nunca antes o nome Verdevale significara esperança.

Renato, porém, não estava entre eles.

Sentado na sala do bastião em construção, observava relatórios espalhados sobre a mesa. Marien entrou, ainda com o arco às costas.

— Eles cantam seu nome lá fora. Dizem que o herdeiro Verdevale é um general renascido.

Renato não desviou o olhar do mapa.

— Um general sem exército não passa de um tolo. Hoje vencemos. Mas amanhã… eles voltarão, mais fortes.

Líria entrou logo em seguida, trazendo uma jarra de água fresca.

— Mesmo assim, mestre… o povo acredita em você agora. Isso é algo que nem o Império pode tomar.

Renato ergueu os olhos para ela e, por um instante, deixou escapar um leve sorriso.

— Talvez seja isso que mais os assusta.

Na manhã seguinte, a praça central estava lotada. Renato subiu ao parapeito, cercado por Marien, Derek, Gunnar e Líria. O povo aguardava em silêncio.

— Verdevale não é mais pó e silêncio. Vocês lutaram, sangraram e venceram.

Sua voz ecoou firme.

— Mas a vitória não é só contra espadas. É contra a fome. Contra o frio. Contra a dúvida.
Por isso, declaro agora a fundação da Primeira Guarda de Verdevale.

Um rugido de aprovação se espalhou. Derek ergueu a espada curta, e os camponeses imitaram, orgulhosos. Era um exército pequeno… mas era o primeiro exército Verdevale.

— E mais… — continuou Renato. — Os que trabalham com martelos, enxadas e arcos também são soldados. Cada pedra colocada, cada flecha disparada, cada semente plantada… é parte da vitória.
De hoje em diante, cada um de vocês é Verdevale.

O povo gritou em uníssono.
E, pela primeira vez, o nome Verdevale não foi lembrado como ruína… mas como renascimento.

Capítulo 11 — A Guerra das Palavras

Longe dali, na capital imperial, o comandante Rausk entregava um relatório ao alto conselho.

— As tropas foram repelidas. O herdeiro Verdevale demonstrou organização inesperada, táticas militares avançadas e uso de magia auxiliar. Recomendamos reforço imediato ou negociação estratégica antes que se torne ameaça maior.

O relatório passou de mão em mão, espalhando um sussurro inevitável:
Verdevale havia sobrevivido.

Nas fronteiras, o Duque Merivold recebeu outra mensagem. Seus olhos se estreitaram, e desta vez… ele não sorriu.

— Chamem Lady Selindra.

Quando a emissária mais habilidosa do ducado se apresentou, o duque foi direto:

— Vá a Verdevale. Ofereça aliança, proteção… qualquer coisa que faça aquele garoto confiar em nós. Mas descubra como ele resistiu. Verdevale não deve crescer sem que Astoria controle suas raízes.

Selindra inclinou-se, olhos azuis gélidos refletindo cálculo.

— Se ele for tolo, eu o enganarei.
Se for esperto… então testarei seus limites.

Na noite seguinte, o portão principal de Verdevale se abriu. Uma comitiva elegante atravessou as ruas simples do vilarejo. À frente, uma jovem nobre de postura impecável seguiu direto ao bastião.

— Senhor Renato Verdevale? Sou Lady Selindra, enviada do Ducado de Astoria. Venho propor um tratado… de amizade.

O silêncio caiu sobre a sala.

— Amizade, é? — Renato respondeu com calma. — Então… vamos conversar.

O jogo diplomático havia começado.

À luz de tochas, Selindra apresentou sua proposta: proteção, recursos, comércio — em troca do acesso à caverna de cristais.

Líria avançou um passo.

— Vantajoso para quem? Para nós, ou para o duque que já espera nos devorar vivos?

Selindra lançou-lhe um olhar frio.

— Que serva ousada.

Renato interrompeu, firme:

— Aqui, todos têm voz. Se isso a incomoda, talvez não devesse estar aqui.

A conversa se tornou um duelo silencioso. Palavras afiadas. Intenções ocultas.

— Coragem sem aliados é suicídio — disse Selindra.

Renato respondeu sem hesitar:

— Tempo é o que eu preciso. E se tentarem arrancá-lo… descobrirão que até um nobre falido pode se tornar um predador.

Quando Selindra deixou o bastião, já não exibia a mesma segurança.

— Ela veio medir minha força — murmurou Renato. — E saiu com medo do que ainda nem comecei a mostrar.

A guerra de espadas havia terminado.
A guerra de palavras… estava só começando.

Capítulo 12 — O Primeiro Fôlego do Renascimento

O sol ergueu-se preguiçoso, dissipando a névoa sobre o vale.

Renato caminhava pelas ruas ainda irregulares. Onde antes havia abandono, agora ecoavam martelos, vozes e passos apressados. Verdevale despertava.

Na praça central, bancas improvisadas surgiam pela primeira vez em anos. Nabos recém-colhidos, ervas secas, frutos silvestres. Elina organizava tecidos rústicos, enquanto crianças vendiam bolinhos simples.

Não era abundância.
Mas era vida.

— É pouco… — disse Líria, carregando uma cesta de frutas. — Mas eles sorriem como se fosse muito.

— Porque não é só comida — respondeu Renato. — É esperança.

Na forja, Gunnar moldava ferro entre faíscas.

— Teremos armas para lutar e ferramentas para plantar!

— As duas são necessárias — afirmou Renato. — Sem campo fértil, não há exército que resista.

Nas torres, Marien observava arqueiros em treinamento.

— Ainda erram — comentou.

— A mira melhora — respondeu Renato. — O importante é que já não tremem.

No campo, Derek moldava disciplina com gritos e escudos de madeira. Pessoas comuns se tornavam soldados.

Ao entardecer, Renato parou diante da muralha em construção. Crianças carregavam água. Mulheres costuravam bandeiras verdes.

— Cada pedra é uma promessa — disse ele.

— Então não quebre nenhuma — respondeu Líria, apertando sua mão.

À noite, o vilarejo se iluminou com pequenas fogueiras. Pão simples, caldo ralo, histórias compartilhadas.

Renato observou as estrelas da muralha.

Além da floresta, sombras vigiavam em silêncio.

O renascimento de Verdevale… já não passava despercebido.

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dezembro 28, 2025 | Abraham Costa

O guardião das Bruxas – Light Novel | Capítulos 8 a 10

Capítulo 8 — O Silêncio Antes do Despertar

Foram dias de tensão.

Lysandra permanecia deitada sobre a palha, imóvel, o peito subindo e descendo com dificuldade. A respiração era fraca, irregular. O corset rasgado deixava à mostra feridas profundas, algumas ainda abertas, que Caio limpava com panos improvisados, molhados em água fervida.

O guardião das Bruxas é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

A cada curativo, ele suspirava, sentindo o peso da responsabilidade crescer.

— Eu não sou médico… — murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer outro. — Mas se você morrer aqui, vai ser porque eu não tentei.

Lia observava à distância, braços cruzados, postura impecável. Seus olhos de cristal azul brilhavam frios, analisando cada movimento.

— Sugestão: descartar paciente — disse, em tom neutro. — Estatística de recuperação: sete por cento. Risco de infecção mágica: elevado. Mestre está desperdiçando energia.

Caio a encarou, suado, a túnica manchada de sangue seco.

— Se fosse você caída no chão, Lia, eu também ia tentar salvar.

Ela inclinou a cabeça levemente, como se processasse a afirmação.

