janeiro 19, 2026 | Abraham Costa

Vale a pena assistir o anime Kizoku Tensei: Megumareta Umare kara Saikyou no Chikara wo Eru?

O universo dos animes isekai continua crescendo e surpreendendo, e entre os novos títulos que chamaram atenção está Kizoku Tensei: Megumareta Umare kara Saikyou no Chikara wo Eru. O nome pode parecer longo, mas a proposta é simples e envolvente: acompanhar a jornada de um protagonista que renasce em um mundo de fantasia com poderes extraordinários e a missão de se tornar alguém relevante. Mas afinal, vale a pena assistir Kizoku Tensei? Vamos explorar os pontos fortes e fracos da obra, entender seu diferencial e descobrir se ela merece espaço na sua lista de animes.

Uma história que mistura reencarnação e ambição

O enredo segue a fórmula clássica do isekai: um personagem comum morre e renasce em um novo mundo. Porém, Kizoku Tensei adiciona uma camada interessante ao gênero. O protagonista nasce em uma família nobre, com acesso a recursos e poderes que o colocam em vantagem desde o início.

Essa escolha narrativa muda a dinâmica: em vez de começar como um herói desajustado ou marginalizado, ele já possui status e influência. O desafio, portanto, não é apenas sobreviver, mas provar que pode ser o mais forte e digno de sua posição.

O diferencial em relação a outros isekai

Muitos animes isekai seguem a mesma linha de “herói improvável que se torna poderoso”. O que torna Kizoku Tensei interessante é a forma como explora:

  • A política e a hierarquia social: o protagonista precisa lidar com intrigas e responsabilidades da nobreza.
  • O peso da herança: nascer com privilégios não significa ter uma vida fácil; há expectativas e pressões constantes.
  • A busca por poder absoluto: diferente de outros heróis que lutam por sobrevivência ou vingança, aqui o objetivo é se consolidar como o mais forte desde o início.

Essa abordagem dá ao anime uma atmosfera mais estratégica e menos dependente apenas de batalhas.

Personagens que evoluem junto com a trama

Um dos pontos que fazem Kizoku Tensei valer a pena é o desenvolvimento dos personagens secundários. A obra não se limita ao protagonista: familiares, aliados e rivais têm papéis relevantes e ajudam a construir o mundo.

Isso cria uma narrativa mais rica, onde cada interação pode mudar o rumo da história. Para quem gosta de universos bem estruturados, esse é um atrativo forte.

A estética e a animação: o impacto visual

Visualmente, Kizoku Tensei aposta em um estilo clássico de fantasia medieval, com castelos, armaduras e cenários grandiosos. A animação não chega ao nível de produções como Demon Slayer, mas entrega consistência e fluidez nas batalhas.

O design dos personagens é marcante, com destaque para a máscara vermelha usada em algumas cenas, que reforça o tom misterioso e imponente da obra. Para quem aprecia ambientações épicas, o anime cumpre bem seu papel.

Para quem o anime é indicado

Se você gosta de animes que misturam ação, estratégia e construção de mundo, Kizoku Tensei pode ser uma ótima escolha. Ele é indicado para:

  • Fãs de isekai que buscam algo além da fórmula tradicional.
  • Quem aprecia histórias com intrigas políticas e disputas de poder.
  • Espectadores que gostam de protagonistas ambiciosos e confiantes.
  • Pessoas que se interessam por universos medievais com magia e batalhas.

Pontos fortes que justificam assistir

  • Narrativa envolvente: combina ação com drama social.
  • Protagonista diferenciado: não é apenas um azarado que ganha poderes, mas alguém que já nasce em posição de destaque.
  • Construção de mundo sólida: política, hierarquia e cultura são exploradas com profundidade.
  • Equilíbrio entre ação e estratégia: não é só luta, há planejamento e escolhas difíceis.

O que pode não agradar a todos

Nem tudo é perfeito. Alguns pontos podem incomodar certos espectadores:

  • O ritmo pode parecer lento em alguns episódios, já que há foco em diálogos e política.
  • A ambição exagerada do protagonista pode afastar quem prefere heróis mais humildes.
  • A animação, embora competente, não é revolucionária.

Ainda assim, esses aspectos não comprometem a experiência geral, especialmente para quem busca algo diferente dentro do gênero.

Vale a pena assistir Kizoku Tensei?

Sim, vale. Kizoku Tensei: Megumareta Umare kara Saikyou no Chikara wo Eru é um anime que consegue se destacar em meio a tantos isekai justamente por apostar em uma narrativa que mistura poder, política e ambição. Ele não tenta ser apenas mais um título com batalhas épicas, mas sim uma história que questiona o que significa nascer privilegiado e como lidar com essa responsabilidade.

Se você procura um anime que equilibre ação com profundidade, esse título merece sua atenção.

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janeiro 19, 2026 | Abraham Costa

The Vermilion Mask confirma estreia do anime em 2026: tudo o que você precisa saber

O anúncio oficial de que The Vermilion Mask terá sua estreia em 2026 incendiou as redes sociais e despertou a curiosidade de fãs de anime ao redor do mundo. A obra, que já vinha sendo comentada em fóruns e comunidades por sua proposta ousada e estética marcante, agora entra no radar como uma das produções mais aguardadas da década. Mas o que torna essa confirmação tão relevante? E por que o hype em torno de The Vermilion Mask pode redefinir tendências no mercado de animação?

Por que The Vermilion Mask já é considerado um fenômeno antes da estreia

Poucos animes conseguem gerar tanta expectativa antes mesmo de um trailer completo ser divulgado. The Vermilion Mask conquistou atenção por três motivos principais:

  • Origem misteriosa: a obra nasceu de um projeto independente que rapidamente ganhou força online.
  • Visual impactante: artes conceituais reveladas até agora mostram um estilo sombrio e detalhado, com forte influência de mitologia oriental.
  • Narrativa promissora: rumores apontam para uma trama que mistura ação, drama psicológico e elementos sobrenaturais.

Esse conjunto cria uma aura de exclusividade, fazendo com que cada nova informação seja recebida como um evento.

O que esperar da estreia em 2026

A confirmação da estreia em 2026 não é apenas uma data marcada no calendário: é um marco estratégico. O mercado de anime vive um momento de expansão global, com plataformas de streaming disputando títulos originais e produções de alto impacto.

Ao escolher 2026, os produtores de The Vermilion Mask sinalizam que estão preparando algo grandioso, com tempo suficiente para polir cada detalhe. Isso sugere:

  • Animação de alto nível, possivelmente com uso de tecnologias híbridas entre 2D e 3D.
  • Trilha sonora original, capaz de reforçar a atmosfera sombria da obra.
  • Campanha de marketing internacional, mirando não apenas o público japonês, mas também fãs ocidentais.

A máscara vermelha como símbolo narrativo

O título The Vermilion Mask não é apenas estético: a máscara vermelha é o coração da narrativa. Em diversas culturas, o vermelho simboliza poder, sacrifício e transformação.

No contexto do anime, a máscara pode representar:

  • Proteção contra forças sobrenaturais.
  • Identidade oculta do protagonista.
  • Um fardo ou maldição transmitida ao longo das gerações.

