APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA — Light Novel (Capítulos 3 e 4)
Capítulo 3 — O Aviso Ignorado
Kael acorda antes do despertador.
Não por ansiedade.
Mas porque seu corpo já não reconhece mais o ritmo normal do mundo.
O quarto está quente.
Não abafado — quente de verdade.
APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Ele se levanta, vai até a janela e a abre.
O vento entra, mas não refresca.
Arranha a pele.
Kael fecha os olhos por um segundo.
Flash.
Uma rua inteira coberta de areia até os joelhos.
Pessoas tentando andar… e afundando.
Um grito curto, interrompido.
Ele abre os olhos.
Rua normal.
Carros passando.
Buzinas.
Mas o corpo dele já não acredita nisso.
Kael sai cedo.
Não para comprar mais coisas — ainda não.
Hoje é dia de observar pessoas.
Ele caminha por regiões movimentadas.
Pontos de ônibus.
Calçadas cheias.
O padrão surge rápido.
Discussões bobas viram gritos.
Gente se empurrando por nada.
Um homem quase parte para cima de outro por causa de um lugar na fila.
Kael reconhece aquilo com precisão cirúrgica.
No futuro, esse era o dia em que ninguém levou a sério.
Ele para diante de uma banca de jornal.
O dono está sem camisa, suando, irritado.
— Esse calor não é normal, não.
— É só o Rio. — alguém responde.
Kael vira as costas.
Negação coletiva.
Sempre funciona… até não funcionar mais.
Perto do meio-dia, algo acontece.
Não grande.
Não apocalíptico.
Mas definitivo.
Um caminhão tomba em uma avenida principal.
Nada espetacular.
Sem explosão.
Só que o asfalto… cede.
Não afunda como um buraco comum.
Ele se desfaz em pequenos desníveis, como se o chão tivesse perdido rigidez.
As pessoas param.
Filmam.
Riem.
— Solo fofo, isso aí é obra mal feita.
O estômago de Kael se contrai.
Flash.
A mesma avenida, dias depois, completamente engolida.
Uma sombra se movendo por baixo, como algo nadando.
Ele se afasta.
O primeiro erro coletivo é sempre o mesmo:
rir do aviso.
À tarde, Kael volta a agir.
Entra em um atacadão comum.
Carrinhos rangendo.
Pessoas reclamando do calor.
Ele não enche o carrinho.
Compra peso.
Água.
Sal.
Alimentos simples, densos, que não estragam fácil.
Nada que chame atenção.
Enquanto paga, o caixa comenta:
— Dizem que vai ter uma onda de calor forte.
Kael pega as sacolas.
— Vai.
Ele sai.
No caminho, o celular vibra.
Lívia.
“vc não veio ontem
nem respondeu direito
tá acontecendo alguma coisa?”
Kael lê andando.
Outro flash tenta surgir — mais fraco dessa vez.
Uma sensação de costas expostas.
De confiar errado.
Ele responde:
“Só ocupado.”
Guarda o celular.
No apartamento, Kael organiza tudo no chão.
Não empilha.
Não joga.
Separa por função.
Comida.
Água.
Ferramentas.
Peso carregável.
Ele pega uma garrafa cheia, segura firme…
e sente algo estranho.
Não é força.
Não é cansaço.
É como se o espaço ao redor da mão cedesse por um milésimo de segundo.
Kael franze o cenho.
Tenta de novo.
Nada.
Silêncio.
Mas ele sentiu.
Não entende ainda.
Não força.
Apenas registra.
No fim do dia, o sol se põe…
mas o calor não vai embora.
Kael se senta no chão, encostado na parede.
O mundo lá fora segue normal.
Televisões ligadas.
Risos.
Música.
Mas ele sabe.
O Dia -4 foi o dia em que o mundo recebeu o aviso mais claro —
e escolheu ignorar.
Kael fecha os olhos.
Sem raiva.
Sem pressa.
Apenas certeza.
Eles ainda acham que estão vivos.
Ele já está se preparando para sobreviver.
Capítulo 4 — O Peso do Espaço

Kael acorda com a boca seca.
Não importa quanto tenha bebido no dia anterior.
O corpo dele pede água de um jeito diferente.
Ele se senta na cama e entende o erro.
Pouca comida não mata em um dia.
Pouca água mata rápido.
E no futuro…
água vira guerra.
Kael se levanta, pega o celular e confere o saldo.
Ainda tem dinheiro.
Mas não por muito tempo.
Ele não perde tempo pensando se é exagero.
No futuro, quem pensou assim morreu primeiro.
O primeiro destino do dia é um atacadão.
Nada de supermercado bonito.
Atacadão de verdade.
Carrinhos rangendo.
Gente comprando mais do que o normal.
Nada em pânico — ainda.
Kael pega dois carrinhos.
Sem pressa, começa a encher.
Galões de água.
Caixas fechadas.
Mais galões.
Mais caixas.
Não escolhe marca.
Escolhe volume.
Arroz.
Feijão.
Macarrão seco.
Comida enlatada.
Sal.
Açúcar.
Peso real.
Um homem observa estranho.
— Vai abrir restaurante?
Kael não responde.
Empurra os carrinhos até ficarem difíceis de controlar.
No caixa, a funcionária ri nervosa.
— Tá fazendo estoque pro fim do mundo?
Kael passa o cartão.
— Algo assim.
Do lado de fora, o sol parece mais agressivo.
Ele carrega tudo até um canto mais afastado do estacionamento.
Longe de câmeras.
Respira fundo.
Coloca a mão sobre um galão de água.
Não força.
Não imagina.
Ele pede.
O espaço responde.
Não como magia bonita.
Mas como um erro.
O galão afunda no ar por meio segundo —
como se tivesse sido puxado por algo invisível —
e desaparece.
Kael dá um passo para trás.
O coração acelera.
Não de medo.
De confirmação.
Ele tenta puxar.
O galão reaparece, caindo no chão com força.
Kael fica parado.
O poder não é confortável.
Não é estável.
Mas é real.
Ele testa de novo.
Mais um galão.
Depois outro.
Alguns entram.
Outros falham.
Quando falha, o peso volta de repente, quase derrubando ele.
O espaço não aceita tudo.
Ainda.
Kael entende rápido:
Existe limite.
Existe cansaço.
Existe resistência.
Mas também existe uma vantagem absurda.
Ele continua.
Suando.
Errando.
Acertando.
Quando termina, os carrinhos estão quase vazios.
O estacionamento, normal.
Mas Kael sente o peso dentro de si.
Como se carregasse um depósito invisível grudado ao corpo.
O segundo lugar é ainda menos elegante.
Um pequeno depósito de bebidas e água mineral.
Ali, ninguém faz perguntas.
Dinheiro troca de mão rápido.
Mais galões.
Mais caixas.
Kael não testa tudo ali.
Ele sabe quando parar.
O corpo começa a doer.
A cabeça lateja.
O espaço não é infinito.
É musculatura nova.
Forçar agora seria se machucar.
No caminho de volta, o celular vibra.
Lívia.
“vc tá estranho
gastando dinheiro
sumindo
isso não é normal”
Kael lê sem parar de andar.
Normal.
Essa palavra já não significa nada.
Ele responde:
“Cuida da tua vida.”
Curto.
Frio.
Guarda o celular.
No apartamento, Kael se senta no chão, exausto.
Não fisicamente.
Mentalmente.
Fecha os olhos e sente.
A água está lá.
A comida está lá.
Não em um “bolso mágico”.
Mas em um espaço comprimido, instável, que parece empurrar de volta se ele exagerar.
É perigoso.
Mas é sobrevivência.
Kael encosta a cabeça na parede.
No futuro, ele lembra de gente brigando por uma garrafa.
De gente matando por um gole.
Ele abre os olhos.
— Não comigo.
O sol se põe.
O calor continua.
O Dia -3 termina.
E, pela primeira vez, Kael não está apenas se preparando.
Ele está à frente.
APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA — Light Novel (Capítulos 1 e 2)
Capítulo 1 — Dia -5
Kael acorda com o corpo travado.
Não é preguiça.
É como se alguém tivesse deixado um peso de concreto sobre o peito dele.
Ele abre os olhos com cuidado — como quem espera ver areia, sangue e um teto rachado.
APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Mas vê… o teto comum do quarto.
Por um segundo, não se mexe.
A respiração fica curta.
O silêncio parece alto demais.
O ventilador de teto gira devagar.
Há cheiro de quarto fechado, roupa limpa, café vindo de algum apartamento vizinho.
Normal.
O que é errado.
Porque a última lembrança de Kael não é normal.
É um chão quente demais, areia entrando no nariz, e uma dor nas costas…
uma dor que não era só física.
Era traição.
Ele leva a mão às costas sem perceber.
Não há ferida.
Não há sangue.
Nada.
Kael se senta na cama devagar, como se o movimento pudesse quebrar o mundo.
E então vem o primeiro flash.
Não é uma memória completa.
É um recorte. Uma imagem solta.
Um céu vermelho.
Um prédio sendo engolido até o quinto andar.
E uma sombra gigante passando por baixo da areia, como um tubarão.
Kael fecha os olhos com força.
Abre de novo.
Quarto.
Ele se levanta e vai até a janela.
O Rio está lá fora. Vivo.
Carros passando.
Gente conversando.
Um entregador com mochila nas costas.
Nada de deserto.
Nada de monstros.
Mesmo assim… ele sente o calor.
Não o calor normal do Rio.
Mas um calor seco, impossível — um calor que sua pele jura que já conheceu.
A mão treme por um instante.
E ele odeia isso.
Kael não é do tipo que desaba.
Ele respira fundo. Uma vez. Duas.
A mente tenta organizar o que aconteceu, mas o quebra-cabeça está faltando peças.
Ainda assim, ele sabe duas coisas com absoluta certeza:
O mundo vai acabar.
Ele já viveu isso.
Só que… não lembra de tudo.
E isso irrita.
Kael pega o celular.
Data. Horário.
Dia -5.
Mesmo sem entender como, ele sabe.
Cinco dias antes.
Fica parado encarando a tela, como se quisesse atravessar o vidro com os olhos.
Cinco dias…
Ou eu faço o impossível… ou morro do mesmo jeito.
A primeira reação não é emoção.
É cálculo.
Ele abre o aplicativo do banco.
Olha o saldo.
Pouco. Ridículo para um fim de mundo.
Um flash rápido corta a mente:
Ele segurando uma garrafa d’água como se fosse ouro.
Brigando por uma lata de comida.
Vendo gente morrer por causa de um filtro quebrado.
Kael trava a mandíbula.
— Tá.
Vai até a gaveta e puxa uma pasta com documentos.
Contrato do apartamento.
Recibos.
Papéis de cartório.
Coisas chatas.
Coisas que ninguém valoriza.
Mas ele valoriza.
Porque agora… papel é arma.
Kael senta à mesa e começa a escrever num caderno velho, do jeito mais simples possível.
- Dinheiro hoje.
- Comida e água hoje.
- Equipamento hoje.
- Lugar que não cai.
Ele encara o último item por mais tempo.
Lugar que não cai…
Outro flash vem — mais forte, quase como se alguém tivesse empurrado a memória dentro da cabeça dele.
Uma fachada de hotel antigo.
Um subsolo.
Gente sobrevivendo por anos.
Uma placa apagada pelo tempo.
Ele não consegue ler o nome.
Só sente a certeza no estômago.
É importante.
Kael se levanta.
Veste-se todo de preto, no automático.
Camiseta preta.
Calça cargo preta.
Tênis escuro.
Pega uma mochila vazia.
Quando abre a porta do apartamento, o corredor cheira a desinfetante barato.
Uma televisão ligada no vizinho.
Risos.
Novela.
Vida normal.
Kael desce as escadas sem pressa.
Por dentro, tudo está acelerado.
Na rua, ele não corre.
Não faz drama.
Não fala com ninguém.
Só observa.
O olhar de alguém que já viu o final do filme.
O celular vibra.
Mensagem de Lívia.
amor vc sumiu kkkkk
vai vir aqui mais tarde? 💙
Kael lê.
O rosto não muda.
Mas algo no olhar endurece, como vidro.
Ele digita.
Hoje não.
Apaga.
Digita de novo.
Tenho coisa pra resolver.
Envia.
Guarda o celular como quem guarda uma arma.
Não vai confrontar agora.
Não vai explodir.
Não vai dar satisfação.
Só pensa:
Se eu lembrar exatamente quando você me apunhalou…
eu te apago do meu mundo com a mesma frieza.
Ele segue andando.
Primeiro destino: banco.
Depois: cartório.
Depois: lojas.
No meio do caminho, algo chama atenção.
O vento.
Quente.
Seco.
Vindo de uma direção errada — como se o mar tivesse virado deserto por alguns segundos.
Kael para por meio segundo.
Fecha a mão.
E segue.
Porque se o mundo vai acabar…
Ele vai fazer o mundo pagar caro por cada grão de areia.
Capítulo 2 — Antes do Mundo Aprender a Correr