— Correção: eu não posso morrer. Sou uma unidade de assistência. Comparação ilógica.

Caio riu sozinho, um riso cansado.

— É… mas pra mim dá na mesma. Você também é minha responsabilidade.

Sem saber exatamente o que fazia, ele ferveu raízes, esmagou folhas, misturou tudo até virar uma pasta de cheiro forte. Aplicou a cataplasma nas feridas de Lysandra, mesmo sem garantia alguma de que funcionaria.

Lia observou a mistura com atenção.

— Formulação primitiva. Efeitos colaterais possíveis: alucinação, febre, vômito. Estatística de sucesso: quinze por cento.

— Então já é o dobro da sua previsão inicial — respondeu Caio, bufando.

Ele colocou um pano úmido na testa dela e afastou com cuidado os cabelos prateados grudados pelo suor. Lysandra soltou um suspiro baixo, ainda inconsciente.

Na terceira noite, algo mudou.

Enquanto Caio dormia encostado na parede, vencido pelo cansaço, Lia percebeu uma luz azulada surgindo sob a pele de Lysandra. As veias começaram a brilhar, símbolos arcanos aparecendo por instantes antes de desaparecerem, como marcas vivas.

Lia se aproximou, olhos registrando cada detalhe.

— Constatação: energia arcana instável circulando — informou. — Risco elevado de explosão mágica. Recomendação: Mestre deve evacuar.

Caio acordou sobressaltado, ainda sonolento.

— O quê… evacuar?! — resmungou. — Eu mal tenho casa e horta, Lia. Não vou abandonar alguém só porque brilha no escuro.

O brilho desapareceu tão rápido quanto havia surgido. Lysandra voltou a respirar normalmente, o corpo relaxando de novo na inconsciência.

Caio soltou um suspiro longo, aliviado.

— Você pode falar em estatísticas o quanto quiser — disse, em voz baixa. — Mas enquanto ela respirar, eu não vou desistir.

Naquela noite, o fogo da fogueira iluminava os três.

Caio, exausto, mas decidido.
Lia, impecável e silenciosa, processando as contradições de seu mestre.
Lysandra, imóvel, com pequenos brilhos arcanos surgindo e sumindo sob a pele, como segredos aguardando o momento certo para despertar.

Do lado de fora, a floresta rugia.
Mas nenhum monstro ousava atravessar o limite da vila.

Era como se até o próprio mundo estivesse em silêncio… esperando.

Capítulo 9 — A Bruxa que Abriu os Olhos

O quarto improvisado estava silencioso, iluminado apenas pela fogueira que estalava baixo.

Caio cochilava encostado na parede, a cabeça tombada para o lado. Lia permanecia sentada em uma cadeira de madeira, imóvel, os olhos azuis brilhando na penumbra.

De repente, um suspiro fraco quebrou o silêncio.

Os olhos azul-cristal de Lysandra se abriram lentamente. A primeira coisa que viu foi o teto rachado da casinha. Ela respirou fundo, tentando se mover, mas o corpo respondeu com uma onda de dor.

Lia inclinou levemente a cabeça.

— Paciente recuperou consciência. Estatística de sobrevivência atualizada para quarenta e três por cento.

A voz metálica fez Lysandra estremecer. Seu olhar foi direto para Lia, o pavor se refletindo em seus olhos cristalinos.

— O… o que é você? — sussurrou, rouca.

Caio acordou com o som, levantando-se num pulo.

— Você acordou! Graças a Deus… — Ele sorriu, aliviado, aproximando-se. — Fica calma. Você tá segura.

Lysandra tentou se erguer, mas a mão tremeu ao alcançar o chapéu caído ao lado. Ela o agarrou com força, como se fosse uma arma.

— Onde… onde eu estou? Quem são vocês?!

Caio ergueu as mãos, tentando acalmá-la.

— Ei, ei… relaxa. Você desmaiou na entrada da vila. Eu só te trouxe pra dentro, cuidei dos ferimentos. Não sou seu inimigo.

Ela ainda o encarava com desconfiança, os olhos marejados.

— Você… não sabe o que eu sou?

Antes que Caio pudesse responder, Lia falou:

— Identificação: Lysandra Noirveil. Bruxa Arcana. Classificação: inimiga da humanidade. Alta periculosidade.

— Lia! — Caio virou-se quase gritando. — Esse não é o jeito de acalmar alguém!

Lysandra estremeceu, apertando o chapéu contra o peito.

— Então… você sabe…

Caio se aproximou devagar e se ajoelhou ao lado dela. O rosto estava sério, mas os olhos azuis carregavam uma sinceridade difícil de ignorar.

— Eu sei que você tava morrendo — disse. — E que agora tá aqui, viva. Isso é o que importa.

Ela o encarou em silêncio. Pela primeira vez em muito tempo, não via ódio nem medo imediato em alguém que descobria o que ela era.

Um estalo baixo quebrou o momento. As veias de Lysandra brilharam por um instante, símbolos arcanos surgindo em sua pele como tatuagens de luz.

— Não olha! — ela pediu, tentando esconder os braços.

Caio piscou, mas não desviou o olhar.

— Já vi coisa pior… tipo minha cara no espelho de manhã.

Lia registrou, sem emoção:

— Constatação: energia arcana instável detectada. Conclusão: paciente é perigosa.

Caio soltou um suspiro longo.

— Todo mundo é perigoso — respondeu. — Mas isso não muda nada. Aqui… você não vai ser caçada.

Lysandra permaneceu em silêncio. Os olhos se encheram de lágrimas, e, pela primeira vez, ela baixou o chapéu, permitindo que ele repousasse no chão.

A chama da fogueira iluminava os três.

A vila esquecida, amaldiçoada, silenciosa…

Agora, tinha sua primeira bruxa desperta.

Capítulo 10 — Um Lar Improvável

O sol da manhã iluminava a pequena casinha recém-reconstruída.

Caio mexia um caldo grosso de raízes e ervas, suando em bicas.

— Essa vai ser a primeira sopa decente desse império das batatas.

— Correção: taxa de aceitação pelo organismo humano: nove por cento — informou Lia.

— Se eu te ouvisse sempre, já teria morrido de fome.

Da cama, Lysandra observava em silêncio. Aquela cena parecia absurda… e estranhamente acolhedora.

— Por que está me ajudando? — perguntou.

— Porque eu não gosto de silêncio — respondeu Caio, simples.

— Você não teme o que eu sou?

— Já caí de vinte metros gravando novela. Depois disso, nada assusta.

Nos dias seguintes, Lysandra se recuperou aos poucos. Símbolos surgiam às vezes, mas Caio fingia não ver.

— É estranho… — murmurou ela certa manhã. — Os monstros não entram aqui.

— Barreira mística desconhecida — explicou Lia.

— Sei o que esse lugar é — disse Caio. — É meu lar. E agora pode ser o seu.

Naquela noite, a sopa foi servida.

— Tá horrível — disse Caio. — Mas não mata.

Lysandra provou… tossiu… e riu.

— Você é o pior cozinheiro que já conheci.

— Então já tá melhorando.

— Estatística de vínculo humano: em crescimento — concluiu Lia.

E, pela primeira vez, aquela casinha amaldiçoada parecia realmente um lar.

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dezembro 24, 2025 | Abraham Costa

Reencarnado na Idade do Fogo | Light Novel – Capítulo 1

Capítulo 1

Ele Trabalhou Até Não Sobrar Nada

Ricardo desligou a máquina com um movimento automático.