Esse tipo de simbolismo é poderoso porque conecta o espectador a arquétipos universais, tornando a história mais envolvente e memorável.

Comparações inevitáveis com outros sucessos

É natural que The Vermilion Mask seja comparado a obras como Demon Slayer, Jujutsu Kaisen e Chainsaw Man. Todas elas exploram universos sombrios, batalhas intensas e protagonistas marcados por dilemas internos.

No entanto, a grande diferença está na abordagem:

  • Demon Slayer foca na família e na emoção.
  • Jujutsu Kaisen aposta em humor e energia juvenil.
  • Chainsaw Man mergulha no caos e na brutalidade.
  • The Vermilion Mask promete uma narrativa mais introspectiva, com foco no peso psicológico da máscara e na dualidade entre poder e destruição.

Se conseguir manter essa identidade, o anime pode se destacar sem cair na armadilha de ser “mais um shonen sombrio”.

O impacto da estreia para o mercado de anime

A confirmação de The Vermilion Mask em 2026 não é apenas uma vitória para os fãs, mas também um sinal para a indústria. O mercado está cada vez mais competitivo, e obras originais precisam se diferenciar para não serem engolidas pelo excesso de lançamentos.

Esse anime pode:

  • Abrir espaço para novas produções independentes.
  • Inspirar estúdios a investir em narrativas mais ousadas.
  • Consolidar a tendência de obras com forte apelo internacional.

Como os fãs podem se preparar para a estreia

A espera até 2026 pode parecer longa, mas há formas de acompanhar o desenvolvimento de The Vermilion Mask:

  • Seguir perfis oficiais nas redes sociais.
  • Participar de comunidades e fóruns que discutem teorias.
  • Revisitar obras semelhantes para entender o contexto cultural.
  • Ficar atento a eventos de anime, onde novos trailers e informações podem ser revelados.

Essa jornada de expectativa é parte da experiência e ajuda a criar uma conexão ainda mais forte com a obra.

O que pode definir o sucesso ou fracasso de The Vermilion Mask

No fim das contas, o sucesso de The Vermilion Mask dependerá de três fatores principais:

  1. Fidelidade à proposta original: não tentar copiar outras obras, mas assumir sua identidade.
  2. Execução técnica impecável: animação, trilha sonora e direção precisam estar alinhadas.
  3. Narrativa envolvente: personagens bem construídos e uma trama que equilibre ação e profundidade.

Se esses elementos forem entregues, o anime tem potencial para se tornar um marco cultural em 2026.

Fechamento

A confirmação da estreia de The Vermilion Mask em 2026 é mais do que uma notícia: é um convite para acompanhar o nascimento de uma obra que pode redefinir o cenário do anime. O hype é real, mas o desafio também é enorme. Cabe ao estúdio transformar expectativa em realidade e provar que a máscara vermelha não é apenas um símbolo, mas o início de uma nova era na animação japonesa.

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janeiro 19, 2026 | Abraham Costa

Solo Leveling pode fracassar se imitar Demon Slayer: entenda os riscos e oportunidades

O hype em torno de Solo Leveling é gigantesco. A adaptação do webtoon coreano conquistou fãs no mundo inteiro antes mesmo de estrear oficialmente, e muitos já o colocam lado a lado com fenômenos como Demon Slayer. Mas aqui está a questão: será que tentar seguir a mesma fórmula de sucesso pode ser justamente o erro que levaria Solo Leveling ao fracasso?

A resposta não é tão simples, e é exatamente isso que torna o debate tão interessante. Vamos mergulhar nos pontos que podem definir o futuro da obra e entender por que copiar Demon Slayer pode ser um caminho perigoso.

O peso de ser comparado a Demon Slayer

Demon Slayer virou referência em qualidade de animação, trilha sonora e impacto cultural. O estúdio Ufotable elevou o padrão técnico a um nível quase cinematográfico, e isso criou uma expectativa irreal para qualquer anime que venha depois.

Se Solo Leveling tentar competir diretamente nesse campo, corre o risco de ser visto apenas como “mais um anime com lutas bonitas”, sem conseguir se diferenciar. O público atual não quer apenas espetáculo visual — ele busca identidade, narrativa envolvente e personagens memoráveis.

O DNA de Solo Leveling é diferente

Enquanto Demon Slayer aposta em uma jornada emocional de Tanjiro e sua irmã Nezuko, Solo Leveling é construído em torno da ascensão solitária de Sung Jin-Woo.

  • Em Demon Slayer, o foco está na família, na dor e na superação coletiva.
  • Em Solo Leveling, o destaque é o crescimento individual, quase como um RPG em tempo real.

Se a adaptação tentar inserir o mesmo tom melodramático de Demon Slayer, pode perder a essência que fez o webtoon ser tão popular: a sensação de acompanhar um protagonista que evolui sozinho, enfrentando desafios cada vez maiores.

O perigo da “fórmula do sucesso”

A indústria de anime já mostrou que repetir fórmulas não garante resultados. Basta lembrar de obras que tentaram copiar o estilo de Attack on Titan ou Naruto e acabaram esquecidas.

O risco para Solo Leveling é cair na armadilha de:

  • Exagerar em cenas de ação sem dar profundidade ao protagonista.
  • Forçar momentos emocionais que não combinam com a narrativa original.
  • Apostar em uma estética idêntica à de Demon Slayer, sem criar uma identidade própria.

O público atual é exigente e percebe rapidamente quando uma obra tenta “ser outra” em vez de assumir sua própria voz.

O que Solo Leveling precisa para se destacar

Para evitar o fracasso, Solo Leveling deve apostar em seus diferenciais:

  • Construção de poder gradual: mostrar a evolução de Jin-Woo de forma clara e satisfatória.
  • Atmosfera sombria e misteriosa: explorar o lado mais adulto e estratégico da obra.
  • Ritmo narrativo único: não acelerar demais a história apenas para entregar batalhas épicas.
  • Trilha sonora distinta: criar uma identidade sonora própria, sem tentar imitar o estilo orquestral de Demon Slayer.

Esses elementos podem transformar Solo Leveling em um fenômeno por mérito próprio, sem depender da sombra de outro sucesso.

O impacto da expectativa dos fãs

Outro ponto crucial é a expectativa. Muitos fãs já esperam que Solo Leveling seja “o próximo Demon Slayer”. Essa comparação pode ser injusta e até prejudicial.

Se o anime entregar algo diferente, mas fiel ao espírito do webtoon, pode conquistar uma base sólida e duradoura. Mas se tentar agradar apenas quem busca “mais do mesmo”, corre o risco de decepcionar tanto os fãs antigos quanto os novos.

Exemplos de obras que seguiram seu próprio caminho

Para entender melhor, basta olhar para outros animes que não se renderam à comparação:

  • Jujutsu Kaisen conseguiu se destacar mesmo após o sucesso de Demon Slayer, apostando em humor, personagens carismáticos e uma energia própria.
  • Chainsaw Man dividiu opiniões, mas mostrou coragem ao manter um estilo cru e experimental, sem tentar copiar ninguém.

Esses exemplos provam que autenticidade é mais valiosa do que tentar repetir uma fórmula já consagrada.