Kael anda pelo centro sem pressa.
Não porque esteja calmo —
mas porque quem corre chama atenção.
O mundo ainda funciona.
Ou, pelo menos, finge que funciona.
As pessoas reclamam do calor.
Batem boca por fila.
Buzinam mais do que o normal.
Kael reconhece isso.
No futuro, esse era o começo.
Antes da fome.
Antes da areia.
Antes do medo virar violência aberta.
Ele entra no banco.
O ar-condicionado é fraco.
A fila é longa.
A impaciência, geral.
Kael observa em silêncio.
Nenhum olhar curioso.
Nenhum funcionário desconfiado.
Perfeito.
Quando chega a vez dele, explica apenas o necessário.
Não tenta convencer ninguém.
Não pede favores.
Aceita o que vem rápido.
Crédito.
Antecipação.
Limites que alguém comum evitaria.
Kael não pensa em juros.
Não pensa em amanhã.
Porque amanhã, do jeito que eles conhecem, não existe.
Sai do banco com dinheiro suficiente para transformar tempo em vantagem.
Na rua, uma rajada de vento quente passa entre os prédios.
Curta.
Seca.
Errada.
O corpo reage antes da mente.
Flash.
Areia subindo pelo meio-fio.
Um carro atolando onde antes era asfalto.
Gente tropeçando porque o chão vira instável.
Kael para por meio segundo.
Pisca.
Asfalto normal.
Carros andando.
Nada mudou.
Ainda.
Ele segue.
A loja de camping não chama atenção.
Pequena.
Apertada.
Ignorada por quase todo mundo.
Exatamente por isso Kael se lembra dela.
Ele escolhe sem exagero.
Sem ansiedade.
Filtros de água.
Comida de alta durabilidade.
Lanternas simples.
Pilhas.
Corda.
Ferramentas que não quebram fácil.
Nada chamativo.
Nada em quantidade absurda.
O vendedor comenta, meio rindo:
— Vai acampar no inferno, parceiro? Esse calor tá estranho.
Kael paga.
— Só quero estar pronto.
Sai da loja.
A mochila agora pesa.
Do jeito certo.
O celular vibra.
Lívia.
amor vc ta sumido
tá tudo bem?
Kael lê andando.
Outro flash corta a mente — rápido, violento.
Um quarto escuro.
Gente rindo.
Ele no chão, fraco.
A lâmina entrando pelas costas.
Kael fecha os olhos por um instante.
Não responde.
Guarda o celular.
Ele não está com raiva.
Ainda não.
Está confirmando.
O último lugar do dia não é óbvio.
Um prédio antigo, misto de escritórios e apartamentos.
Estrutura grossa.
Escadas largas.
Subsolo fundo.
Kael não entra.
Observa.
Conta andares.
Avalia a fundação.
Repara onde a sombra bate ao meio-dia.
Outro fragmento tenta surgir — mas falha.
Deixa apenas um peso estranho no estômago.
Não é esse.
Mas chega perto.
Quando o sol começa a baixar, o calor não diminui.
Isso não é normal.
As pessoas reclamam mais alto.
Uma mulher discute com um motorista por nada.
Um homem joga água no rosto na calçada.
Kael sente a pele arder levemente.
Não é insolação.
É antecipação.
Ele volta para casa sem pressa.
No apartamento, espalha tudo no chão.
Organiza.
Separa.
Nada é aleatório.
Ele não está acumulando.
Está preparando camadas.
Kael se senta no chão, encosta as costas na parede e fecha os olhos.
Pela primeira vez no dia, ele não anda.
Ele pensa.
O mundo ainda finge que está vivo.
Daqui a alguns dias, ninguém vai fingir mais.
Abre os olhos.
Sem drama.
Sem promessa.
Apenas uma certeza fria:
Enquanto eles ainda acham que amanhã existe,
Kael já está vivendo depois do fim.
O Último Oráculo — Light Novel | Capítulos 4 e 5
Capítulo 4 – Sala de Observação
Bernardo foi conduzido até a sala sem algemas, mas isso não significava confiança.
Os passos ecoavam baixos no corredor de pedra, sempre acompanhados por alguém atrás dele. Não era escolta armada. Era vigilância.
A porta se fechou às suas costas com um som seco.
— Fique à vontade. — disse um dos homens, apontando para a mesa. — Hoje será simples.
O Último Oráculo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Bernardo não respondeu de imediato. Aproximou-se devagar, sentindo as linhas se tornarem mais densas conforme chegava ao centro da sala. Algo ali… puxava sua atenção.
Sobre a mesa, um mapa aberto mostrava várias regiões do reino. Pequenas marcas indicavam cidades, rotas, fortalezas. Cada linha parecia sussurrar histórias antigas, movimentos que ainda não haviam acontecido, mas que se preparavam silenciosamente.
Bernardo estendeu a mão, sem tocá-lo ainda. Era como se o mapa estivesse vivo, pulsando sob sua visão.
— Então… — disse ele baixinho, quase para si mesmo — …isso é o que eu deveria observar.
Capítulo 5 – Linhas do Futuro