O som metálico cessou, mas o zumbido permaneceu em sua cabeça, como se o corpo tivesse se acostumado demais ao barulho. Ele olhou o relógio na parede da fábrica: 18h47.

Reencarnado na Idade do Fogo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Horas extras. De novo.

Limpou o suor do rosto com a manga da camisa azul já desbotada. As mãos estavam ásperas, marcadas por pequenos cortes. Trabalhar com máquinas fazia isso com qualquer um — principalmente com quem nunca recusava turno.

— Pode ir, Ricardo — disse o encarregado, sem levantar os olhos.

Nenhum “bom Natal”.

Ninguém esperava isso ali.

No vestiário, trocou de roupa em silêncio. O celular vibrava no bolso. Mensagens de cobrança. Banco. Dois números desconhecidos. Um áudio curto, ríspido, de alguém que não pedia — exigia.

Dívidas que não eram dele.

Os pais haviam morrido deixando tudo para trás: casa penhorada, empréstimos, nomes sujos.
E Ricardo… ficou.

Pagando.

Sete namoradas ao longo dos anos. Sete términos parecidos.

“Você nunca está aqui.”
“Você só trabalha.”
“Não dá pra competir com essa fábrica.”

Ele nunca respondeu.

Porque sabia que era verdade.

Do lado de fora, a rua estava quase vazia. As luzes de Natal piscavam em algumas casas. Risadas vinham de longe, abafadas pelo som dos carros.

Ricardo colocou as mãos nos bolsos e começou a andar.

Naquela noite, ia comer qualquer coisa e dormir cedo. No dia seguinte, talvez tivesse turno extra. Talvez não.

Atravessou a rua sem pressa.

Não viu o farol vermelho.

O impacto veio seco. Rápido. Sem dor.

O mundo ficou em silêncio.

Branco.

Não havia chão.
Não havia céu.

Ricardo flutuava.

Uma voz neutra ecoou, sem emoção:

Central de Reencarnações. Processando alma.

À frente, uma roleta gigante girava lentamente. Símbolos estranhos passavam diante de seus olhos. Ele tentou falar, mas nenhuma palavra saiu.

A roleta desacelerou.

Parou.

Habilidade Selecionada:
Merceria Online — Versão Ancestral

— O quê…?

Não houve explicação.

A luz o envolveu.

E então… ele caiu.

Capítulo 2

O Corpo Que Não Valia Nada

Asta acordou engasgando.

O gosto amargo queimava a garganta. O corpo estava pesado, fraco, como se cada respiração exigisse esforço consciente. Quando tentou se levantar, falhou.

Memórias que não eram suas surgiram em fragmentos.

Aquele corpo havia sido desprezado desde sempre. Não caçava bem. Não lutava. Servia apenas para carregar coisas… até o dia em que alguém decidiu que nem isso valia a pena.

Veneno.

— …então foi assim — murmurou.

A voz saiu diferente. Mais rouca. Mais simples.

A porta da cabana se abriu com um chute.

— Ainda vive? — perguntou um homem, indiferente.
— Se morrer hoje, joga fora antes de feder.

A porta se fechou.

Asta respirou fundo.

Só então percebeu o detalhe mais estranho.

Não havia fogo.

Nenhuma chama. Nenhuma tocha. Nenhuma fumaça subindo da aldeia.

Carne crua pendurada. Ossos espalhados. Pessoas comendo em silêncio, olhando para o chão.

Antes que o pânico se instalasse, algo piscou em sua visão.

Merceria Online — Versão Ancestral
Status: BLOQUEADA
Condição: sobreviver

Asta fechou os olhos.

Na vida passada, ele havia sido explorado.
Nesta… era descartável.

Passos leves se aproximaram do lado de fora.

Diferentes. Calmos.

A porta se abriu.

Ela entrou.

Cabelos azul-claro balançavam com o vento. Olhos azuis vivos observavam tudo com atenção calculada. A presença dela tornava o ar pesado.

Asta soube imediatamente.

Aquela mulher tinha poder.

— Então você não morreu — disse Nayara Ul’Khan.

Ela se aproximou e tocou o pulso dele com dois dedos.

— Ótimo — um sorriso discreto surgiu. — Ainda pode ser usado.

Asta engoliu em seco.

Ele ainda não entendia aquele mundo.

Mas uma coisa ficou clara.

Para viver ali…
precisaria se tornar necessário.

Capítulo 3

Comida Define Quem Vive

Asta foi arrastado para fora da cabana ainda fraco.

Não com violência — com descaso.

Dois homens o seguravam pelos braços como se carregassem um animal doente. Seus pés arrastavam na terra batida, levantando poeira fina. Em volta, ninguém dizia nada.

O centro da aldeia estava em silêncio.

Varas de madeira sustentavam pedaços de carne crua. Algumas ainda vermelhas. Outras já escurecidas pelo sol. Moscas pousavam sem medo.

O estômago de Asta embrulhou.

— Isso… vocês comem assim? — perguntou, sem perceber que falava alto.

Algumas pessoas o olharam como se tivesse dito algo idiota.

— Sempre foi assim — respondeu um dos anciãos. — O sol seca. O estômago aguenta.

Nayara observava.

Não interrompeu. Apenas cruzou os braços, avaliando.

Naquele momento, algo piscou novamente na visão de Asta.

Merceria Ancestral — Acesso Parcial Liberado
Categoria disponível: Conservação Básica

Não havia itens.
Não havia compras.

Apenas ideias.

Ele fechou os olhos por um instante… e entendeu.

— O sol não é o problema — disse, calmo. — É o jeito.

Risadas baixas surgiram. Um ancião cuspiu no chão.

— Você mal anda. Vai nos ensinar a viver?

Asta apontou para a carne mais escura.

— Essa apodrece primeiro. Porque fica grossa demais. A parte de dentro não seca.

Aproximou-se com dificuldade e se ajoelhou.

— Cortem mais fino. Sempre no mesmo tamanho. Pendurem onde o vento passa, não onde o sol queima.

Silêncio.

Nayara estreitou os olhos.

— Continue — ordenou.

— E sal — Asta tocou os lábios secos. — Vocês têm. Usam só para feridas. Usem na carne. Pouco. Não para dar gosto. Para tirar a água.

Um dos homens hesitou.

— Isso desperdiça sal.

Asta ergueu o olhar, firme.

— Carne perdida desperdiça caçadores.

Aquilo acertou em cheio.

Horas depois, pequenas mudanças estavam feitas. Nada milagroso. Nada rápido.

Mas naquela noite…

Ninguém passou mal.
Ninguém morreu.

Nayara observava a aldeia em silêncio.

Quando todos se dispersaram, aproximou-se de Asta.

— Você não ensinou magia — disse. — Nem força.

Ela o encarou.

— Ensinou a pensar.

Asta respondeu apenas:

— Comida decide quem vive. O resto vem depois.

Nayara sorriu de leve.

Não de charme.

De interesse real.

Próximo Capítulo

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dezembro 23, 2025 | Abraham Costa

O guardião das Bruxas – Light Novel | Capítulos 7 e 8

Capítulo 7 — A Bruxa Além da Barreira

A noite caiu pesada sobre o vilarejo.

Dentro da pequena casinha, o fogo da fogueira estalava baixo, lançando sombras instáveis pelas paredes de madeira. Caio mastigava mais uma raiz assada, o rosto cansado iluminado pelas chamas, enquanto Lia, sentada do outro lado, polia calmamente as próprias mãos metálicas, como se aquele gesto fosse parte de um ritual silencioso.