O futuro de Solo Leveling depende da autenticidade

No fim das contas, Solo Leveling não precisa ser o “novo Demon Slayer”. Precisa ser Solo Leveling. O webtoon conquistou milhões justamente por oferecer algo diferente, e o anime só terá sucesso se respeitar essa essência.

Imitar pode parecer tentador, mas é a autenticidade que cria fenômenos culturais duradouros. Se o estúdio entender isso, o anime tem tudo para se tornar um marco por mérito próprio.

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janeiro 14, 2026 | Abraham Costa

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA — Light Novel (Capítulos 5 e 6)

Capítulo 5 — Conversão

Kael acorda suando.
Não de medo.
De calor.

O apartamento parece menor.
O ar, mais pesado.

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ele bebe água devagar — consciente de cada gole — e pensa em algo simples:

Não vai chover.
Não vai esfriar.
Não vai crescer nada.

No futuro, plantar virou piada.
A terra queimava.
A água evaporava.

Quem não tinha estoque…
morria tentando roubar.

Kael se levanta.

Hoje não é dia de observar.
É dia de converter tudo que ainda funciona.

Ele começa pelo celular.

Apps de banco.
Crédito pessoal.
Limites emergenciais.
Parcelamentos longos.

Ele aceita tudo.

Sem hesitar.
Sem calcular juros.

Dinheiro agora não é dívida.
É tempo de vida.

Uma notificação aparece:

“Crédito aprovado.”
Outra.
“Limite temporário liberado.”

Kael não sorri.
Ele já sabe que isso tudo vai virar poeira.

Depois, ele troca de nome.

Não o dele.
O de Lívia.

Ele tem acesso.
Senha compartilhada.
Confiança antiga.

Kael não sente culpa.

No futuro, ela enterrou uma faca nas costas dele sem tremer.
Agora, ele enterra dívidas no nome dela com a mesma frieza.

Empréstimo aprovado.
Cartão virtual criado.
Limite extra liberado.

Ele fecha o app.

Emprestado. — pensa. — Não roubado.

Com dinheiro novo, ele sai.

Não para supermercados comuns.
Vai a distribuidores.

Lugares onde restaurantes compram.
Onde ninguém pergunta “por quê”, só “quanto”.

Água mineral em pallet.
Galões industriais.
Sal grosso.
Arroz em sacas.
Comida simples, calórica, que aguenta calor.

O vendedor comenta:

— Tá todo mundo comprando mais esses dias.

Kael assente.

— Vai piorar.

Ele não tenta carregar tudo de uma vez.
Já aprendeu.

O poder espacial resiste quando exagera.

Então ele faz em ciclos.

Compra.
Afasta.
Testa.

Algumas cargas entram no espaço comprimido.
Outras falham e voltam com impacto, fazendo os braços doerem.

O corpo começa a entender o limite.

É como treinar um músculo novo —
se romper agora, morre depois.

Kael para quando sente tontura.

Não força.

Anota mentalmente:

Capacidade atual:
água > comida > peso morto
Cansaço rápido
Recuperação lenta

Perfeito.

Limite é informação.

No caminho de volta, ele vê a primeira coisa estranha de verdade.

Um mercado fechado.

Não por greve.
Não por falta de energia.

Por falta de água.

Uma placa improvisada na porta:

“SEM ABASTECIMENTO HOJE”

As pessoas reclamam.
Algumas riem.
Outras filmam.

Kael passa direto.

No futuro, isso vira comum demais para virar notícia.

O celular vibra.

Lívia.

“pq tem notificação estranha do banco??
vc mexeu em algo?”

Kael lê andando.

Não para.

Responde simples:

“Depois falo.”

E silencia.

Em casa, ele sente o peso invisível no corpo.

Água.
Comida.
Mais do que qualquer pessoa comum poderia carregar.

O espaço comprimido empurra por dentro, como se reclamasse.

Kael se senta no chão.

Respira.

No futuro, ele lembra do calor.
Do sol queimando a pele em minutos.
Da sede enlouquecendo pessoas.
De brigas por uma garrafa.

Ele fecha os olhos.

— Quando isso começar… ninguém vai conseguir saquear nada.
— Vai estar quente demais pra correr. Quente demais pra lutar.

Ele abre os olhos.

— Quem estocou agora… vive.

O sol se põe.
O calor não vai embora.

O Dia -2 termina com o mundo ainda fingindo que amanhã vai existir.

Kael já sabe:

Amanhã não vai ser um dia.
Vai ser o último aviso.

Capítulo 6 — O Último Estoque

Kael acorda com o ventilador ligado no máximo.

Não adianta.

O ar não refresca.
Só circula calor.

Ele levanta, bebe água com cuidado e sente algo claro no corpo:

Energia baixa.
Não fome.
Falta de proteína.

No futuro, isso matava mais devagar —
mas matava.

Arroz sustenta.
Água mantém vivo.

Mas sem proteína, o corpo quebra.

Kael se veste e sai.

Hoje é o último dia em que a cadeia inteira ainda funciona.

O primeiro lugar é um açougue grande, desses que atendem restaurantes.

O cheiro de carne crua se mistura ao calor.
O ambiente é abafado.

Pessoas compram mais do que o normal.
Nada em pânico —
mas ninguém compra pouco.

Kael não pede cortes nobres.

Pede volume.

Carne bovina.
Frango.
Qualquer coisa que vire proteína depois.

O açougueiro franze a testa.

— Vai fazer festa?

Kael responde sem emoção:

— Vou precisar.

Ele paga sem negociar.

O problema vem logo depois.

Carne estraga.
Rápido.

No futuro, muita gente morreu com estoque apodrecido.

Kael já sabe disso.

Ele passa em um depósito de gelo industrial.

Compra o que pode.

Freezers simples.
Geradores pequenos, portáteis.

Não pensa em longo prazo com energia.

Isso não vai durar.

O plano não é manter congelado para sempre.
É ganhar tempo suficiente.

No estacionamento, longe das pessoas, Kael testa o limite.

Caixas de carne.
Gelo.
Freezer desligado.

O espaço reage mal.

Diferente da água.

Mais pesado.
Mais “vivo”.

Algumas caixas entram.
Outras resistem, como se o próprio espaço rejeitasse matéria orgânica em excesso.

Quando força demais, uma caixa reaparece com impacto, quase quebrando o pé dele.

Kael para.

Respira.

Entende.

— Não é infinito.
— Nem neutro.

Mas algo fica claro:

Lá dentro, o tempo parece mais lento.

Não parado.
Só… atrasado.

Isso basta.

Ele armazena o que consegue.

O resto?
Consome rápido ou perde.

Ele aceita isso.

Sobrevivência não é perfeição.

No caminho de volta, vê algo que não viu antes.

Um cachorro na rua.

Magro demais.
Pelo falhando.
Olhos estranhamente opacos.

Ele rosna para um carro passando e tenta morder o pneu.

Kael observa por alguns segundos.

Nada sobrenatural ainda.
Mas errado.

No futuro, os primeiros mutantes começaram assim.

Não monstros.
Animais quebrados.

Kael segue andando.

O celular vibra.