O silêncio naquela sala era diferente.
Não era o silêncio da dúvida — era o silêncio de quem não gostou de estar errado.
Bernardo permaneceu de pé, as mãos relaxadas ao lado do corpo. Não demonstrava ansiedade. Não demonstrava vitória.
Isso incomodava.
— Você entende a posição em que nos colocou. — disse o supervisor mais velho, quebrando o silêncio.
Bernardo inclinou levemente a cabeça.
— Entendo.
— Os outros oráculos falharam. — continuou o homem. — E você… não.
Bernardo não respondeu. As linhas ao redor da mesa estavam mais agitadas do que antes. Algumas se estendiam para fora da sala. Outras se desfaziam antes de alcançar as paredes. Ele percebeu algo importante: o futuro já estava reagindo àquela conversa.
— Não vamos anunciar isso. — disse o registrador, seco. — Oficialmente, o ataque foi um falso alarme.
Bernardo assentiu de novo. Era o esperado.
— Sua previsão será arquivada como… coincidência. — completou o supervisor.
Coincidência. Uma palavra conveniente.
Bernardo sentiu um leve alívio — que desapareceu rápido demais. As linhas começaram a se reorganizar. Dessa vez, não apontavam para a cidade costeira. Apontavam para dentro da própria capital.
— Há algo mais. — disse Bernardo, antes que pudesse se conter.
Os dois homens ergueram o olhar ao mesmo tempo.
— Mais o quê? — perguntou o registrador.
Bernardo hesitou. Não por medo de errar, mas por saber que dizer isso criaria movimento.
— O problema não foi o ataque cancelado. — disse, escolhendo cada palavra. — Foi a decisão que o evitou.
— Seja claro.
Bernardo respirou fundo.
— Alguém interferiu. E essa interferência abriu outras possibilidades.
— Que tipo de possibilidades?
As linhas tremiam. Algumas eram curtas. Outras longas demais.
— Conflito interno. — respondeu. — Não hoje. Não amanhã. Mas em breve.
O supervisor cruzou os braços.
— Está nos dizendo que evitar um ataque externo criou instabilidade interna?
Bernardo levantou o olhar.
— Estou dizendo que o futuro não gosta de ser empurrado.
Silêncio.
Não houve risada. Não houve descrença aberta.
Só desconforto.
— Isso não estará no relatório. — disse o supervisor, por fim.
Bernardo assentiu.
— Não deveria mesmo.
A reunião terminou sem cerimônia. Quando Bernardo saiu da sala, sentiu o peso real da situação. Ele não tinha ganhado confiança.
Tinha ganhado atenção.
E atenção, naquele lugar, era mais perigosa do que desconfiança.
Enquanto caminhava pelo corredor, as linhas se estendiam à frente, fracas, instáveis… mas presentes. Não o suficiente para prever. Suficientes para avisar. Ele não estava mais sendo observado como erro. Estava começando a ser observado como variável.
Bernardo se aproximou de outro mapa, outro observador.
— O que querem que eu veja? — perguntou.
— A mesma coisa que os outros. — respondeu o observador. — Um relatório foi feito esta manhã.
Bernardo sentiu o corpo reagir antes mesmo de pensar. As linhas surgiram. Não como antes, dispersas. Mas concentradas em um ponto específico do mapa: uma cidade costeira.
O nome estava escrito em letras pequenas, mas claras. Bernardo estreitou os olhos.
As linhas ali eram instáveis. Muitas. Sobrepostas. Algumas se partiam antes de se formar. Outras surgiam… e desapareciam rápido demais.
— Isso… — murmurou.
— Viu algo? — perguntou o homem, seco.
Bernardo respirou fundo. Se dissesse o que via, entraria em conflito direto com os registros oficiais. Se mentisse, talvez sobrevivesse… por enquanto.
— O que os outros oráculos disseram? — perguntou.
O observador franziu a testa.
— Você não está aqui para fazer perguntas.
Bernardo assentiu levemente.
— Então anotem isso.
Ele tocou o mapa com dois dedos.
— Essa cidade não vai sofrer ataque hoje.
O homem arqueou a sobrancelha.
— Todos os oráculos oficiais indicaram um ataque costeiro iminente. Piratas, talvez algo pior.
Bernardo sentiu um peso no peito. As linhas que ele via não mostravam ataque hoje. Mostravam outra coisa.
— Hoje não. — repetiu, com cuidado. — Pelo menos… não da forma esperada.
Silêncio. Um dos observadores começou a escrever.
— Está afirmando que todos os outros erraram?
Bernardo retirou a mão do mapa.
— Estou afirmando o que vejo. Nada mais.
Os homens trocaram olhares.
— Muito bem. — disse o primeiro. — Seu relatório será anexado como… divergente.
Divergente. Bernardo entendeu o significado real da palavra ali: descartável.
Horas depois, ele foi levado de volta aos aposentos. A cidade seguiu sua rotina. Navios entraram no porto. Guardas permaneceram alertas. Canhões não dispararam. O ataque não aconteceu. Os registros oficiais falharam.
Bernardo foi chamado novamente ao anoitecer. Desta vez, havia mais pessoas na sala.
— O ataque não ocorreu. — disse alguém, irritado. — Como explica isso?
Bernardo manteve a postura.
— As linhas mudaram antes do amanhecer.
— Mudaram por quê?
Ele hesitou. Se dissesse a verdade, pareceria absurdo.
— Porque alguém… decidiu não atacar.
Silêncio pesado.
— Isso é conveniente demais. — retrucou outro.
Bernardo sentiu algo diferente então. As linhas se rearranjavam. A cidade costeira estava segura hoje. Mas algo se formava logo depois. Algo pior.
Ele engoliu em seco.
— Anotem isso também. — disse, sem levantar a voz. — O ataque não foi cancelado. Foi adiado.
— Para quando?
Bernardo fechou os olhos por um segundo. As linhas tremiam.
— Em breve. E não virá do mar.
O silêncio que se seguiu não foi de descrença. Foi de desconforto.
Porque, pela primeira vez…
O erro dos outros não tinha explicação simples.
E o dele não parecia mentira.
Quando o Manhwa Deixa de Ser Leitura e Vira Rotina
Tem um momento curioso que quase todo leitor de manhwa vive — e raramente percebe.
Não é quando começa a ler o primeiro capítulo.
Nem quando escolhe uma obra específica.
É quando, sem notar, o manhwa passa a fazer parte do dia.
Você abre o celular “só para ver se atualizou”.
Lê um capítulo rápido antes de dormir.
Guarda outro para o ônibus, para o intervalo, para aquele momento em que o mundo parece barulhento demais.
E de repente… isso virou hábito.
Ler manhwa não exige preparo — exige presença

Diferente de outras formas de leitura, o manhwa não pede silêncio absoluto, nem concentração forçada.
Ele entra nos espaços vazios do dia.
Cinco minutos.
Dez minutos.
Um capítulo só — que vira dois, depois três.
Não é preguiça.
É adaptação.
O manhwa entende o ritmo de quem lê.
Ele não cobra. Ele acompanha.
- 10 Dicas de Manhwas de Romance Que Todo Fã Deveria Ler (e Que Vão Derreter Seu Coração)
- As 10 Personagens Mais Bonitas de Manhwas
Existe conforto em histórias que avançam
Boa parte dos manhwas não gira em círculos.
Algo sempre muda:
- O personagem cresce
- A situação evolui
- O mundo reage
Mesmo quando a história é simples, há sensação de movimento.
Para quem vive dias repetitivos, isso importa mais do que parece.
Ver progresso, ainda que fictício, traz uma estranha sensação de ordem.
Como se, por alguns minutos, tudo estivesse indo para frente.
O leitor de manhwa não busca perfeição
Quem lê manhwa não está caçando a obra mais profunda da história da humanidade.
Está buscando envolvimento.
Personagens que erram.
Decisões questionáveis.
Momentos exagerados, às vezes até absurdos.
E está tudo bem.
O vínculo não nasce da perfeição, mas da constância.
Da sensação de acompanhar alguém por muito tempo.
A solidão silenciosa que o manhwa preenche