O guardião das Bruxas é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Foi então que o uivo ecoou.

Grave. Profundo. Vindo da floresta.

Caio se levantou num salto, os olhos azuis atentos, o corpo tenso. Lia ergueu o rosto no mesmo instante, seus olhos cristalinos brilhando com intensidade.

— Detecção — anunciou. — Movimentação hostil na direção da vila.

Do lado de fora, sombras se deslocavam entre as árvores. Olhos vermelhos surgiam na escuridão, um após o outro. Bestas da floresta. Grandes. De presas afiadas e corpos moldados para a caça.

Mas, ao alcançarem o limite que separava a floresta do vilarejo, todas pararam.

Como se algo invisível as impedisse de avançar.

Rugiam, arranhavam a terra, golpeavam o ar vazio… mas não cruzavam a linha.

Caio sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

— … Eles… não entram.

Lia observava com calma calculada. Os circuitos em seu pescoço brilharam em azul.

— Constatação: presença de barreira mística envolvendo a vila. Finalidade desconhecida. Possibilidade: as criaturas temem ou são impedidas por resquícios de energia abissal.

Antes que Caio pudesse responder, algo diferente emergiu da floresta.

Uma figura humana.

Uma mulher corria em desespero, tropeçando, com os cabelos prateados emaranhados. O corset azul estava rasgado, o corpo coberto de sangue seco e arranhões profundos. Os olhos azul-cristal, antes intensos, agora apagados pela dor e exaustão.

Ela atravessou o limite entre os monstros sem que nenhuma das criaturas reagisse.

Deu alguns passos vacilantes… e caiu de joelhos na entrada da vila.

Seu chapéu de bruxa rolou pelo chão, parando aos pés de Caio.

— É… uma pessoa — murmurou ele, em choque.

Lia foi imediata.

— Correção: não é apenas uma pessoa. Identificação confirmada: bruxa. Classe de risco elevada. Mestre, recomendação: abandonar. Acolher essa mulher transformará a vila em alvo.

Caio não respondeu. Já corria em direção a ela.

Ajoelhou-se ao seu lado. O corset rasgado revelava ferimentos profundos, alguns ainda abertos. O corpo dela tremia de frio e dor.

Ele cerrou os dentes.

— Não importa quem seja… ela tá morrendo.

Lia aproximou-se, braços cruzados, expressão fria.

— Salvar uma bruxa equivale a declarar guerra à igreja, aos reinos e às entidades demoníacas. Estatística de sobrevivência do Mestre reduzida para doze por cento.

Caio ergueu o rosto. O suor escorria por sua testa, os olhos azuis brilhando no escuro.

— Então que se dane o mundo. Aqui… ninguém vai caçar mais ninguém.

Sem hesitar, pegou a mulher nos braços. Ela estava leve demais, quase sem forças. O sangue manchou sua túnica clara, mas ele não recuou.

Levou-a para dentro da casinha e a deitou sobre a palha improvisada que servia de cama.

Lia observava em silêncio, os olhos brilhando enquanto processava aquela decisão ilógica.

— Registro: Mestre optou por hospedar inimiga da humanidade. Possibilidade de desastre: quase absoluta.

Caio limpava as feridas dela com panos improvisados, mesmo sem qualquer conhecimento médico.

— Então escreve também — respondeu, sem olhar para Lia — que eu não vou deixar ela morrer aqui.

A fogueira tremulava, iluminando a pequena casa.

A mulher respirava fraco, inconsciente.

Do lado de fora, os monstros continuavam uivando… mas nenhum ousava atravessar o limite.

E assim, a primeira bruxa encontrou abrigo no vilarejo amaldiçoado — sem imaginar que aquele gesto marcava apenas o início de uma nova era.

Capítulo 8 — Quando a Magia Respira

Foram dias de tensão.

A mulher, Lysandra, permanecia deitada sobre a palha, imóvel, com a respiração fraca e irregular. O corset rasgado deixava à mostra feridas profundas, que Caio limpava diariamente com panos improvisados, sempre molhados em água fervida.

A cada curativo, ele suspirava.

— Eu não sou médico… mas se você morrer aqui, vai ser porque eu não tentei.

Lia observava à distância, sempre de braços cruzados. Seus olhos de cristal azul permaneciam frios e atentos.

— Sugestão: descartar paciente. Estatística de recuperação: sete por cento. Risco de infecção mágica elevado. Mestre está desperdiçando energia.

Caio a encarou, suado, a túnica ainda manchada de sangue.

— Se fosse você caída no chão, Lia, eu também ia tentar salvar.

Ela inclinou levemente a cabeça, como se processasse a comparação.

— Correção: eu não posso morrer. Sou uma unidade de assistência. Comparação ilógica.

Caio riu sozinho.

— Pode até ser. Mas pra mim dá na mesma. Você também é minha responsabilidade.

Ele ferveu raízes, esmagou folhas, misturou tudo como pôde, formando uma cataplasma de aparência duvidosa. Aplicou sobre as feridas de Lysandra, mesmo sem saber se aquilo ajudaria ou pioraria a situação.

Lia analisou a mistura, os olhos cintilando.

— Formulação primitiva. Possíveis efeitos colaterais: alucinação, febre, vômito. Estatística de sucesso: quinze por cento.

Caio bufou.

— Então já é o dobro da sua previsão inicial.

Colocou um pano úmido na testa de Lysandra e ajeitou com cuidado seus cabelos prateados.

Ela suspirou baixo, ainda inconsciente.

Na terceira noite, algo mudou.

Enquanto Caio dormia encostado na parede, exausto, Lia percebeu uma luz azulada surgir sob a pele de Lysandra. Símbolos arcanos desenhavam-se brevemente em suas veias, brilhando por instantes antes de desaparecer.

Lia aproximou-se, registrando cada detalhe.

— Constatação: energia arcana instável em circulação. Risco elevado de explosão mágica. Recomendação: Mestre deve evacuar.

Caio acordou assustado, ainda meio sonolento.

— O quê… evacuar?! — murmurou. — Eu mal tenho casa e horta, Lia. Não vou abandonar alguém só porque brilha no escuro.

O brilho desapareceu tão rápido quanto surgira. Lysandra voltou a respirar normalmente, ainda inconsciente.

Caio soltou o ar que prendia.

— Você pode falar em estatísticas o quanto quiser. Mas enquanto ela respirar… eu não vou desistir.

Naquela noite, o fogo da fogueira iluminava três destinos entrelaçados:

Caio, exausto, mas firme em sua decisão.

Lia, impecável e silenciosa, processando as contradições de seu Mestre.

E Lysandra, imóvel, mas com pequenos brilhos arcanos surgindo ocasionalmente sob a pele — como se guardasse segredos que nenhum deles ainda compreendia.

Do lado de fora, a floresta rugia.

Mas nenhum monstro ousava atravessar o limite da vila.

Era como se até o próprio mundo estivesse em silêncio… aguardando o despertar.

Próximo capítulo

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dezembro 22, 2025 | Abraham Costa

O guardião das Bruxas – Light Novel | Capítulos 5 e 6

🌙 Bloco 5 — A Vila em Silêncio ( light novel)

O vento da manhã soprava fraco, arrastando poeira antiga e folhas secas pelas ruas vazias da vila. Não havia vozes, nem passos, apenas o som irregular do ar passando entre casas abandonadas.

Caio estava de joelhos na terra, suado, com as mãos cobertas de lama. A túnica clara que um dia fora limpa agora estava rasgada em vários pontos, manchada de terra e desgaste. Um pano improvisado estava amarrado à cabeça, tentando conter o cabelo verde que insistia em cair sobre seus olhos.