Lívia.

“kael
tem coisa errada acontecendo
mercado fechou aqui
pq vc ta gastando tudo?”

Kael lê.

Responde só:

“Cuida do que é teu.”

Silencia.

Não é hora de cortar laços.
Nem de manter.

No apartamento, Kael se senta no chão, cercado por caixas vazias.

O corpo dói.
A cabeça pesa.

O espaço comprimido parece pressionar por dentro, como um órgão novo aprendendo a existir.

Ele fecha os olhos.

No futuro, ele lembra:

do calor insuportável
da carne virando moeda
dos mutantes surgindo da fome e da adaptação
dos cristais deixados para trás, brilhando no meio da areia

Mas isso ainda não chegou.

Ainda não.

O sol se põe no último dia normal.

Não há pôr do sol bonito.
Só um disco esbranquiçado desaparecendo atrás dos prédios.

Kael bebe água devagar.

Amanhã, o mundo não vai acabar de vez.

Mas vai quebrar.

E quando quebrar, ele não vai correr.
Não vai ajudar.
Não vai discursar.

Ele vai sobreviver.

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janeiro 14, 2026 | Abraham Costa

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA — Light Novel (Capítulos 3 e 4)

Capítulo 3 — O Aviso Ignorado

Kael acorda antes do despertador.
Não por ansiedade.
Mas porque seu corpo já não reconhece mais o ritmo normal do mundo.

O quarto está quente.
Não abafado — quente de verdade.

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ele se levanta, vai até a janela e a abre.
O vento entra, mas não refresca.
Arranha a pele.

Kael fecha os olhos por um segundo.

Flash.

Uma rua inteira coberta de areia até os joelhos.
Pessoas tentando andar… e afundando.
Um grito curto, interrompido.

Ele abre os olhos.

Rua normal.
Carros passando.
Buzinas.

Mas o corpo dele já não acredita nisso.

Kael sai cedo.
Não para comprar mais coisas — ainda não.
Hoje é dia de observar pessoas.

Ele caminha por regiões movimentadas.
Pontos de ônibus.
Calçadas cheias.

O padrão surge rápido.

Discussões bobas viram gritos.
Gente se empurrando por nada.
Um homem quase parte para cima de outro por causa de um lugar na fila.

Kael reconhece aquilo com precisão cirúrgica.
No futuro, esse era o dia em que ninguém levou a sério.

Ele para diante de uma banca de jornal.
O dono está sem camisa, suando, irritado.

— Esse calor não é normal, não.

— É só o Rio. — alguém responde.

Kael vira as costas.

Negação coletiva.
Sempre funciona… até não funcionar mais.

Perto do meio-dia, algo acontece.

Não grande.
Não apocalíptico.

Mas definitivo.

Um caminhão tomba em uma avenida principal.
Nada espetacular.
Sem explosão.

Só que o asfalto… cede.

Não afunda como um buraco comum.
Ele se desfaz em pequenos desníveis, como se o chão tivesse perdido rigidez.

As pessoas param.
Filmam.
Riem.

— Solo fofo, isso aí é obra mal feita.

O estômago de Kael se contrai.

Flash.

A mesma avenida, dias depois, completamente engolida.
Uma sombra se movendo por baixo, como algo nadando.

Ele se afasta.

O primeiro erro coletivo é sempre o mesmo:
rir do aviso.

À tarde, Kael volta a agir.

Entra em um atacadão comum.
Carrinhos rangendo.
Pessoas reclamando do calor.

Ele não enche o carrinho.
Compra peso.

Água.
Sal.
Alimentos simples, densos, que não estragam fácil.

Nada que chame atenção.

Enquanto paga, o caixa comenta:

— Dizem que vai ter uma onda de calor forte.

Kael pega as sacolas.

— Vai.

Ele sai.

No caminho, o celular vibra.

Lívia.

“vc não veio ontem
nem respondeu direito
tá acontecendo alguma coisa?”

Kael lê andando.

Outro flash tenta surgir — mais fraco dessa vez.
Uma sensação de costas expostas.
De confiar errado.

Ele responde:

“Só ocupado.”

Guarda o celular.

No apartamento, Kael organiza tudo no chão.
Não empilha.
Não joga.

Separa por função.

Comida.
Água.
Ferramentas.
Peso carregável.

Ele pega uma garrafa cheia, segura firme…
e sente algo estranho.

Não é força.
Não é cansaço.

É como se o espaço ao redor da mão cedesse por um milésimo de segundo.

Kael franze o cenho.
Tenta de novo.

Nada.

Silêncio.

Mas ele sentiu.

Não entende ainda.
Não força.
Apenas registra.

No fim do dia, o sol se põe…
mas o calor não vai embora.

Kael se senta no chão, encostado na parede.

O mundo lá fora segue normal.
Televisões ligadas.
Risos.
Música.

Mas ele sabe.

O Dia -4 foi o dia em que o mundo recebeu o aviso mais claro —
e escolheu ignorar.

Kael fecha os olhos.

Sem raiva.
Sem pressa.
Apenas certeza.

Eles ainda acham que estão vivos.
Ele já está se preparando para sobreviver.

Capítulo 4 — O Peso do Espaço

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA

Kael acorda com a boca seca.

Não importa quanto tenha bebido no dia anterior.
O corpo dele pede água de um jeito diferente.

Ele se senta na cama e entende o erro.

Pouca comida não mata em um dia.
Pouca água mata rápido.

E no futuro…
água vira guerra.

Kael se levanta, pega o celular e confere o saldo.

Ainda tem dinheiro.
Mas não por muito tempo.

Ele não perde tempo pensando se é exagero.
No futuro, quem pensou assim morreu primeiro.

O primeiro destino do dia é um atacadão.
Nada de supermercado bonito.
Atacadão de verdade.

Carrinhos rangendo.
Gente comprando mais do que o normal.
Nada em pânico — ainda.

Kael pega dois carrinhos.

Sem pressa, começa a encher.

Galões de água.
Caixas fechadas.
Mais galões.
Mais caixas.

Não escolhe marca.
Escolhe volume.

Arroz.
Feijão.
Macarrão seco.
Comida enlatada.
Sal.
Açúcar.

Peso real.

Um homem observa estranho.

— Vai abrir restaurante?

Kael não responde.

Empurra os carrinhos até ficarem difíceis de controlar.

No caixa, a funcionária ri nervosa.

— Tá fazendo estoque pro fim do mundo?

Kael passa o cartão.

— Algo assim.

Do lado de fora, o sol parece mais agressivo.

Ele carrega tudo até um canto mais afastado do estacionamento.
Longe de câmeras.

Respira fundo.
Coloca a mão sobre um galão de água.

Não força.
Não imagina.

Ele pede.

O espaço responde.

Não como magia bonita.
Mas como um erro.

O galão afunda no ar por meio segundo —
como se tivesse sido puxado por algo invisível —
e desaparece.

Kael dá um passo para trás.

O coração acelera.

Não de medo.
De confirmação.

Ele tenta puxar.

O galão reaparece, caindo no chão com força.

Kael fica parado.

O poder não é confortável.
Não é estável.

Mas é real.

Ele testa de novo.