Pouca gente fala sobre isso, mas vale dizer.
Muitos leitores de manhwa leem sozinhos.
Sem discutir em fóruns.
Sem comentar em redes.
Só leem.
E, ainda assim, não se sentem tão sozinhos enquanto leem.
Porque existe algo reconfortante em acompanhar uma história que continua, mesmo quando o dia foi pesado.
Mesmo quando nada deu certo.
O mundo fictício segue ali, esperando.
Não é escapismo — é pausa
Chamar manhwa de “fuga da realidade” é simplificar demais.
Na maioria das vezes, ele funciona como uma pausa consciente.
Um intervalo emocional.
Você não foge da vida.
Você respira… e depois volta.
E talvez volte um pouco mais leve.
Por que tantos leitores voltam todos os dias?
Porque o manhwa oferece algo raro hoje em dia:
continuidade sem exigência.
Você pode sumir por semanas e retornar.
Pode ler rápido ou devagar.
Pode amar ou apenas acompanhar.
A história não te pune por isso.
Ela continua ali.
No fim, é só uma boa companhia
Talvez o maior mérito do manhwa não seja a arte, nem os sistemas, nem os mundos fantasiosos.
Talvez seja algo mais simples.
Ele faz companhia.
Em dias longos.
Em noites silenciosas.
Em momentos em que a cabeça precisa descansar.
E às vezes, isso já é mais do que suficiente.
Solo Leveling: Ragnarok entra em hiato por tempo indeterminado; autor explica o motivo
A plataforma KakaoPage confirmou oficialmente que o webtoon Solo Leveling: Ragnarok entrará em hiato por tempo indeterminado. A pausa acontece devido ao alistamento militar obrigatório do ilustrador JIN, responsável pela arte da sequência.
A notícia surpreendeu os fãs, principalmente porque a obra vinha mantendo atualizações regulares. Com o anúncio, a segunda temporada foi encerrada no capítulo 68, e ainda não há previsão de estreia para a terceira temporada.
Serviço militar afasta ilustrador da produção
Na Coreia do Sul, o serviço militar é obrigatório para homens fisicamente aptos entre 18 e 28 anos, com duração que varia entre 18 e 21 meses. Durante esse período, profissionais de diversas áreas precisam interromper suas atividades, o que impacta diretamente produções como webtoons e manhwas.
Segundo a KakaoPage, outro artista do REDICE Studio assumirá temporariamente o projeto, mas a plataforma ainda não revelou quando novos capítulos voltarão a ser publicados.
Mensagem oficial do ilustrador JIN aos leitores
Em um comunicado emocionante, o ilustrador JIN falou diretamente com os fãs e explicou os motivos da pausa, além de relembrar sua trajetória dentro da franquia. Confira abaixo a declaração oficial na íntegra:
Declaração oficial de JIN:
“Olá, leitores. Aqui é o ilustrador Jin. Mesmo antes de ser contratado para trabalhar em Solo Leveling, eu era um ávido fã da série durante os meus anos de escola. Comecei a desenhar depois de observar as ilustrações e a direção do falecido Jang Seong-rak (DUBU) e sua influência continua a ser uma base para meu trabalho até hoje. Depois de formar no ensino médio, continuei participando de concursos e então, através de uma oportunidade inesperada, fui selecionado para trabalhar em Solo Leveling. Ainda lembro vividamente de como me senti ao ser informado.
Cerca de quatro anos se passaram desde então e, através de Solo Leveling e Solo Leveling: Ragnarok, ganhei muita experiência como artista e como pessoa. Há muitos desafios e momentos difíceis, mas acredito que foi uma experiência valiosa. A partir de hoje, estarei encerrando todo o trabalho relacionado à minha arte e tirarei uma pausa curta. É o serviço militar. Estarei ausente por um tempo devido a motivos pessoais, mas acredito que isso não é o fim e sim um período para mais preparação.
Agradeço sinceramente a todos os artistas que trabalharam comigo e, acima de tudo, aos leitores que amaram e apoiaram meu trabalho. Cada resposta de vocês tem sido grande fonte de força para mim. Continuarei a guardar essa experiência em mente e me esforçando para mostrar a vocês imagens das quais não me envergonhe. Muito obrigado por tudo.”
Pausa não significa encerramento da obra
Apesar do hiato, a mensagem de JIN deixa claro que Solo Leveling: Ragnarok não foi cancelado. O artista reforça que o afastamento é temporário e vê esse período como uma fase de preparação para retornar ainda mais forte no futuro.
Esse tipo de pausa é comum na indústria de manhwas, especialmente devido às exigências legais do país, e não indica o fim da produção.
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Sobre Solo Leveling: Ragnarok
Solo Leveling: Ragnarok acompanha a história de Sung Suho, filho de Sung Jinwoo, protagonista da obra original. O manhwa é escrito por Dang Do e adapta a webnovel de Daul, contando com supervisão direta de Chugong, autor de Solo Leveling.
A obra continua sendo uma das mais aguardadas pelos fãs, especialmente após o sucesso global da franquia.
A Roleta do Vilão — O Primeiro Boss Não Devia Sobreviver | Light Novel – Capítulos 1 a 3
Capítulo 1 — O Vilão Descartável
Todo jogador conhece aquele vilão ridículo.
O chefe inicial que aparece apenas para morrer em cinco minutos.
Ignorado.
Esquecido.
Apagado pela glória do herói.
A Roleta do Vilão — O Primeiro Boss Não Devia Sobreviver é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Mas… e se você acordasse no corpo dele?
Essa é a história de Leonhart Vessalius.
Um homem que zerou o jogo mais de duzentas vezes…
e que, por algum capricho cruel do destino, renasceu no corpo do vilão descartável.
O primeiro boss.
A noite estava silenciosa.
Uma brisa fria atravessava as janelas quebradas de um quarto luxuoso… porém decadente. Tapeçarias rasgadas balançavam lentamente, como fantasmas de um passado glorioso. Móveis nobres cobertos por lençóis empoeirados ocupavam o espaço, e no centro da parede, pendendo torto, um brasão enferrujado denunciava a ruína da outrora poderosa Casa Vessalius.
Leonhart abriu os olhos — e congelou diante do espelho.
Cabelos negros lisos até a nuca.
Olhos cinza-escuros com reflexos prateados.
Olheiras profundas, marcas de noites mal dormidas.
Ele reconheceu imediatamente.
— …Não… não pode ser… Eu virei… esse cara?!
Na parede, um retrato enorme.
O rosto do vilão da primeira fase do jogo.
Aquele que ele derrotava em menos de cinco minutos… todas as vezes.
Memórias vieram em avalanche.
Builds.
Estratégias.
Rotas secretas.
Mais de duzentos zeramentos gravados na mente.
Ele conhecia aquele mundo melhor do que a própria vida.
E agora… estava preso nele.
O corpo que habitava era o de Leonhart Vessalius, primogênito de uma das famílias nobres mais antigas do império.
Séculos atrás, os Vessalius eram temidos e reverenciados. Guerreiros, magos e heróis nasceram de seu sangue.
Mas isso… era história antiga.
Por mais de trezentos anos, nenhum descendente despertou um talento digno. Enquanto outras casas produziam magos prodígios, espadachins lendários e arqueiros abençoados, os Vessalius apenas afundavam.
Riquezas desperdiçadas.
Terras hipotecadas.
Reputação destruída.
Agora restavam apenas dívidas, zombarias… e ruínas.
Leonhart herdou tudo.
As terras arruinadas.
Os servos idosos.
A irmã mais nova tentando manter as aparências.
E um Dom… aparentemente inútil.
Aos olhos de todos, ele era um lixo nobre.
A vergonha da linhagem.
Mas ele… não era “esse Leonhart”.
Por trás dos olhos cinzentos, agora existia um estrategista.
Um jogador veterano que conhecia cada canto daquele mundo.
E ele sabia.
O roteiro original dizia que Leonhart Vessalius morreria como piada, derrotado pelo protagonista ainda no tutorial.
— Heh… se esse mundo é um jogo… — murmurou — então quem melhor pra quebrar as regras do que alguém que já zerou duzentas vezes?
Foi nesse momento… que a Roleta apareceu.
Flutuando diante dele, como uma engrenagem celestial coberta de luzes, surgiu um disco dividido em centenas de seções coloridas. Um título brilhava no ar:
【Roleta do Destino】
Dom Único — permite girar uma vez por dia e receber um item aleatório.
Rank F… até Divino.
Parecia incrível.
Capítulo 2 — A Roleta do Lixo

Mas havia um detalhe cruel.
Noventa por cento das vezes… vinha lixo.
Leonhart observou a roleta girar pela primeira vez.
Um som metálico ecoou pelo quarto silencioso.
Clac… clac… clac…
E o resultado surgiu.
【Pá de Jardinagem +1】 — Rank F.
Ele piscou.
Olhou de novo.
Sim.
Era uma pá.
De jardinagem.
— …É sério?
No dia seguinte, girou novamente.
【Poção de Crescimento Capilar】 — Rank D.
Leonhart encarou o frasco em silêncio. Uma mecha do cabelo balançou com o vento da janela quebrada.
Ele suspirou.
Terceiro giro.
【Chave Enferrujada】 — Rank E.
Sem descrição.
Sem uso aparente.
Enquanto outras famílias despertavam poderes capazes de destruir fortalezas…
Leonhart… colecionava lixo.
Por alguns segundos, o silêncio tomou conta da sala.
Então ele riu.
Um riso sarcástico, meio enlouquecido.
— Heh… então é assim que vai ser, né?
Na sala principal da mansão, diante dos poucos servos remanescentes, Leonhart ergueu a pá como se fosse uma espada lendária.
— Senhores! A Casa Vessalius… RESSURGIRÁ… com esta pá!
Os velhos se entreolharam, confusos. Um tossiu. Outro coçou a cabeça.
Ninguém sabia se aplaudia… ou fugia.
Do topo da escada, Ariadne Vessalius observava a cena.
Loira. Elegante. Ainda tentando sustentar a dignidade da família em meio ao caos.
— Irmão… você enlouqueceu de vez?
— Não, Ariadne… — respondeu ele, sorrindo. — Eu estou começando a jogar.
Nos dias seguintes, Leonhart agiu como um estrategista.
Testou os limites da roleta.
Catalogou cada item, até os inúteis.
Estudou o “sistema” como quem disseca um manual de jogo.
E aos poucos, uma ideia começou a nascer.
Se o destino o colocou no corpo de um vilão condenado…
Ele reescreveria a história.
Pedaço por pedaço.
E a primeira oportunidade… estava se aproximando.
Capítulo 3 — O Teste que Não Existia no Jogo