O guardião das Bruxas é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ele enterrava sementes improvisadas no solo duro, uma por uma, como se cada gesto fosse um pequeno ato de teimosia contra o destino. Ou talvez esperança.

— Se isso brotar… — murmurou, ofegante — eu juro que faço uma festa. Sopa de raiz e pão de barro pra todo mundo. Mesmo que “todo mundo” seja só eu.

Lia o observava à distância, sentada sobre uma pedra próxima. Impecável, como sempre. Seu vestido preto contrastava com o avental branco sem uma única mancha, e as botas claras refletiam a luz do sol, intocadas pela poeira que dominava o vilarejo.

— Correção — disse ela, com a voz calma e precisa. — Taxa estimada de germinação das sementes: doze por cento. Mestre está apenas enterrando fracassos futuros.

Caio ergueu o rosto lentamente, encarando-a com descrença.

— Eu não sei o que me irrita mais — respondeu — você prever minha morte todos os dias… ou o fato de quase sempre estar certa.

Enquanto ele resmungava, Lia se levantou. Por um breve instante, o código de barras em seu pescoço brilhou em azul, e linhas luminosas percorreram seus braços como circuitos vivos antes de desaparecerem. Ela ajoelhou-se ao lado da horta improvisada e apoiou as mãos sobre a terra.

Pequenas partículas azuladas se espalharam pelo solo, flutuando como poeira luminosa enquanto analisavam cada centímetro.

— Análise concluída — anunciou. — O solo necessita de rotação e adição de minerais básicos. Sugestão: coletar cinzas da praça queimada para enriquecimento nutricional.

Caio arregalou os olhos.

— Você… sabe de agricultura?

— Sou uma unidade de assistência — respondeu Lia, sem hesitar. — Conhecimento enciclopédico incluído. O Mestre, no entanto, permanece sendo apenas um humano suado com estatística de fracasso acima da média.

Por alguns segundos, Caio ficou em silêncio. Então caiu na gargalhada.

— Você é cruel, sabia?

Seguindo a orientação dela, caminhou até a antiga praça central da vila. O local parecia ainda mais morto do que o restante. Cinzas cobriam o chão, espalhadas como se algo tivesse sido queimado ali até desaparecer por completo.

No centro, uma pedra negra se erguia, marcada por símbolos circulares profundamente gravados. Não parecia um simples monumento. Havia algo errado ali.

Caio parou diante dela e engoliu em seco.

— Isso… não era só uma vila comum, né?

Lia observava à distância, os olhos azuis pulsando em silêncio enquanto analisava a estrutura.

— Constatação confirmada — disse por fim. — Evidências de ritual detectadas. Finalidade desconhecida. Recomendação: Mestre não encostar.

Caio estendeu a mão por reflexo, mas parou no meio do movimento. Riu, nervoso, recuando.

— Tá bom, tá bom. Eu já aprendi. Quando você diz “não encosta”, é melhor obedecer.

Ele recolheu apenas as cinzas espalhadas ao redor, evitando a pedra.

— Pronto. Cinza nutritiva, sem pacto demoníaco incluso.

De volta à casinha, espalhou o material sobre o solo da horta. Lia observava de braços cruzados, como uma supervisora exigente avaliando cada detalhe.

Quando terminou, Caio se deixou cair no chão, completamente exausto.

— Eu devia ter virado dublê — resmungou. — Não fazendeiro amaldiçoado. Você tem ideia de quantos pulos mortais eu dava sem reclamar?

Lia inclinou levemente a cabeça.

— Registro: Mestre demonstra nostalgia de seu ofício anterior. Pergunta: o que é um “pulo mortal”?

Caio abriu a boca para responder, mas fechou logo em seguida.

— … Melhor não te ensinar. Se não, você vai tentar pular do telhado calculando ângulos de morte.

Lia piscou, curiosa, mas não insistiu.

Naquela noite, os dois ficaram sentados em silêncio diante da fogueira. O vilarejo morto os cercava por todos os lados, mas, ao lado da casinha, havia agora um pequeno canteiro organizado. Frágil. Imperfeito. Mas vivo.

Caio olhou para Lia, que permanecia impecável, iluminada pelo reflexo das chamas.

— Sabe… se você não fosse uma lata com código de barras — disse, em tom leve — eu diria que é uma ótima parceira.

Ela respondeu sem hesitar:

— Registro: Mestre considera unidade uma parceira. Estatística de sucesso do vilarejo elevada para vinte e nove por cento.

Caio gargalhou alto.

— Vinte e nove por cento?! Então você tá dizendo que ainda vou morrer?

— Com certeza.

E assim ficaram, sob o silêncio da noite, entre cinzas antigas e novas esperanças — sem saber que o destino já preparava visitantes inesperados para aquele vilarejo amaldiçoado.

🌙 Bloco 6 — A Noite e o Fogo Azul ( light novel)

O dia havia sido longo.

Caio passou horas reforçando a casinha com tábuas soltas e pedras recolhidas das ruínas próximas, enquanto Lia observava tudo como uma inspetora incansável, corrigindo posições e apontando riscos estruturais.

A pequena horta dava sinais tímidos de vida, mas ainda não havia nada que pudesse realmente matar a fome.

Quando o sol se pôs, o vilarejo mergulhou em um silêncio absoluto.

Não havia grilos. Não havia vento. Nada.

O vazio sonoro incomodava mais do que qualquer ruído.

Caio estava sentado diante da fogueira, mordendo uma raiz dura demais para seu gosto.

— Sabe, Lia… — disse, pensativo — quando eu imaginava uma vida tranquila numa fazenda, não incluía passar fome e conversar com uma robô que me chama de incompetente todo dia.

Lia, impecável em sua roupa de maid, piscou os olhos azuis.

— Correção: não todos os dias. Apenas nos dias em que o Mestre respira.

Caio engasgou com a raiz e caiu na gargalhada.

— Você é impossível.

Foi então que um brilho estranho chamou sua atenção.

Na praça central, distante, os símbolos gravados na pedra começaram a arder em chamas azuis — sem fogo, sem calor visível. As linhas pulsavam, como se estivessem vivas.

Caio se levantou de um salto.

— Lia… você tá vendo isso?!

Ela também encarava a cena, os olhos refletindo a chama mística. Por um instante, o código de barras em seu pescoço brilhou intensamente, e sua voz mudou de tom. Fria. Mecânica demais.

— Alerta. Energia residual detectada. Categoria: abissal. Recomenda-se evacuação imediata.

Caio engoliu seco.

— Abissal? Evacuar pra onde?! O mundo inteiro é floresta e mato!

Ignorando o pânico dele, Lia começou a caminhar em direção à praça. Seus olhos brilhavam com intensidade crescente, como se processassem milhares de cálculos ao mesmo tempo.

Caio correu atrás.

— Ei! Onde você pensa que vai?! Eu sou o Mestre aqui, lembra?!

Ela parou diante da pedra envolta em fogo azul. Estendeu a mão lentamente, o vestido balançando com o vento inexistente, o código de barras brilhando com força.

Caio segurou seu braço.

— Tá maluca?! Isso aí pode te fritar por dentro!

Lia virou o rosto para ele. Pela primeira vez, sua expressão parecia… humana.

— Curiosidade — disse, em voz baixa. — Quero entender. Quero… sentir o que há aqui.

Caio congelou.