Mais um galão.
Depois outro.

Alguns entram.
Outros falham.

Quando falha, o peso volta de repente, quase derrubando ele.

O espaço não aceita tudo.

Ainda.

Kael entende rápido:

Existe limite.
Existe cansaço.
Existe resistência.

Mas também existe uma vantagem absurda.

Ele continua.

Suando.
Errando.
Acertando.

Quando termina, os carrinhos estão quase vazios.

O estacionamento, normal.

Mas Kael sente o peso dentro de si.
Como se carregasse um depósito invisível grudado ao corpo.

O segundo lugar é ainda menos elegante.

Um pequeno depósito de bebidas e água mineral.
Ali, ninguém faz perguntas.

Dinheiro troca de mão rápido.

Mais galões.
Mais caixas.

Kael não testa tudo ali.

Ele sabe quando parar.

O corpo começa a doer.
A cabeça lateja.

O espaço não é infinito.
É musculatura nova.

Forçar agora seria se machucar.

No caminho de volta, o celular vibra.

Lívia.

“vc tá estranho
gastando dinheiro
sumindo
isso não é normal”

Kael lê sem parar de andar.

Normal.
Essa palavra já não significa nada.

Ele responde:

“Cuida da tua vida.”

Curto.
Frio.

Guarda o celular.

No apartamento, Kael se senta no chão, exausto.

Não fisicamente.
Mentalmente.

Fecha os olhos e sente.

A água está lá.
A comida está lá.

Não em um “bolso mágico”.
Mas em um espaço comprimido, instável, que parece empurrar de volta se ele exagerar.

É perigoso.

Mas é sobrevivência.

Kael encosta a cabeça na parede.

No futuro, ele lembra de gente brigando por uma garrafa.
De gente matando por um gole.

Ele abre os olhos.

— Não comigo.

O sol se põe.
O calor continua.

O Dia -3 termina.

E, pela primeira vez, Kael não está apenas se preparando.

Ele está à frente.

Proxímo Capítulo

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janeiro 13, 2026 | Abraham Costa

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA — Light Novel (Capítulos 1 e 2)

Capítulo 1 — Dia -5

Kael acorda com o corpo travado.

Não é preguiça.
É como se alguém tivesse deixado um peso de concreto sobre o peito dele.

Ele abre os olhos com cuidado — como quem espera ver areia, sangue e um teto rachado.

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Mas vê… o teto comum do quarto.

Por um segundo, não se mexe.
A respiração fica curta.
O silêncio parece alto demais.

O ventilador de teto gira devagar.
Há cheiro de quarto fechado, roupa limpa, café vindo de algum apartamento vizinho.

Normal.

O que é errado.

Porque a última lembrança de Kael não é normal.
É um chão quente demais, areia entrando no nariz, e uma dor nas costas…
uma dor que não era só física.

Era traição.

Ele leva a mão às costas sem perceber.
Não há ferida.
Não há sangue.
Nada.

Kael se senta na cama devagar, como se o movimento pudesse quebrar o mundo.

E então vem o primeiro flash.

Não é uma memória completa.
É um recorte. Uma imagem solta.

Um céu vermelho.
Um prédio sendo engolido até o quinto andar.
E uma sombra gigante passando por baixo da areia, como um tubarão.

Kael fecha os olhos com força.
Abre de novo.

Quarto.

Ele se levanta e vai até a janela.

O Rio está lá fora. Vivo.
Carros passando.
Gente conversando.
Um entregador com mochila nas costas.

Nada de deserto.
Nada de monstros.

Mesmo assim… ele sente o calor.

Não o calor normal do Rio.
Mas um calor seco, impossível — um calor que sua pele jura que já conheceu.

A mão treme por um instante.

E ele odeia isso.

Kael não é do tipo que desaba.

Ele respira fundo. Uma vez. Duas.

A mente tenta organizar o que aconteceu, mas o quebra-cabeça está faltando peças.

Ainda assim, ele sabe duas coisas com absoluta certeza:

O mundo vai acabar.

Ele já viveu isso.

Só que… não lembra de tudo.

E isso irrita.

Kael pega o celular.
Data. Horário.

Dia -5.

Mesmo sem entender como, ele sabe.
Cinco dias antes.

Fica parado encarando a tela, como se quisesse atravessar o vidro com os olhos.

Cinco dias…
Ou eu faço o impossível… ou morro do mesmo jeito.

A primeira reação não é emoção.

É cálculo.

Ele abre o aplicativo do banco.
Olha o saldo.

Pouco. Ridículo para um fim de mundo.

Um flash rápido corta a mente:

Ele segurando uma garrafa d’água como se fosse ouro.
Brigando por uma lata de comida.
Vendo gente morrer por causa de um filtro quebrado.

Kael trava a mandíbula.

— Tá.

Vai até a gaveta e puxa uma pasta com documentos.
Contrato do apartamento.
Recibos.
Papéis de cartório.

Coisas chatas.
Coisas que ninguém valoriza.

Mas ele valoriza.

Porque agora… papel é arma.

Kael senta à mesa e começa a escrever num caderno velho, do jeito mais simples possível.

  1. Dinheiro hoje.
  2. Comida e água hoje.
  3. Equipamento hoje.
  4. Lugar que não cai.

Ele encara o último item por mais tempo.

Lugar que não cai…

Outro flash vem — mais forte, quase como se alguém tivesse empurrado a memória dentro da cabeça dele.

Uma fachada de hotel antigo.
Um subsolo.
Gente sobrevivendo por anos.
Uma placa apagada pelo tempo.

Ele não consegue ler o nome.

Só sente a certeza no estômago.

É importante.

Kael se levanta.

Veste-se todo de preto, no automático.
Camiseta preta.
Calça cargo preta.
Tênis escuro.

Pega uma mochila vazia.

Quando abre a porta do apartamento, o corredor cheira a desinfetante barato.
Uma televisão ligada no vizinho.
Risos.
Novela.
Vida normal.

Kael desce as escadas sem pressa.
Por dentro, tudo está acelerado.

Na rua, ele não corre.
Não faz drama.
Não fala com ninguém.

Só observa.

O olhar de alguém que já viu o final do filme.

O celular vibra.

Mensagem de Lívia.

amor vc sumiu kkkkk
vai vir aqui mais tarde? 💙

Kael lê.

O rosto não muda.
Mas algo no olhar endurece, como vidro.

Ele digita.

Hoje não.

Apaga.

Digita de novo.

Tenho coisa pra resolver.

Envia.

Guarda o celular como quem guarda uma arma.

Não vai confrontar agora.
Não vai explodir.
Não vai dar satisfação.

Só pensa:

Se eu lembrar exatamente quando você me apunhalou…
eu te apago do meu mundo com a mesma frieza.

Ele segue andando.

Primeiro destino: banco.
Depois: cartório.
Depois: lojas.

No meio do caminho, algo chama atenção.

O vento.

Quente.
Seco.
Vindo de uma direção errada — como se o mar tivesse virado deserto por alguns segundos.

Kael para por meio segundo.
Fecha a mão.

E segue.

Porque se o mundo vai acabar…

Ele vai fazer o mundo pagar caro por cada grão de areia.