Dias depois, o céu da capital imperial amanheceu dourado.
As ruas fervilhavam com carroças, nobres em carruagens e plebeus curiosos. Todos seguiam para o mesmo lugar:
O Coliseu Imperial.
Uma vez por ano, famílias nobres reuniam seus herdeiros para o Teste de Talento, onde cada jovem despertava oficialmente sua afinidade mágica e provava o valor do sangue que corria em suas veias.
Os que se destacassem ganhavam bolsas nas academias de elite.
Os fracassados… tornavam-se motivo de riso público.
E entre os nomes anunciados naquele dia, um fazia o público gargalhar apenas ao ser ouvido.
— Leonhart Vessalius…? Eles ainda existem?
— Hahaha! Vai ser divertido ver esse lixo se humilhar de novo.
— Aposto um ouro que ele tira Rank F de novo.
Os rumores cortavam como lâminas invisíveis.
No centro da arena, cercado por milhares de olhos, Leonhart caminhava com passos firmes.
A cada movimento, lembranças de suas mortes no jogo original retornavam.
A cena era exatamente como ele lembrava.
O herdeiro fracassado tocaria o cristal…
revelaria um Dom vergonhoso…
seria humilhado diante de todos.
E sua queda marcaria o início da glória do protagonista.
Mas dessa vez…
Leonhart sorriu.
— Se o roteiro espera que eu morra como piada… — murmurou — vou quebrar o roteiro.
O Mestre do Coliseu, um ancião de barba longa, ergueu a voz:
— Leonhart Vessalius, aproxime-se do Cristal do Destino.
O cristal pulsava em múltiplas cores, carregando a energia do mundo.
Leonhart colocou a mão sobre a superfície fria.
O silêncio caiu como um peso sobre a arena.
Então… a luz explodiu.
Runas antigas giraram ao redor do cristal, mais rápidas do que qualquer outro teste realizado naquele dia. O público murmurava, confuso.
— Isto é… — começou o Mestre.
Antes que pudesse terminar, o cristal se rompeu.
Estilhaços de luz voaram, formando círculos mágicos suspensos acima de Leonhart. Símbolos arcanos que ninguém jamais havia visto.
E então…
Um portal se abriu diante dele.
Uma ventania varreu o Coliseu, sacudindo capas e bandeiras.
Do portal, uma figura feminina emergiu, caminhando com passos leves, como se deslizasse sobre a própria luz.
Cabelos prateados caíam como cascata lunar.
Olhos violeta profundo brilhavam com frieza etérea.
Vestes negras adornadas por runas carmesins.
Na presença dela, até os magos mais velhos sentiram a pele arrepiar.
O Coliseu caiu em silêncio absoluto.
Um nome foi murmurado, em choque, como se pronunciá-lo fosse profanar um mito.
— …Aria Nachtgrün.
Uma entidade lendária.
Um espírito de batalha que, segundo as crônicas antigas, jamais havia sido invocado por humano algum.
Indescartável: O Portador das Demon Spirits | Light Novel – Capítulos 1 a 3
Capítulo 1 — O Que Fica Enterrado
Elias Sampaio aprendeu cedo que algumas coisas simplesmente não chamavam atenção.
A argila era uma delas.
Ela sustentava construções, estradas, cidades inteiras — mas ninguém falava sobre argila. Não virava notícia. Não rendia status. Quem trabalhava com ela existia apenas enquanto fosse útil. Depois, era substituído sem cerimônia.
Indescartável: O Portador das Demon Spirits é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
A mina ficava afastada da cidade, cercada por mata fechada. O som constante das máquinas se misturava ao canto distante de insetos e pássaros, criando um ruído contínuo que, depois de um tempo, deixava de ser percebido. Era ali que Elias passava a maior parte dos dias, coberto de poeira vermelha, repetindo movimentos até o corpo agir sozinho.
Ele não reclamava.
Não porque gostasse — mas porque reclamar não mudava nada.
Enquanto os outros conversavam sobre motos novas, festas de fim de semana ou apostas, Elias mantinha o fone desligado e a mente ocupada com outras coisas. Mapas antigos, teorias esquecidas, estruturas que não se encaixavam na história oficial. Pirâmides fora do lugar. Ruínas soterradas que ninguém investigava porque não davam retorno financeiro imediato.
Mistérios não pagavam salário.
Naquele dia, o turno estava quase acabando quando o supervisor avisou que quem quisesse poderia ficar para hora extra. A produção precisava bater a meta da semana. Alguns recusaram. Elias aceitou sem pensar muito.
Desceu mais fundo do que o habitual.
A argila naquela camada era diferente. Mais escura, mais compacta, como se tivesse sido comprimida por algo durante muito tempo. O impacto da pá não soava como antes. Havia um eco estranho, seco demais para ser apenas terra.
No terceiro golpe, a pá bateu em algo sólido.
Elias parou.
Ajoelhou-se e afastou a argila com cuidado. O objeto surgiu aos poucos: um medalhão antigo, coberto por marcas e símbolos desgastados. O metal estava corroído, manchado, como se tivesse atravessado décadas de água e calor — e, ainda assim, os símbolos permaneciam nítidos demais para algo comum.
Um arrepio leve percorreu sua nuca.
Não parecia valioso no sentido comum. Não brilhava. Não chamava atenção. Mas havia algo ali que fazia o olhar demorar mais do que o necessário.
Elias levou o medalhão até a superfície e mostrou ao supervisor, esperando curiosidade, algum protocolo, talvez uma foto.
O homem mal olhou.
Fez uma careta.
— Joga isso fora ou guarda no bolso, sei lá. Só não traz isso pra perto de mim. Coisa velha não vale nada.
Não houve discussão.
Não houve interesse.
Elias guardou o medalhão no bolso do uniforme. O metal estava frio contra a perna, pesado demais para algo tão pequeno.
O turno terminou pouco depois. Os outros subiram rindo, reclamando do cansaço. Elias ficou para trás por alguns minutos, observando a entrada escura do túnel que descia ainda mais fundo.
Ele não pensou em destino.
Nem em presságio.
Pensou apenas que, se algo estava enterrado ali há tanto tempo, não tinha sido por acaso.
Colocou o capacete, ligou a lanterna e desceu novamente.
O som do mundo foi ficando distante.
Capítulo 2 — Sob Camadas Antigas

Quanto mais Elias descia, mais a mina parecia antiga.
As marcas nas paredes já não eram apenas de máquinas. Havia trechos onde a argila fora arrancada de forma irregular, como se ferramentas diferentes tivessem sido usadas em épocas distintas. A madeira que sustentava o teto rangia baixo, num som contínuo que não era exatamente ameaça — era aviso.
Ele avançou com cuidado.
A lanterna iluminava poucos metros à frente, criando sombras longas que se moviam conforme ele respirava. O silêncio ali embaixo nunca era completo. Havia sempre o gotejar lento da água e o eco distante de algo cedendo.
Elias levou a mão ao bolso sem perceber.
O medalhão estava ali.
Frio.
Pesado demais.
Não queimava. Não vibrava. Não fazia nada que pudesse ser chamado de sobrenatural. Ainda assim, carregá-lo era como segurar algo que se recusava a ser esquecido.
Ele encontrou a camada exata de onde o retirara. A argila escura formava uma parede quase lisa, compacta demais para um depósito comum. Ao tocar a superfície, sentiu irregularidades que não seguiam padrão de escavação.
Era ali.
No terceiro golpe, o chão respondeu.
O rangido da madeira mudou de tom.
Não foi alto. Foi longo. Profundo. Como um suspiro preso.
Elias recuou.
O estalo veio do teto. Depois outro. A argila começou a ceder em placas. Ele virou para correr no exato momento em que o chão desapareceu sob seus pés.
A queda foi curta, mas violenta.
O ombro bateu primeiro. Depois as costas. Ele rolou até parar em água fria. A lanterna piscou… e apagou.
Escuridão.
Antes que pudesse se mover, o túnel desabou.
Terra e pedra se acumularam sobre suas pernas. O ar foi expulso dos pulmões. Elias tentou gritar, mas só conseguiu inspirar poeira e água.
Nada se movia.
Então, vozes.
— Tem alguém lá embaixo!
— A galeria cedeu!
Luzes surgiram entre frestas. Elias tentou responder, mas o corpo não obedecia.
Foi quando o medalhão esquentou.
Não queimava.
Mas acordava.
Uma luz fraca atravessou o tecido, refletindo na água ao redor. Por um instante, tudo pareceu distante. As vozes abafadas. O peso no peito absoluto.
Ele foi puxado para fora minutos depois.
O céu era azul demais.
O medalhão pressionava o peito como se quisesse atravessar a carne.
E então, o mundo começou a se afastar.
Capítulo 3 — Quando Ninguém Está Olhando