Por um breve momento, não era apenas uma máquina falando. Era alguém tentando compreender o mundo.

Mas antes que ela tocasse a pedra, o fogo azul se apagou sozinho. Restaram apenas marcas negras e um fio de fumaça que se dissipou no ar.

Lia recuou, sua postura voltando ao normal.

— Análise encerrada. Recomendação: evitar praça central durante o período noturno. Estatística de perigo: noventa e um por cento.

Caio ainda segurava seu braço quando riu, nervoso.

— Você quase virou churrasco arcano… e tá aí falando em estatística?

Ela ajeitou o avental, séria.

— Mestre, morrer é fácil. Viver exige planejamento. E você não tem nenhum.

Caio riu, mas sentiu um peso estranho no peito.

Aquela vila não era apenas ruínas esquecidas. Algo a mantinha presa no tempo.

E agora ele sabia.

A chama azul voltaria.

E da próxima vez… talvez não fosse apenas um aviso.

Capítulo 7

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dezembro 19, 2025 | Abraham Costa

O guardião das Bruxas – Light Novel | Capítulos 3 e 4

Capítulo 3 — Sobrevivência e Sinais Esquecidos

O dia seguinte nasceu cinzento.
Um vento frio soprava pelas ruas desertas do vilarejo, atravessando o que restava das construções. Caio ajeitou a túnica suja e soltou um suspiro pesado enquanto observava a antiga praça.

Telhados haviam desmoronado.
Pedras enegrecidas pelo fogo se espalhavam pelo chão. Nas paredes, símbolos riscados com algo que lembrava carvão formavam desenhos inquietantes.

O guardião das Bruxas é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ele franziu a testa e murmurou:

— Isso aqui tá mais pra cenário de filme de terror do que pra fazendinha dos sonhos.

Atrás dele, Lia caminhava em silêncio. Seus passos eram suaves demais, calculados, como se cada movimento fosse resultado de uma equação precisa. O vestido impecável destoava da destruição ao redor, e o código de barras em seu pescoço refletia a luz fraca da manhã.

— Constatação: esta vila foi abandonada às pressas. Índices de destruição indicam incêndios e símbolos de restrição mística. Conclusão provável: local amaldiçoado.

Caio se virou no mesmo instante, indignado.

— Amaldiçoado?! E só agora você me fala isso?!

— O Mestre não perguntou.

Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da situação.

— Ótimo… virei o zelador oficial da Vila da Maldição. Minha mãe estaria orgulhosa.

Com fome e o corpo pedindo descanso, Caio decidiu começar pelo básico: precisava de um abrigo decente. Arrastou pedaços de madeira, improvisou colunas e tentou erguer um teto. As calças logo ficaram rasgadas nos joelhos de tanto se ajoelhar no chão duro.

Lia observava tudo com os braços cruzados.

— Taxa de chance de desabamento em duas horas: noventa e sete por cento. Sugiro que o Mestre aprenda noções básicas de arquitetura antes de morrer esmagado.

Caio respirou fundo, segurando um graveto. Ao encostá-lo em uma das madeiras quebradas, algo inesperado aconteceu. A madeira se alinhou sozinha, encaixando-se com precisão, como se tivesse sido trabalhada por carpinteiros experientes. O teto se ergueu firme, formando uma estrutura sólida.

Ele arregalou os olhos, suado, mas com um sorriso surgindo no rosto.

— Ok… isso eu não esperava. Se esse graveto faz mágica, então a gente tem chance.

Lia aproximou-se, os olhos azuis brilhando com mais intensidade.

— Correção: chance de sobrevivência elevada para quarenta e um por cento. Ainda inaceitável, Mestre.

— Você sabe motivar alguém, hein…

No centro da vila, um antigo poço chamava atenção. Estava trancado com correntes e tábuas pregadas de forma improvisada. Caio se aproximou, animado.

— Isso é água, certeza. Finalmente alguma sorte!

Ele chutou a madeira. As correntes tilintaram até que cederam. Assim que o poço foi aberto, um cheiro pútrido escapou. A água lá dentro estava escura, coberta de limo.

Lia analisou a cena com olhar clínico.

— Contaminação elevada. Possibilidade de envenenamento imediato. Ingestão proibida.

Caio xingou baixo, frustrado.

— Nem água limpa esse lugar tem… que desgraça.

Foi então que percebeu os símbolos ao redor do poço. Círculos incompletos, marcas de fogo e figuras que lembravam olhos grotescos estavam riscados na pedra.

Ele engoliu seco.

— O que… aconteceu aqui?

Lia apenas observou.

— Sugestão: evitar questionar. O Mestre não possui recursos para enfrentar mistérios. Prioridade atual: não morrer de fome e sede.

No fim do dia, Caio conseguiu preparar novamente um pedaço de raiz. Lia permaneceu ao lado dele, corrigindo sua postura ao cortar madeira, ajudando a calcular buracos para o plantio e indicando pontos onde pequenas nascentes subterrâneas poderiam ser encontradas.

Enquanto mordia a raiz dura, Caio murmurou:

— Esse lugar… é assustador. Mas também é meu agora, né? Então vou fazer dar certo.

Lia voltou o olhar para ele. Os olhos azuis pulsaram levemente.

— Registro: Mestre declarou posse da vila amaldiçoada. Início do protocolo de restauração. Observação adicional: Mestre possui apenas vinte e oito por cento de chance de cumprir a promessa.

Caio riu sozinho, cuspindo um pedaço queimado da raiz.

— Se fosse pra me animar… você tá indo pelo caminho errado.

No céu, as primeiras estrelas começaram a surgir.
A vila esquecida permanecia mergulhada em silêncio, mas algo havia mudado. Entre as ruínas, uma pequena chama de esperança começava a se formar — enquanto um mistério ainda maior permanecia escondido sob aquelas pedras antigas.

Capítulo 4 — A Primeira Casa e a Vontade de Ficar

O sol já estava alto quando Caio decidiu que não podia mais continuar dormindo em casas prestes a desabar.
A ideia de acordar soterrado por tábuas velhas não parecia exatamente parte de um plano de sobrevivência bem-sucedido.

Ele limpou um espaço na rua principal do vilarejo e começou a empilhar tudo o que encontrou: tábuas tortas, pedras irregulares e telhas quebradas. O esforço fazia o suor escorrer pelo rosto, enquanto a túnica já encardida ficava ainda mais pesada.

Lia o observava com os braços cruzados. A postura era impecável, quase como a de uma chefe de obras feita de porcelana.

— Sugestão: estrutura irregular. O teto desabará em no máximo cinco dias. Conclusão adicional: o Mestre parece incapaz até de alinhar uma parede.

Caio limpou a testa com o antebraço e a encarou.

— E você parece incapaz de calar a boca.

A cada erro dele, Lia estalava os dedos metálicos. Pequenos circuitos se acendiam sob o avental, e hologramas rúnicos surgiam no ar, projetando exatamente como a estrutura deveria ser montada.

Caio arregalava os olhos a cada nova projeção.

— Você tem projetor 3D embutido?! Isso é apelação!

Mesmo reclamando, ele seguiu as instruções. Usou o graveto para reparar as madeiras, moldar as pedras e encaixar as telhas com mais precisão do que imaginava ser capaz. O trabalho levou horas, mas, ao fim da tarde, a casinha estava de pé.

Era simples. Pequena.
Mas sólida.

Caio se jogou no chão, ofegante, encarando o teto improvisado.

— Tá vendo isso, Lia? Minha primeira casa medieval.