Capítulo 2 — Antes do Mundo Aprender a Correr

Kael anda pelo centro sem pressa.

Não porque esteja calmo —
mas porque quem corre chama atenção.

O mundo ainda funciona.
Ou, pelo menos, finge que funciona.

As pessoas reclamam do calor.
Batem boca por fila.
Buzinam mais do que o normal.

Kael reconhece isso.

No futuro, esse era o começo.
Antes da fome.
Antes da areia.
Antes do medo virar violência aberta.

Ele entra no banco.

O ar-condicionado é fraco.
A fila é longa.
A impaciência, geral.

Kael observa em silêncio.

Nenhum olhar curioso.
Nenhum funcionário desconfiado.

Perfeito.

Quando chega a vez dele, explica apenas o necessário.
Não tenta convencer ninguém.
Não pede favores.

Aceita o que vem rápido.
Crédito.
Antecipação.
Limites que alguém comum evitaria.

Kael não pensa em juros.
Não pensa em amanhã.

Porque amanhã, do jeito que eles conhecem, não existe.

Sai do banco com dinheiro suficiente para transformar tempo em vantagem.

Na rua, uma rajada de vento quente passa entre os prédios.
Curta.
Seca.
Errada.

O corpo reage antes da mente.

Flash.

Areia subindo pelo meio-fio.
Um carro atolando onde antes era asfalto.
Gente tropeçando porque o chão vira instável.

Kael para por meio segundo.

Pisca.

Asfalto normal.
Carros andando.
Nada mudou.

Ainda.

Ele segue.

A loja de camping não chama atenção.
Pequena.
Apertada.
Ignorada por quase todo mundo.

Exatamente por isso Kael se lembra dela.

Ele escolhe sem exagero.
Sem ansiedade.

Filtros de água.
Comida de alta durabilidade.
Lanternas simples.
Pilhas.
Corda.
Ferramentas que não quebram fácil.

Nada chamativo.
Nada em quantidade absurda.

O vendedor comenta, meio rindo:

— Vai acampar no inferno, parceiro? Esse calor tá estranho.

Kael paga.

— Só quero estar pronto.

Sai da loja.

A mochila agora pesa.
Do jeito certo.

O celular vibra.

Lívia.

amor vc ta sumido
tá tudo bem?

Kael lê andando.

Outro flash corta a mente — rápido, violento.

Um quarto escuro.
Gente rindo.
Ele no chão, fraco.
A lâmina entrando pelas costas.

Kael fecha os olhos por um instante.

Não responde.

Guarda o celular.

Ele não está com raiva.
Ainda não.

Está confirmando.

O último lugar do dia não é óbvio.

Um prédio antigo, misto de escritórios e apartamentos.
Estrutura grossa.
Escadas largas.
Subsolo fundo.

Kael não entra.

Observa.

Conta andares.
Avalia a fundação.
Repara onde a sombra bate ao meio-dia.

Outro fragmento tenta surgir — mas falha.
Deixa apenas um peso estranho no estômago.

Não é esse.

Mas chega perto.

Quando o sol começa a baixar, o calor não diminui.

Isso não é normal.

As pessoas reclamam mais alto.
Uma mulher discute com um motorista por nada.
Um homem joga água no rosto na calçada.

Kael sente a pele arder levemente.

Não é insolação.

É antecipação.

Ele volta para casa sem pressa.

No apartamento, espalha tudo no chão.
Organiza.
Separa.

Nada é aleatório.

Ele não está acumulando.
Está preparando camadas.

Kael se senta no chão, encosta as costas na parede e fecha os olhos.

Pela primeira vez no dia, ele não anda.

Ele pensa.

O mundo ainda finge que está vivo.
Daqui a alguns dias, ninguém vai fingir mais.

Abre os olhos.

Sem drama.
Sem promessa.

Apenas uma certeza fria:

Enquanto eles ainda acham que amanhã existe,
Kael já está vivendo depois do fim.

Proxímo Capítulo

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janeiro 13, 2026 | Abraham Costa

O Último Oráculo — Light Novel | Capítulos 4 e 5

Capítulo 4 – Sala de Observação

Bernardo foi conduzido até a sala sem algemas, mas isso não significava confiança.
Os passos ecoavam baixos no corredor de pedra, sempre acompanhados por alguém atrás dele. Não era escolta armada. Era vigilância.

A porta se fechou às suas costas com um som seco.

— Fique à vontade. — disse um dos homens, apontando para a mesa. — Hoje será simples.

O Último Oráculo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Bernardo não respondeu de imediato. Aproximou-se devagar, sentindo as linhas se tornarem mais densas conforme chegava ao centro da sala. Algo ali… puxava sua atenção.

Sobre a mesa, um mapa aberto mostrava várias regiões do reino. Pequenas marcas indicavam cidades, rotas, fortalezas. Cada linha parecia sussurrar histórias antigas, movimentos que ainda não haviam acontecido, mas que se preparavam silenciosamente.

Bernardo estendeu a mão, sem tocá-lo ainda. Era como se o mapa estivesse vivo, pulsando sob sua visão.

— Então… — disse ele baixinho, quase para si mesmo — …isso é o que eu deveria observar.

Capítulo 5 – Linhas do Futuro

O silêncio naquela sala era diferente.
Não era o silêncio da dúvida — era o silêncio de quem não gostou de estar errado.

Bernardo permaneceu de pé, as mãos relaxadas ao lado do corpo. Não demonstrava ansiedade. Não demonstrava vitória.
Isso incomodava.

— Você entende a posição em que nos colocou. — disse o supervisor mais velho, quebrando o silêncio.

Bernardo inclinou levemente a cabeça.
— Entendo.

— Os outros oráculos falharam. — continuou o homem. — E você… não.

Bernardo não respondeu. As linhas ao redor da mesa estavam mais agitadas do que antes. Algumas se estendiam para fora da sala. Outras se desfaziam antes de alcançar as paredes. Ele percebeu algo importante: o futuro já estava reagindo àquela conversa.

— Não vamos anunciar isso. — disse o registrador, seco. — Oficialmente, o ataque foi um falso alarme.

Bernardo assentiu de novo. Era o esperado.

— Sua previsão será arquivada como… coincidência. — completou o supervisor.

Coincidência. Uma palavra conveniente.

Bernardo sentiu um leve alívio — que desapareceu rápido demais. As linhas começaram a se reorganizar. Dessa vez, não apontavam para a cidade costeira. Apontavam para dentro da própria capital.

— Há algo mais. — disse Bernardo, antes que pudesse se conter.

Os dois homens ergueram o olhar ao mesmo tempo.

— Mais o quê? — perguntou o registrador.

Bernardo hesitou. Não por medo de errar, mas por saber que dizer isso criaria movimento.

— O problema não foi o ataque cancelado. — disse, escolhendo cada palavra. — Foi a decisão que o evitou.

— Seja claro.

Bernardo respirou fundo.
— Alguém interferiu. E essa interferência abriu outras possibilidades.

— Que tipo de possibilidades?

As linhas tremiam. Algumas eram curtas. Outras longas demais.