O hospital não estava preparado para milagres.
Elias chegou em uma maca, coberto de terra vermelha e água barrenta. O corpo imóvel demais para alguém tão jovem. As luzes da emergência revelaram ferimentos internos, costelas comprometidas, respiração irregular.
— Pressão caindo.
— Saturação despencando.
A médica leu o relatório sem levantar a voz. Não havia pânico ali. Apenas rotina.
Elias não ouvia.
Ou talvez ouvisse tudo de muito longe.
O tempo perdeu forma. Restaram fragmentos: o impacto, o peso da terra, o céu azul visto por um segundo.
E o medalhão.
Sob o lençol fino, ele começou a irradiar calor — lento, persistente, invisível aos monitores.
— Pupilas não respondem.
— Prepara intubação.
O tubo entrou. As máquinas assumiram.
Por alguns minutos, a linha estabilizou.
Depois, falhou.
— Parada.
Compressões. Medicamentos. Ordens curtas.
O corpo reagiu uma vez.
Depois, não reagiu mais.
— Hora do óbito: 03h17.
O hospital seguiu em frente.
Quando ninguém olhava, o medalhão brilhou.
A luz não escapou.
Foi absorvida.
Por dentro, algo se soltou.
Não houve dor.
Nem medo.
A sensação foi a de largar um peso antigo.
Elias foi puxado, rápido, como atravessar uma correnteza invisível.
O hospital desapareceu.
Não houve túnel de luz.
Apenas escuridão…
seguida pelo som de água correndo.
Reencarnado na Idade do Fogo — Light Novel (Capítulos 4–6)
Capítulo 4 — O Terreno Antes da Chama
Asta aprendeu rápido que aquele mundo não recompensava coragem.
Recompensava controle.
O frio vinha em ondas. Uma noite parecia suportável; na seguinte, o vento cortava como lâmina. E com o vento vinha a tosse — seca, irritante, deixando os olhos vermelhos e a respiração pesada.
Reencarnado na Idade do Fogo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
A aldeia não morria mais de fome como antes… mas agora começava a morrer devagar.
E Asta sabia o motivo.
Eles não tinham fogo.
Não para cozinhar.
Não para aquecer.
Não para secar roupas molhadas.
Não para tratar feridas com calor.
Viviam como animais inteligentes, presos entre a floresta e a própria carne.
Nayara o observava. Não precisava perguntar. Ela sabia que ele pensava no que ninguém ousava pensar.
Na terceira tarde de chuva, Asta saiu sozinho para a floresta, seguindo o curso do vento. Não caçava. Procurava sinais que a tribo ignorava: troncos ocos, pedras estranhas, lugares onde o chão parecia diferente.
Ele encontrou.
Uma clareira onde uma árvore antiga havia sido rasgada. A madeira estava aberta como uma ferida. Por dentro, o coração do tronco era negro, seco, quebradiço.
Carvão.
Asta ajoelhou-se e tocou o interior. Não estava quente. Não havia brasa. Nem fumaça. Era apenas o vestígio de um raio antigo.
Ainda assim, era ouro.
Porque aquilo provava algo que a tribo havia esquecido:
O mundo já tivera fogo.
Eles apenas não sabiam mantê-lo.
Enquanto observava, algo se encaixou em sua mente.
A Mercearia se manifestou — não como tela, nem como voz. Veio como a sensação de estar nos trilhos certos.
Mercearia Ancestral — Categoria Liberada:
“Protocolo de Calor”
(técnicas de preparo, segurança, risco e manutenção)
Não apareceu “como fazer fogo”.
Apareceu o que realmente importava:
Como não morrer tentando.
Asta entendeu o aviso com clareza assustadora.
Chuva apagava tudo.
Vento espalhava faíscas.
Fogo atraía olhos — humanos e não humanos.
Então aquele momento não seria sobre conquistar a chama.
Seria sobre preparar o terreno.
Ele passou dias fazendo coisas que pareciam inúteis aos outros.
Reuniu fibras secas de certos cipós — os que não apodreciam rápido.
Separou folhas que repeliam umidade por mais tempo.
Identificou pó de madeira mais fino, que pegava faísca com facilidade.
Guardou tudo em embrulhos de couro, por camadas, como pequenos tesouros.
Uma vez, testou duas pedras perto de uma rocha dura.
Uma única faísca surgiu.
Ele não insistiu.
Não ali.
Não com vento.
Porque a Mercearia não lhe dera poder.
Tinha lhe dado disciplina.
No fim da semana, voltou para a aldeia com as mãos manchadas de carvão e o olhar mais sério.
Nayara o esperava perto do estoque. Observou as marcas negras e os embrulhos de couro.
— Isso é comida? — perguntou.
— Não. — Asta respondeu. — É futuro.
Ela estreitou os olhos.
— O tipo de futuro que mata gente?
Asta encarou o chão por um instante.
— O tipo de futuro que mata gente… se for tratado como brinquedo.
Nayara entendeu. Pela primeira vez, sua postura mudou de avaliar para preparar.
— Então você não faz isso sozinho.
Asta não discutiu.
Naquela aldeia, quando alguém começava a se tornar necessário, outra coisa nascia junto:
O medo de quem perderia poder.
E Asta já sentia isso nos olhares ao redor.
Capítulo 5 — A Primeira Decisão

A primeira chama não nasceu como milagre.
Nasceu como uma decisão.
Depois de dias de chuva, a noite finalmente veio seca. O vento não cessou, mas diminuiu o suficiente para não transformar uma faísca em desastre.
Asta pediu um espaço.
Não pediu autorização.
Pediu um perímetro.
Nayara entendeu imediatamente.
Escolheu quatro guerreiros e os posicionou ao redor do local. Não para proteger Asta — mas para proteger a aldeia do que ele poderia trazer.
Os anciãos quiseram se aproximar.
Nayara os conteve com um gesto.
— Hoje ninguém encosta. Hoje ninguém opina.
O tom não admitia resposta.
Asta ajoelhou-se em um círculo de terra limpa, longe das palhas e dos couros pendurados.
Se a chama escapasse, não levaria a aldeia junto.
Então, pela primeira vez, a Mercearia apareceu do jeito certo.
Não como loja.
Mas como escolhas inevitáveis.
Mercearia Ancestral — Protocolo de Calor
Regras Liberadas:
Isolar combustíveis
Controlar vento
Preparar “ninho seco”
Chama mínima antes de chama útil
Asta respirou fundo.
Não tinha fósforo.
Não tinha metal.
Não tinha nada além do corpo e do mundo.
Mas tinha método.
Montou um ninho com fibras secas e pó fino de madeira, protegido por folhas mais grossas — como um teto. Simples. Mas funcional.
Depois, pegou uma tira de fibra trançada e fez um arco tosco com um galho curvo.
Não bonito.
Não perfeito.
Funcional.
Alguns caçadores riram baixo.
— Brinquedo.
Asta ignorou.
Firmou uma vareta contra a base de madeira seca e iniciou o atrito. Não com força — com ritmo.
Primeiro, nada.
Depois, fumaça.
Ele continuou.
A fumaça virou pó escuro.
Ele não parou.
O pó brilhou por um segundo… e apagou.
Um ancião soltou um som de desprezo.
Asta não olhou.
Apenas ajustou.
Mais seco.
Menos vento.
Ângulo melhor.
Tentou novamente.
E então surgiu um ponto vermelho.
Pequeno. Quase tímido.
Uma brasa.
A aldeia inteira prendeu a respiração.
Asta levantou o ninho com cuidado absoluto e soprou apenas o suficiente.
Uma língua amarela apareceu.
Uma única língua.
Ele imediatamente cobriu parcialmente com folhas, protegendo do vento.
A chama não cresceu de uma vez.
Ela aprendeu a existir.
Quando finalmente se firmou, o calor tocou o rosto de todos.
Alguns recuaram.
Outros choraram.
Um guerreiro caiu de joelhos.
Nayara não se moveu.
Ela olhou para o fogo como se olhasse para uma arma.
— Ninguém toca. — disse. — Ninguém leva. Ninguém repete.
— É da tribo! — protestou um ancião.
— Hoje é da sobrevivência. — respondeu Nayara. — Amanhã decidimos.
Asta entendeu.
Ela estava criando tempo.
Porque o perigo não era só o fogo.
Era o que viria por causa dele.
Naquela mesma noite, a prova apareceu.
Não como ataque.
Mas como silêncio.
Os animais da aldeia pararam de reagir. Os pássaros sumiram. Até o vento pareceu hesitar.
Algo observava da floresta.
Não entrou.
Apenas marcou presença.
A Mercearia encaixou-se de novo, como um aviso gelado:
Protocolo de Calor — Observação:
Luz atrai vida.
Nem toda vida teme chama.
Asta entendeu.
O fogo salvara a aldeia do frio.
Mas anunciara Ul’Khan ao mundo.
Capítulo 6 — O Preço de Existir