Ela ajustou o avental, que permanecia impecável apesar de tudo.

— Correção: sua primeira casa que não parece uma armadilha mortal. Nível de risco reduzido para trinta e nove por cento.

Caio gargalhou.

— Pior que eu tô ficando acostumado com suas ofensas.

Com a casinha pronta, ele decidiu dar o próximo passo: preparar uma pequena horta. Cavou buracos no solo duro, plantou sementes mofadas e algumas raízes que havia encontrado pelo caminho.

Enquanto enfiava as mãos na terra, sujando ainda mais a túnica, Lia ajoelhou-se ao lado dele para observar. Os olhos de cristal azul brilharam com intensidade.

— Sugestão: rotacionar os buracos para receber mais luz solar. Correção: o Mestre está cavando como se fosse um cachorro desesperado. Estatística: sessenta e sete por cento de falha na colheita.

Caio bufou, sem paciência.

— Você pode até ser uma máquina perfeita, mas não sabe o prazer que é enfiar a mão na terra.

Ela inclinou levemente a cabeça, como se estivesse processando aquela informação.

— Registro: Mestre demonstra apego emocional ao contato físico com o solo. Possível defeito humano.

Caio riu.

— É, pode anotar aí no seu banco de dados: defeito humano chamado “querer viver”.

No fim do dia, Caio tentou mais uma vez puxar água do poço envenenado. Algo, porém, o incomodava. Os símbolos riscados nas pedras pareciam diferentes à noite, quase como se se movessem. Como olhos atentos, observando cada passo.

Ele desviou o olhar, fingindo não perceber.

Atrás dele, Lia falou com calma.

— Sugestão: não encarar por muito tempo. Símbolos instáveis podem afetar a mente do Mestre. Estatística: quarenta e dois por cento de chance de alucinações.

Caio engoliu seco.

— Ótimo… além de fome e sede, agora tenho que me preocupar com olhos demoníacos piscando na parede.

Naquela noite, dentro da casinha recém-erguida, Caio sentou-se diante da fogueira. A túnica exalava cheiro de fumaça, e as calças ainda estavam manchadas de terra. Lia, sentada com elegância ao seu lado, parecia deslocada demais naquele cenário rústico — como uma dama de ferro em meio às ruínas.

Caio olhou em volta e respirou fundo.

— Isso aqui… ainda não é nada. Mas vai ser. Vou transformar essa vila amaldiçoada numa fazenda de verdade. Nem que eu morra tentando.

Lia piscou lentamente. O código de barras em seu pescoço emitiu um brilho azulado.

— Registro salvo. Mestre declarou objetivo de transformação da vila. Probabilidade de falha: setenta e dois por cento. Observação: apesar da estatística, a expressão do Mestre sugere convicção.

Caio sorriu.

— Pode anotar aí também: eu sou teimoso. Isso não tem estatística que explique.

Do lado de fora, o vento soprou forte.
As ruínas ainda escondiam segredos, mas havia algo novo naquele lugar. Uma chama acesa — pequena, frágil, mas real. Lia registrou aquele momento em silêncio, ciente de que ali começava, de verdade, algo muito maior.

Capítulo 5

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dezembro 17, 2025 | Abraham Costa

O Último Herdeiro de Verdevale – Light Novel | Capítulo 8 e 9

O Ninho de Ferro – Capítulo 8

O amanhecer surgiu envolto por uma névoa espessa, suavemente iluminada pelo dourado do sol nascente. No alto da colina central de Verdevale, antigas estacas de madeira haviam sido removidas, abrindo espaço para algo muito maior.

No solo, marcas geométricas cuidadosamente traçadas delineavam a base de um projeto inédito.
Ali nascia a primeira fortaleza oficial do domínio.

O Último Herdeiro de Verdevale é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Renato permanecia diante de uma mesa improvisada, onde rolos de pergaminho estavam abertos. Gunnar, Elina e Líria observavam com atenção enquanto ele explicava cada detalhe do plano.

— Não construiremos um castelo ornamentado como os da nobreza tradicional — disse Renato, apontando com firmeza para o desenho. — Será um bastião compacto. Muralhas mais baixas, porém espessas, pensadas para resistir a impactos e permitir resposta rápida. A torre central funcionará como comando e abrigo em emergências. Cada pedra terá um propósito.

Gunnar analisou o projeto com atenção visível.

— Nunca vi algo assim… parece misturar arquitetura nórdica com estruturas do antigo Império. Onde aprendeu isso?

Renato respondeu com um leve sorriso contido.

— Digamos que li muitos livros… enquanto ninguém prestava atenção.

Ele não disse mais nada. Parte daquele conhecimento vinha de uma vida passada, marcada por estratégia, organização e decisões difíceis. Esse saber silencioso era um de seus maiores trunfos — algo que nenhum herdeiro desacreditado deveria possuir.

A notícia da construção se espalhou rapidamente.

Homens e mulheres passaram a trabalhar desde cedo, carregando pedras das ruínas antigas, cortando toras resistentes e escavando fundações profundas. O vilarejo ganhava um novo ritmo.

Elina coordenava a equipe civil com eficiência, enquanto Gunnar supervisionava ferreiros e pedreiros. Marien organizava vigias em pontos elevados, garantindo que o canteiro permanecesse protegido.

Ainda assim, a maior preocupação de Renato não estava nas muralhas… mas na informação.

Desde a chegada do suposto comerciante itinerante, sinais estranhos haviam surgido: pegadas fora do perímetro durante a noite, pequenos objetos mudando de lugar, olhares atentos demais entre alguns forasteiros.

De forma discreta, Renato organizou um pequeno grupo interno de observadores. Pessoas simples, mas atentas, encarregadas de relatar qualquer movimento incomum.

Líria ficou responsável por centralizar os registros.

— Não subestime ninguém — alertou Renato. — Mesmo alguém aparentemente inofensivo pode estar observando por outros motivos.

Alguns dias depois, próximo à muralha em construção, Marien interceptou um jovem que carregava um saco de farinha. Algo em sua postura chamou atenção.

Ao inspecionar o conteúdo, encontrou um tubo metálico escondido sob os mantimentos.

— Para onde você está levando isso? — perguntou Marien, mantendo a voz firme enquanto mantinha o arco preparado.

O rapaz tentou se explicar, mas antes que pudesse reagir, dois guardas improvisados o contiveram.

O objeto foi levado imediatamente até Renato.

Quando ele desenrolou o mapa, seu olhar se estreitou.

Ali estavam marcadas as posições de vigia, rotas de patrulha e até nomes de trabalhadores leais. No canto inferior, um selo discreto confirmava a origem:

Gabinete de Espionagem Imperial.

Renato permaneceu em silêncio por alguns instantes.
Então falou, em tom baixo e firme:

— Então… finalmente começaram.

Naquela noite, em uma sala ainda inacabada da futura fortaleza, Renato conduziu o interrogatório. O ambiente era simples, iluminado apenas por uma tocha.

Derek observava encostado à parede.
Marien mantinha atenção constante.
Líria anotava tudo com cuidado.

— Quem te enviou? — perguntou Renato, com calma controlada.

O jovem hesitou.

— Eu… eu só—

Renato apoiou a mão na mesa com firmeza.

— Não minta.

O peso do silêncio foi suficiente. Após algumas perguntas bem direcionadas e pressão psicológica precisa, o rapaz cedeu.

— Eles me pagaram… disseram que era só entregar o mapa a um mensageiro na floresta. Um homem encapuzado… voz de nobre… prometeu dez moedas de ouro.