— Conflito interno. — respondeu. — Não hoje. Não amanhã. Mas em breve.

O supervisor cruzou os braços.
— Está nos dizendo que evitar um ataque externo criou instabilidade interna?

Bernardo levantou o olhar.
— Estou dizendo que o futuro não gosta de ser empurrado.

Silêncio.
Não houve risada. Não houve descrença aberta.
Só desconforto.

— Isso não estará no relatório. — disse o supervisor, por fim.

Bernardo assentiu.
— Não deveria mesmo.

A reunião terminou sem cerimônia. Quando Bernardo saiu da sala, sentiu o peso real da situação. Ele não tinha ganhado confiança.
Tinha ganhado atenção.
E atenção, naquele lugar, era mais perigosa do que desconfiança.

Enquanto caminhava pelo corredor, as linhas se estendiam à frente, fracas, instáveis… mas presentes. Não o suficiente para prever. Suficientes para avisar. Ele não estava mais sendo observado como erro. Estava começando a ser observado como variável.

Bernardo se aproximou de outro mapa, outro observador.

— O que querem que eu veja? — perguntou.

— A mesma coisa que os outros. — respondeu o observador. — Um relatório foi feito esta manhã.

Bernardo sentiu o corpo reagir antes mesmo de pensar. As linhas surgiram. Não como antes, dispersas. Mas concentradas em um ponto específico do mapa: uma cidade costeira.

O nome estava escrito em letras pequenas, mas claras. Bernardo estreitou os olhos.
As linhas ali eram instáveis. Muitas. Sobrepostas. Algumas se partiam antes de se formar. Outras surgiam… e desapareciam rápido demais.

— Isso… — murmurou.

— Viu algo? — perguntou o homem, seco.

Bernardo respirou fundo. Se dissesse o que via, entraria em conflito direto com os registros oficiais. Se mentisse, talvez sobrevivesse… por enquanto.

— O que os outros oráculos disseram? — perguntou.

O observador franziu a testa.
— Você não está aqui para fazer perguntas.

Bernardo assentiu levemente.
— Então anotem isso.

Ele tocou o mapa com dois dedos.
— Essa cidade não vai sofrer ataque hoje.

O homem arqueou a sobrancelha.
— Todos os oráculos oficiais indicaram um ataque costeiro iminente. Piratas, talvez algo pior.

Bernardo sentiu um peso no peito. As linhas que ele via não mostravam ataque hoje. Mostravam outra coisa.

— Hoje não. — repetiu, com cuidado. — Pelo menos… não da forma esperada.

Silêncio. Um dos observadores começou a escrever.
— Está afirmando que todos os outros erraram?

Bernardo retirou a mão do mapa.
— Estou afirmando o que vejo. Nada mais.

Os homens trocaram olhares.
— Muito bem. — disse o primeiro. — Seu relatório será anexado como… divergente.

Divergente. Bernardo entendeu o significado real da palavra ali: descartável.

Horas depois, ele foi levado de volta aos aposentos. A cidade seguiu sua rotina. Navios entraram no porto. Guardas permaneceram alertas. Canhões não dispararam. O ataque não aconteceu. Os registros oficiais falharam.

Bernardo foi chamado novamente ao anoitecer. Desta vez, havia mais pessoas na sala.

— O ataque não ocorreu. — disse alguém, irritado. — Como explica isso?

Bernardo manteve a postura.
— As linhas mudaram antes do amanhecer.

— Mudaram por quê?

Ele hesitou. Se dissesse a verdade, pareceria absurdo.
— Porque alguém… decidiu não atacar.

Silêncio pesado.
— Isso é conveniente demais. — retrucou outro.

Bernardo sentiu algo diferente então. As linhas se rearranjavam. A cidade costeira estava segura hoje. Mas algo se formava logo depois. Algo pior.

Ele engoliu em seco.
— Anotem isso também. — disse, sem levantar a voz. — O ataque não foi cancelado. Foi adiado.

— Para quando?

Bernardo fechou os olhos por um segundo. As linhas tremiam.
— Em breve. E não virá do mar.

O silêncio que se seguiu não foi de descrença. Foi de desconforto.
Porque, pela primeira vez…
O erro dos outros não tinha explicação simples.
E o dele não parecia mentira.

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janeiro 13, 2026 | Abraham Costa

Quando o Manhwa Deixa de Ser Leitura e Vira Rotina

Tem um momento curioso que quase todo leitor de manhwa vive — e raramente percebe.

Não é quando começa a ler o primeiro capítulo.
Nem quando escolhe uma obra específica.

É quando, sem notar, o manhwa passa a fazer parte do dia.

Você abre o celular “só para ver se atualizou”.
Lê um capítulo rápido antes de dormir.
Guarda outro para o ônibus, para o intervalo, para aquele momento em que o mundo parece barulhento demais.

E de repente… isso virou hábito.

Ler manhwa não exige preparo — exige presença

Quando o Manhwa Deixa de Ser Leitura e Vira Rotina

Diferente de outras formas de leitura, o manhwa não pede silêncio absoluto, nem concentração forçada.
Ele entra nos espaços vazios do dia.

Cinco minutos.
Dez minutos.
Um capítulo só — que vira dois, depois três.

Não é preguiça.
É adaptação.

O manhwa entende o ritmo de quem lê.
Ele não cobra. Ele acompanha.

Existe conforto em histórias que avançam

Boa parte dos manhwas não gira em círculos.

Algo sempre muda:

  • O personagem cresce
  • A situação evolui
  • O mundo reage

Mesmo quando a história é simples, há sensação de movimento.

Para quem vive dias repetitivos, isso importa mais do que parece.
Ver progresso, ainda que fictício, traz uma estranha sensação de ordem.

Como se, por alguns minutos, tudo estivesse indo para frente.

O leitor de manhwa não busca perfeição

Quem lê manhwa não está caçando a obra mais profunda da história da humanidade.
Está buscando envolvimento.

Personagens que erram.
Decisões questionáveis.
Momentos exagerados, às vezes até absurdos.

E está tudo bem.

O vínculo não nasce da perfeição, mas da constância.
Da sensação de acompanhar alguém por muito tempo.

A solidão silenciosa que o manhwa preenche

Pouca gente fala sobre isso, mas vale dizer.

Muitos leitores de manhwa leem sozinhos.
Sem discutir em fóruns.
Sem comentar em redes.

Só leem.

E, ainda assim, não se sentem tão sozinhos enquanto leem.

Porque existe algo reconfortante em acompanhar uma história que continua, mesmo quando o dia foi pesado.
Mesmo quando nada deu certo.

O mundo fictício segue ali, esperando.

Não é escapismo — é pausa

Chamar manhwa de “fuga da realidade” é simplificar demais.

Na maioria das vezes, ele funciona como uma pausa consciente.
Um intervalo emocional.

Você não foge da vida.
Você respira… e depois volta.

E talvez volte um pouco mais leve.

Por que tantos leitores voltam todos os dias?

Porque o manhwa oferece algo raro hoje em dia:
continuidade sem exigência.

Você pode sumir por semanas e retornar.
Pode ler rápido ou devagar.
Pode amar ou apenas acompanhar.

A história não te pune por isso.