O fogo não trouxe festa.
Trouxe silêncio.
Na primeira noite após a chama ser mantida, ninguém cantou. As pessoas se aproximaram para se aquecer, mas mantiveram distância — como se aquela coisa viva pudesse morder.
O calor resolvia problemas imediatos.
Roupas secavam.
Feridas fechavam melhor.
Crianças paravam de tremer.
Mas algo mudava junto.
As sombras ficaram mais longas.
Os rostos, mais atentos.
E a floresta… mais quieta.
— Eles não dormem. — murmurou Nayara.
— Não. — Asta respondeu. — Eles pensam.
Na terceira noite, a cabana ritual se abriu.
Maera Ul’Khan saiu sozinha, apoiada em um bastão simples. Os cabelos negros caíam soltos pelas costas. O colar antigo repousava sobre o peito.
Ela parou diante da fogueira.
Estendeu a mão, sentindo o calor sem tocar.
— Então… ele voltou.
— Mãe. — disse Nayara.
Maera não respondeu de imediato.
— Faz anos que não vejo isso vivo. — continuou. — Não desde a última tentativa.
Alguns anciãos desviaram o olhar.
Maera encarou Asta.
— Foi você.
— Foi.
— Você sabe o que isso chama?
— Sei o que resolve. — respondeu Asta. — E sei o que atrai.
Ela assentiu.
Contou a história sem drama.
Quando Ul’Khan tentou crescer, o mundo respondeu. As bestas mágicas vieram da floresta. Algumas não temiam o fogo.
O rei liderou a defesa.
Funcionou… por um tempo.
Na última noite, o fogo foi alto demais.
As bestas vieram juntas.
O rei segurou a linha até a aldeia fugir.
O corpo nunca foi recuperado.
— O fogo sempre cobra. — disse Maera. — Não no mesmo dia.
Ela olhou para Asta.
— Se vai mantê-lo, precisa ser melhor.
— Não quero repetir nada. — respondeu ele.
Ela o estudou.
— Você não tem o olhar de quem quer governar.
— Não quero.
— Bom. — disse Maera. — Os que querem, morrem cedo.
Nos dias seguintes, a aldeia mudou.
O fogo foi vigiado.
O estoque, controlado.
As patrulhas, dobradas.
Asta não dava ordens altas.
Ele organizava.
E isso incomodava.
— Outras tribos vão ver o fogo. — disse Maera certa tarde.
— Já estão vendo.
— Vão querer saber quem manda.
— Que vejam.
Ela inclinou levemente a cabeça.
Naquela noite, um chamado ecoou da floresta.
Não ataque.
Aviso.
Asta permaneceu acordado, observando a chama mínima.
O fogo salvara Ul’Khan.
Mas também a marcara.
E agora, quem quisesse poder, vingança ou domínio…
Saberia onde procurar.
O Último Oráculo — Light Novel | Capítulos 1 a 3
Capítulo 1 — Invisível até o Fim
Bernardo acordou antes do sol.
Não porque queria — mas porque o corpo já não aceitava dormir mais do que aquilo. O chão de concreto da obra ainda guardava o frio da madrugada, mesmo com o cheiro pesado de tinta fresca impregnado no ar.
O Último Oráculo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Ele se levantou devagar, alongando as costas. Um estalo seco ecoou no silêncio.
— Mais um dia… — murmurou, sem entusiasmo.
Pegou a camiseta jogada sobre um balde vazio, vestiu sem se importar com as manchas antigas e saiu do cômodo improvisado que usava como dormitório. Não havia cama. Apenas um pedaço de papelão dobrado e uma mochila velha encostada no canto.
Bernardo era pintor.
Ou melhor… fazia de tudo numa obra, desde que pagassem.
Trabalhava de dia.
Trabalhava à noite.
Quando havia serviço, dormia ali mesmo, economizando passagem, comida, tempo.
Dinheiro nunca sobrava.
As mãos estavam sempre manchadas de tinta, por mais que esfregasse. A pele ardia com o sol, com o pó, com o cansaço acumulado de semanas sem descanso de verdade.
Durante o dia, ninguém o notava.
À noite, ninguém se lembrava dele.
E quando alguma mulher aparecia — alguma moça rindo com amigas, passando perto da obra — ele já sabia.
Nem precisava tentar.
As poucas vezes em que criou coragem, ouviu variações do mesmo sorriso constrangido, do mesmo olhar de pena.
“Você é legal, mas…”
“Não faz meu tipo.”
“Prefiro só amizade.”
Bernardo aprendeu a sorrir de volta.
Aprendeu a fingir que não doía.
Naquela noite, o estômago roncou mais alto que o cansaço. O dinheiro do dia tinha sido pouco, mas suficiente para algo simples.
— Um hambúrguer… já tá bom.
Saiu da obra com passos lentos, atravessando a rua em direção à lanchonete da esquina. O sinal estava fechado. Algumas pessoas esperavam na calçada oposta.
Entre elas, um senhor mais velho, parado perto demais da rua.
Bernardo notou o caminhão tarde demais.
O som do motor veio alto, pesado. O sinal abriu… mas o caminhão não reduziu.
— Ei! — alguém gritou.
O velho deu um passo à frente, confuso.
Bernardo não pensou.
Correu.
Empurrou o senhor com força, sentindo o impacto seco dos corpos colidindo. O mundo pareceu girar por um segundo — e então veio o som.
Metal.
Freios.
Um impacto brutal.
O corpo de Bernardo foi lançado para o lado, o chão subindo rápido demais.
A dor não veio de imediato.
Veio o frio.
O céu acima parecia estranho. As luzes da rua borradas. Pessoas gritando. Alguém chamando por ajuda.
Ele tentou respirar… mas o ar não vinha direito.
O senhor estava vivo. Tremendo, mas vivo.
Bernardo sorriu, mesmo com a boca cheia de sangue.
— Ainda bem…
Enquanto a visão escurecia, uma única ideia atravessou sua mente — crua, feia, sincera.
Não sobre heroísmo.
Não sobre justiça.
Mas sobre tudo o que nunca viveu.
Nunca foi desejado.
Nunca foi escolhido.
Nunca foi visto.
Se tivesse… só uma chance.
Só uma.
Não para ser bom.
Não para ser justo.
Mas para não morrer invisível outra vez.
O som das sirenes ficou distante.
E então… não houve mais nada.
Capítulo 2 — Entre o Nada e a Possibilidade

O silêncio veio primeiro.
Não foi escuro.
Não foi claro.
Foi… ausência.
Bernardo tentou respirar — por reflexo — e percebeu que não precisava. Não havia ar entrando nos pulmões. Não havia pulmões.
Mesmo assim, ele pensava.
— …morri?
A palavra não ecoou. Não houve som algum. Ainda assim, ele a “ouviu”, como se o pensamento tivesse peso próprio.
Não sentia dor.
Também não sentia alívio.
Era como estar acordado demais.
As imagens da rua voltaram, quebradas. O caminhão. O impacto. O rosto assustado do velho. O gosto metálico na boca.
— Salvei alguém… — pensou.
— Que piada.
Se aquilo fosse o fim, não parecia recompensa nenhuma.
Algo estranho surgiu então. Não um toque, mas a sensação de estar sendo observado. Não por olhos — por algo mais amplo, mais distante.
Memórias começaram a surgir, uma após a outra, sem ordem.
As obras.
As noites dormindo no chão.
Os risos que nunca foram para ele.
Os “não”.
Sempre os “não”.
Ele fechou os olhos — mesmo sem saber se ainda os tinha.
— Se isso aqui for tudo… — pensou — …é sacanagem.
A frustração cresceu. Não como raiva explosiva, mas como algo denso, antigo, acumulado.
Ele não queria ser herói.
Não queria medalha.
Não queria agradecimento.
Só não queria que a vida acabasse daquele jeito.
— Eu trabalhava mais do que qualquer um…
— Aguentava mais do que qualquer um…
As palavras vinham sem som, mas com força.
— E mesmo assim… nada.
O vazio reagiu.
Não houve voz.
Não houve figura divina.
Mas o espaço ao redor pareceu se reorganizar.
Fragmentos surgiram na névoa.
Não imagens claras — mas possibilidades.
Cidades em chamas.
Bandeiras rasgadas.
Torres caindo.
Criaturas que não deveriam existir.
Pessoas olhando para o céu, esperando respostas.
Bernardo sentiu um arrepio que não vinha do corpo.
— Que porra é essa…?
As cenas não vinham em sequência. Eram linhas sobrepostas, algumas se cruzando, outras se apagando antes de se formar por completo.
Ele entendeu, instintivamente.
Nada daquilo estava decidido.
Algumas imagens desapareciam quando ele tentava focar. Outras surgiam quando desviava a atenção.
— Isso… não é futuro.
Era diferente.
Era como observar caminhos que podiam existir — mas ainda não existiam.
— Então é isso? — pensou. — Vai me mostrar tudo o que eu nunca vou viver?
O ressentimento voltou, mais forte.
— Se eu tivesse outra chance…
O pensamento não foi bonito.
Não foi nobre.
Foi cru.
— Eu não ia aceitar ser invisível de novo.
— Eu não ia aceitar passar fome, dormir no chão, ser ignorado.
— Eu ia viver. Do meu jeito.
O vazio pareceu afundar ao redor dele.
As linhas se aproximaram.
Por um instante, Bernardo sentiu algo parecido com medo.
Não de morrer — isso já tinha acontecido.
Mas de acordar em algo pior.
— Se for pra recomeçar… — pensou — …então que não seja igual.
O cinza começou a se desfazer, puxando sua consciência como uma corrente silenciosa.
Não houve luz no fim do túnel.
Houve queda.
E, no fundo dela, algo o esperava.
Capítulo 3 — O Oráculo Que Não Deveria Existir