Renato respirou fundo.

(Um intermediário… o verdadeiro espião ainda está aqui.)

Nos dias seguintes, Renato mudou a abordagem.

Mapas falsos foram produzidos, com informações deliberadamente incorretas — posições trocadas, áreas supostamente vulneráveis e nomes inventados. Esses documentos foram deixados “acidentalmente” em locais estratégicos.

Marien chamou a estratégia de “armadilha para ratos”.

Pouco tempo depois, um dos mapas desapareceu.

No dia seguinte, um batedor retornou das florestas próximas com notícias preocupantes.

— Capitão… havia cavaleiros imperiais a dois dias de viagem. Receberam um corvo esta manhã. Depois disso… mudaram a rota. Estão vindo direto para Verdevale.

Renato ouviu em silêncio.
Então sorriu de leve.

— Então morderam a isca.

Na madrugada seguinte, sob um luar pálido, Renato reuniu Marien, Derek, Gunnar, Líria e os líderes civis na sala principal do bastião em construção.

Os martelos haviam silenciado. Apenas a fogueira central iluminava os rostos atentos.

— O Império nos encontrou mais rápido do que imaginei — disse Renato. — Mas não estamos mais indefesos. Eles esperam encontrar um vilarejo vulnerável. Em vez disso… encontrarão um ninho de ferro pronto para reagir.

Derek cruzou os braços, sorrindo.

— Finalmente algo sério.

— Eles não vão passar — afirmou Marien, ajustando o arco.

Líria respirou fundo.

— Então… isso é real?

Renato a encarou com firmeza tranquila.

— Sim. Esta será a primeira batalha oficial de Verdevale.
Se vencermos, deixaremos de ser apenas um ponto esquecido no mapa.
Nos tornaremos um nome que o Império não poderá ignorar.

Na manhã seguinte, no horizonte encoberto pela neblina, bandeiras imperiais começaram a surgir lentamente.

A primeira onda havia chegado.

O Primeiro Rugido de Verdevale -Capítulo 9

O sol surgia lentamente por trás das colinas, tingindo a névoa matinal com tons avermelhados. Na antiga estrada de pedra que levava ao coração de Verdevale, bandeiras azuis tremulavam ao vento.

Quarenta soldados do Império marchavam em formação impecável. As armaduras refletiam a luz da manhã, lanças erguidas em perfeito alinhamento. O som das botas batendo no solo ecoava de forma ritmada, firme, como um aviso.

No alto da colina, sobre a muralha ainda inacabada da fortaleza, Renato observava em silêncio.

Atrás dele, cada peça do plano se posicionava. Marien ajustava a corda do arco com precisão treinada. Derek afiava a espada curta, expressão concentrada. Gunnar organizava os homens com escudos improvisados, reforçando posições. Líria respirava fundo, sentindo a energia aquática responder ao seu comando.

Renato foi o primeiro a falar.

— Eles vieram testar — disse, com voz baixa. — Não conquistar… ainda. O Império quer medir nossa força.

Seus olhos âmbar brilharam.

— Então vamos mostrar algo maior do que esperam.

Na estrada, o comandante imperial ergueu a mão, fazendo a tropa parar.

— Vilarejo de Verdevale! — anunciou, com autoridade. — Vocês estão em dívida com o Império. Por ordem de Sua Majestade, viemos tomar controle da caverna de cristais. Se se renderem agora, viverão. Resistam… e serão derrotados.

O silêncio se espalhou pelo vale.

Então, Renato avançou até o parapeito da muralha. Sua capa verde, já marcada pelo tempo, ondulava com o vento. Quando falou, sua voz saiu clara e firme.

— Vocês dizem que vieram esmagar… mas não percebem que já entraram no ninho do lobo.
Se querem nossos cristais, venham buscá-los. Mas saibam disto: Verdevale não é mais terra abandonada. É terra de quem luta por ela.

O comandante imperial riu, descrente.

— Palavras vazias de um garoto. Avancem.

A batalha começou.

A tropa imperial avançou em linha fechada, lanças à frente. Renato ergueu a mão — o sinal combinado.

— Agora.

Do alto das torres improvisadas, flechas disparadas por Marien e seus arqueiros cortaram o ar. Não causaram grandes perdas imediatas, mas atingiram o ritmo da marcha, forçando a tropa a desacelerar.

Ao mesmo tempo, Líria ergueu os braços. A água acumulada em recipientes escondidos escorreu pelas muralhas, transformando o solo seco em lama. As primeiras fileiras perderam equilíbrio, quebrando a formação.

— Escudos à frente! — gritou o comandante imperial.

Mas o terreno já não obedecia.

Com outro sinal, cordas ocultas foram puxadas. Estacas de madeira surgiram do solo ao longo da estrada. Os batedores montados perderam controle, e a marcha perfeita do Império se desfez.

— Formação de parede! Segurem! — bradou Derek.

Camponeses treinados se alinharam diante do portão. Lanças e escudos improvisados se chocaram contra o avanço imperial. O que os soldados esperavam ser um confronto rápido encontrou resistência inesperada.

Os defensores lutavam com determinação. Cada golpe carregava o peso de proteger casas, famílias e futuro.

Renato observava do alto, atento.

(Segurem mais um pouco…)

Quando parte da tropa tentou flanquear pelo leste, um leve sorriso surgiu em seu rosto.

— Marien. Agora.

Das árvores próximas à muralha, flechas incendiárias cruzaram o ar, atingindo carroças de suprimentos. As chamas se espalharam rapidamente. O inimigo foi forçado a dividir atenção entre o combate e a proteção de recursos.

A batalha se intensificou.

Líria, visivelmente cansada, manteve fluxos de água desviando tochas e resfriando o portão de madeira. Derek demonstrava experiência, derrubando adversários com movimentos precisos. Gunnar avançava com o martelo de forja, protegendo os combatentes mais jovens. Marien, dos pontos elevados, neutralizava oficiais, comprometendo o comando inimigo.

Renato, porém, não empunhava espada.

Ele apenas observava, calculava… e ajustava o tabuleiro.

No momento em que os soldados imperiais recuaram para reorganizar a formação, sua voz ecoou pelo campo.

— Soldados do Império!
Voltem agora, e direi que Verdevale apenas os afastou.
Avancem mais uma vez… e este lugar se tornará o fim da sua marcha.

O silêncio caiu.

O comandante imperial hesitou. Havia perdido homens para camponeses. E sabia que insistir poderia custar ainda mais.

Com raiva contida, ergueu a espada.

— Retirada! Verdevale… será enfrentada em outra ocasião.

As bandeiras azuis recuaram pela estrada, deixando para trás armas e suprimentos.

Na praça, Verdevale explodiu em comemoração.

Gritos de alívio e vitória ecoavam. Crianças corriam, famílias se abraçavam. Não era apenas uma defesa bem-sucedida.

Era o primeiro rugido de um território que despertava.

Renato permaneceu em silêncio no alto da muralha, observando o campo. Sua capa balançava ao vento. Líria se aproximou, exausta, mas sorrindo.

— Vencemos…

Renato respondeu em tom baixo:

— Não. Apenas começamos.
Agora o Império sabe que Verdevale está viva.
E da próxima vez… não virão com quarenta. Virão com centenas.

Mesmo assim, em seus olhos âmbar, não havia medo.

Apenas determinação.

Verdevale não era mais um nome esquecido.
Agora… era uma presença que não poderia ser ignorada.

Próximo Capítulo

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