A primeira coisa que Bernardo sentiu foi o peso.
Não o peso do corpo —
mas o peso de estar dentro dele.
O ar entrou nos pulmões de uma vez, arrancando um engasgo seco de sua garganta. Ele se virou de lado por instinto, sentindo o tecido macio da cama sob os dedos.
— …gh…
O som saiu estranho. Mais baixo. Mais contido.
Bernardo abriu os olhos.
O teto não era concreto.
Nem madeira velha.
Era pedra lisa, clara, cortada por símbolos que ele não reconhecia — e que, estranhamente, pareciam familiares.
— Onde… — tentou falar.
A voz era jovem.
Mas não era a dele.
Ele se sentou devagar. O coração acelerado. A cabeça pesada, como se tivesse passado dias acordado. O ambiente entrou em foco aos poucos: velas, tapeçarias, o cheiro suave de incenso misturado com algo metálico.
Não era hospital.
Não era sonho.
Bernardo levou a mão ao rosto.
A pele era lisa.
Os dedos não tinham calos.
Não havia tinta impregnada.
Passou a mão pelo cabelo — e parou no meio do movimento.
— Roxo…?
Levantou-se com cuidado. As pernas tremiam. Um espelho simples, encostado na parede, refletiu uma figura que ele não reconhecia.
Jovem.
Pálido.
Cabelo roxo.
Olhos de um cinza estranho, quase metálico.
— …não sou eu.
A memória veio de uma vez.
O vazio.
As linhas.
A queda.
— Então… reencarnei.
Não houve euforia.
Nem gratidão.
Apenas cautela.
Bernardo fechou os olhos por um instante — e então sentiu.
Algo deslizando por trás da visão.
Não era imagem.
Não era som.
Era sobreposição.
Quando abriu os olhos, o mundo parecia o mesmo — e, ao mesmo tempo, não.
Linhas finas cruzavam o espaço como rachaduras no ar. Algumas eram estáveis. Outras tremiam. Algumas se apagavam quando ele tentava focar.
— …isso é…
Ele deu um passo à frente.
Uma linha à esquerda se dissolveu.
Outra surgiu, mais distante.
Bernardo recuou.
— Não é futuro… — murmurou. — São possibilidades.
Ele não via o que ia acontecer.
Via o que poderia ter acontecido… ou ainda podia, se algo mudasse.
Antes que pudesse pensar mais, a porta se abriu.
Dois homens entraram.
Vestes cerimoniais.
Expressões neutras demais.
— O Oráculo despertou. — disse um deles, sem emoção.
Bernardo sentiu um arrepio.
— Oráculo…?
O segundo homem se aproximou, observando-o como se fosse um objeto frágil.
— Não se levante demais. Seu corpo ainda é… instável.
Instável.
— Onde estou? — perguntou Bernardo, medindo cada palavra.
Os homens trocaram um olhar breve.
— Na capital. — respondeu o primeiro. — Você foi trazido há meses. Comprado, para ser mais exato.
A palavra atingiu como um soco.
— Comprado?
— Oráculos não nascem apenas do destino. — continuou o homem. — Alguns são… adquiridos.
O estômago de Bernardo revirou.
Memórias que não eram dele surgiram, fragmentadas.
Testes.
Previsões falhas.
Relatórios ignorados.
Olhares de desprezo.
— Suas leituras nunca coincidiram com as oficiais. — disse o segundo. — Por isso ficou desacordado tanto tempo. Alguns diziam que era fingimento.
Bernardo entendeu.
O corpo em que reencarnou…
já era considerado um erro.
— Então por que ainda estou aqui? — perguntou.
O primeiro homem sorriu. Um sorriso vazio.
— Porque até previsões erradas servem para alguma coisa.
Silêncio.
— E porque, até prova em contrário… — completou — …você ainda é oficialmente um Oráculo.
Bernardo baixou o olhar. As linhas ao redor vibraram levemente.
Ele não tinha poder.
Não tinha status.
Não tinha confiança.
Só tinha algo que ninguém ali compreendia.
E, se descobrissem…
Bernardo respirou fundo.
— Entendi.
Aquilo não era o começo de uma nova vida.
Era o início de uma sobrevivência muito mais perigosa.
O Último Herdeiro de Verdevale – O Renascimento de um Domínio (Capítulos 10–12)
Capítulo 10 — O Nome que Voltou a Existir
Líria se aproximou, exausta, mas sorrindo.
— Vencemos…
Renato respondeu baixo, quase como se falasse apenas para si mesmo:
— Não. Apenas começamos. O Império agora sabe… que Verdevale está vivo.
E da próxima vez… eles não virão com quarenta. Virão com centenas.
O Último Herdeiro de Verdevale é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Ainda assim, em seus olhos âmbar, não havia medo.
Havia apenas determinação.
E uma chama que crescia a cada batalha.
Verdevale havia deixado de ser um nome esquecido.
Agora… era uma ameaça.
A fumaça da batalha ainda pairava sobre as colinas quando a noite caiu. Os corpos dos soldados imperiais foram enterrados em silêncio, enquanto os sobreviventes foram deixados partir, carregando o peso da derrota.
Mas, em Verdevale, os fogos acesos não eram de luto — eram de celebração.
Crianças corriam pelas ruas improvisadas. Homens e mulheres dançavam ao som de tambores batidos em couro seco. Nunca antes haviam se sentido tão unidos. Nunca antes o nome Verdevale significara esperança.
Renato, porém, não estava entre eles.
Sentado na sala do bastião em construção, observava relatórios espalhados sobre a mesa. Marien entrou, ainda com o arco às costas.
— Eles cantam seu nome lá fora. Dizem que o herdeiro Verdevale é um general renascido.
Renato não desviou o olhar do mapa.
— Um general sem exército não passa de um tolo. Hoje vencemos. Mas amanhã… eles voltarão, mais fortes.
Líria entrou logo em seguida, trazendo uma jarra de água fresca.
— Mesmo assim, mestre… o povo acredita em você agora. Isso é algo que nem o Império pode tomar.
Renato ergueu os olhos para ela e, por um instante, deixou escapar um leve sorriso.
— Talvez seja isso que mais os assusta.
Na manhã seguinte, a praça central estava lotada. Renato subiu ao parapeito, cercado por Marien, Derek, Gunnar e Líria. O povo aguardava em silêncio.
— Verdevale não é mais pó e silêncio. Vocês lutaram, sangraram e venceram.
Sua voz ecoou firme.
— Mas a vitória não é só contra espadas. É contra a fome. Contra o frio. Contra a dúvida.
Por isso, declaro agora a fundação da Primeira Guarda de Verdevale.
Um rugido de aprovação se espalhou. Derek ergueu a espada curta, e os camponeses imitaram, orgulhosos. Era um exército pequeno… mas era o primeiro exército Verdevale.
— E mais… — continuou Renato. — Os que trabalham com martelos, enxadas e arcos também são soldados. Cada pedra colocada, cada flecha disparada, cada semente plantada… é parte da vitória.
De hoje em diante, cada um de vocês é Verdevale.
O povo gritou em uníssono.
E, pela primeira vez, o nome Verdevale não foi lembrado como ruína… mas como renascimento.
Capítulo 11 — A Guerra das Palavras

Longe dali, na capital imperial, o comandante Rausk entregava um relatório ao alto conselho.
— As tropas foram repelidas. O herdeiro Verdevale demonstrou organização inesperada, táticas militares avançadas e uso de magia auxiliar. Recomendamos reforço imediato ou negociação estratégica antes que se torne ameaça maior.
O relatório passou de mão em mão, espalhando um sussurro inevitável:
Verdevale havia sobrevivido.
Nas fronteiras, o Duque Merivold recebeu outra mensagem. Seus olhos se estreitaram, e desta vez… ele não sorriu.
— Chamem Lady Selindra.
Quando a emissária mais habilidosa do ducado se apresentou, o duque foi direto:
— Vá a Verdevale. Ofereça aliança, proteção… qualquer coisa que faça aquele garoto confiar em nós. Mas descubra como ele resistiu. Verdevale não deve crescer sem que Astoria controle suas raízes.
Selindra inclinou-se, olhos azuis gélidos refletindo cálculo.
— Se ele for tolo, eu o enganarei.
Se for esperto… então testarei seus limites.
Na noite seguinte, o portão principal de Verdevale se abriu. Uma comitiva elegante atravessou as ruas simples do vilarejo. À frente, uma jovem nobre de postura impecável seguiu direto ao bastião.
— Senhor Renato Verdevale? Sou Lady Selindra, enviada do Ducado de Astoria. Venho propor um tratado… de amizade.
O silêncio caiu sobre a sala.
— Amizade, é? — Renato respondeu com calma. — Então… vamos conversar.
O jogo diplomático havia começado.
À luz de tochas, Selindra apresentou sua proposta: proteção, recursos, comércio — em troca do acesso à caverna de cristais.
Líria avançou um passo.
— Vantajoso para quem? Para nós, ou para o duque que já espera nos devorar vivos?
Selindra lançou-lhe um olhar frio.
— Que serva ousada.
Renato interrompeu, firme:
— Aqui, todos têm voz. Se isso a incomoda, talvez não devesse estar aqui.
A conversa se tornou um duelo silencioso. Palavras afiadas. Intenções ocultas.
— Coragem sem aliados é suicídio — disse Selindra.
Renato respondeu sem hesitar:
— Tempo é o que eu preciso. E se tentarem arrancá-lo… descobrirão que até um nobre falido pode se tornar um predador.
Quando Selindra deixou o bastião, já não exibia a mesma segurança.
— Ela veio medir minha força — murmurou Renato. — E saiu com medo do que ainda nem comecei a mostrar.
A guerra de espadas havia terminado.
A guerra de palavras… estava só começando.
Capítulo 12 — O Primeiro Fôlego do Renascimento

O sol ergueu-se preguiçoso, dissipando a névoa sobre o vale.
Renato caminhava pelas ruas ainda irregulares. Onde antes havia abandono, agora ecoavam martelos, vozes e passos apressados. Verdevale despertava.
Na praça central, bancas improvisadas surgiam pela primeira vez em anos. Nabos recém-colhidos, ervas secas, frutos silvestres. Elina organizava tecidos rústicos, enquanto crianças vendiam bolinhos simples.
Não era abundância.
Mas era vida.
— É pouco… — disse Líria, carregando uma cesta de frutas. — Mas eles sorriem como se fosse muito.
— Porque não é só comida — respondeu Renato. — É esperança.
Na forja, Gunnar moldava ferro entre faíscas.
— Teremos armas para lutar e ferramentas para plantar!
— As duas são necessárias — afirmou Renato. — Sem campo fértil, não há exército que resista.
Nas torres, Marien observava arqueiros em treinamento.
— Ainda erram — comentou.
— A mira melhora — respondeu Renato. — O importante é que já não tremem.
No campo, Derek moldava disciplina com gritos e escudos de madeira. Pessoas comuns se tornavam soldados.
Ao entardecer, Renato parou diante da muralha em construção. Crianças carregavam água. Mulheres costuravam bandeiras verdes.
— Cada pedra é uma promessa — disse ele.
— Então não quebre nenhuma — respondeu Líria, apertando sua mão.
À noite, o vilarejo se iluminou com pequenas fogueiras. Pão simples, caldo ralo, histórias compartilhadas.
Renato observou as estrelas da muralha.
Além da floresta, sombras vigiavam em silêncio.
O renascimento de Verdevale… já não passava despercebido.