Ela continua ali.

No fim, é só uma boa companhia

Talvez o maior mérito do manhwa não seja a arte, nem os sistemas, nem os mundos fantasiosos.

Talvez seja algo mais simples.

Ele faz companhia.

Em dias longos.
Em noites silenciosas.
Em momentos em que a cabeça precisa descansar.

E às vezes, isso já é mais do que suficiente.

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janeiro 12, 2026 | Abraham Costa

Solo Leveling: Ragnarok entra em hiato por tempo indeterminado; autor explica o motivo

A plataforma KakaoPage confirmou oficialmente que o webtoon Solo Leveling: Ragnarok entrará em hiato por tempo indeterminado. A pausa acontece devido ao alistamento militar obrigatório do ilustrador JIN, responsável pela arte da sequência.

A notícia surpreendeu os fãs, principalmente porque a obra vinha mantendo atualizações regulares. Com o anúncio, a segunda temporada foi encerrada no capítulo 68, e ainda não há previsão de estreia para a terceira temporada.

Serviço militar afasta ilustrador da produção

Na Coreia do Sul, o serviço militar é obrigatório para homens fisicamente aptos entre 18 e 28 anos, com duração que varia entre 18 e 21 meses. Durante esse período, profissionais de diversas áreas precisam interromper suas atividades, o que impacta diretamente produções como webtoons e manhwas.

Segundo a KakaoPage, outro artista do REDICE Studio assumirá temporariamente o projeto, mas a plataforma ainda não revelou quando novos capítulos voltarão a ser publicados.

Mensagem oficial do ilustrador JIN aos leitores

Em um comunicado emocionante, o ilustrador JIN falou diretamente com os fãs e explicou os motivos da pausa, além de relembrar sua trajetória dentro da franquia. Confira abaixo a declaração oficial na íntegra:

Declaração oficial de JIN:

“Olá, leitores. Aqui é o ilustrador Jin. Mesmo antes de ser contratado para trabalhar em Solo Leveling, eu era um ávido fã da série durante os meus anos de escola. Comecei a desenhar depois de observar as ilustrações e a direção do falecido Jang Seong-rak (DUBU) e sua influência continua a ser uma base para meu trabalho até hoje. Depois de formar no ensino médio, continuei participando de concursos e então, através de uma oportunidade inesperada, fui selecionado para trabalhar em Solo Leveling. Ainda lembro vividamente de como me senti ao ser informado.

Cerca de quatro anos se passaram desde então e, através de Solo Leveling e Solo Leveling: Ragnarok, ganhei muita experiência como artista e como pessoa. Há muitos desafios e momentos difíceis, mas acredito que foi uma experiência valiosa. A partir de hoje, estarei encerrando todo o trabalho relacionado à minha arte e tirarei uma pausa curta. É o serviço militar. Estarei ausente por um tempo devido a motivos pessoais, mas acredito que isso não é o fim e sim um período para mais preparação.

Agradeço sinceramente a todos os artistas que trabalharam comigo e, acima de tudo, aos leitores que amaram e apoiaram meu trabalho. Cada resposta de vocês tem sido grande fonte de força para mim. Continuarei a guardar essa experiência em mente e me esforçando para mostrar a vocês imagens das quais não me envergonhe. Muito obrigado por tudo.”

Pausa não significa encerramento da obra

Apesar do hiato, a mensagem de JIN deixa claro que Solo Leveling: Ragnarok não foi cancelado. O artista reforça que o afastamento é temporário e vê esse período como uma fase de preparação para retornar ainda mais forte no futuro.

Esse tipo de pausa é comum na indústria de manhwas, especialmente devido às exigências legais do país, e não indica o fim da produção.

Sobre Solo Leveling: Ragnarok

Solo Leveling: Ragnarok acompanha a história de Sung Suho, filho de Sung Jinwoo, protagonista da obra original. O manhwa é escrito por Dang Do e adapta a webnovel de Daul, contando com supervisão direta de Chugong, autor de Solo Leveling.

A obra continua sendo uma das mais aguardadas pelos fãs, especialmente após o sucesso global da franquia.

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janeiro 11, 2026 | Abraham Costa

A Roleta do Vilão — O Primeiro Boss Não Devia Sobreviver | Light Novel – Capítulos 1 a 3

Capítulo 1 — O Vilão Descartável

Todo jogador conhece aquele vilão ridículo.

O chefe inicial que aparece apenas para morrer em cinco minutos.
Ignorado.
Esquecido.
Apagado pela glória do herói.

A Roleta do Vilão — O Primeiro Boss Não Devia Sobreviver é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Mas… e se você acordasse no corpo dele?

Essa é a história de Leonhart Vessalius.

Um homem que zerou o jogo mais de duzentas vezes…
e que, por algum capricho cruel do destino, renasceu no corpo do vilão descartável.

O primeiro boss.

A noite estava silenciosa.

Uma brisa fria atravessava as janelas quebradas de um quarto luxuoso… porém decadente. Tapeçarias rasgadas balançavam lentamente, como fantasmas de um passado glorioso. Móveis nobres cobertos por lençóis empoeirados ocupavam o espaço, e no centro da parede, pendendo torto, um brasão enferrujado denunciava a ruína da outrora poderosa Casa Vessalius.

Leonhart abriu os olhos — e congelou diante do espelho.

Cabelos negros lisos até a nuca.
Olhos cinza-escuros com reflexos prateados.
Olheiras profundas, marcas de noites mal dormidas.

Ele reconheceu imediatamente.

— …Não… não pode ser… Eu virei… esse cara?!

Na parede, um retrato enorme.

O rosto do vilão da primeira fase do jogo.

Aquele que ele derrotava em menos de cinco minutos… todas as vezes.

Memórias vieram em avalanche.

Builds.
Estratégias.
Rotas secretas.

Mais de duzentos zeramentos gravados na mente.

Ele conhecia aquele mundo melhor do que a própria vida.

E agora… estava preso nele.

O corpo que habitava era o de Leonhart Vessalius, primogênito de uma das famílias nobres mais antigas do império.

Séculos atrás, os Vessalius eram temidos e reverenciados. Guerreiros, magos e heróis nasceram de seu sangue.

Mas isso… era história antiga.

Por mais de trezentos anos, nenhum descendente despertou um talento digno. Enquanto outras casas produziam magos prodígios, espadachins lendários e arqueiros abençoados, os Vessalius apenas afundavam.

Riquezas desperdiçadas.
Terras hipotecadas.
Reputação destruída.

Agora restavam apenas dívidas, zombarias… e ruínas.

Leonhart herdou tudo.

As terras arruinadas.
Os servos idosos.
A irmã mais nova tentando manter as aparências.

E um Dom… aparentemente inútil.

Aos olhos de todos, ele era um lixo nobre.
A vergonha da linhagem.

Mas ele… não era “esse Leonhart”.

Por trás dos olhos cinzentos, agora existia um estrategista.
Um jogador veterano que conhecia cada canto daquele mundo.

E ele sabia.

O roteiro original dizia que Leonhart Vessalius morreria como piada, derrotado pelo protagonista ainda no tutorial.

— Heh… se esse mundo é um jogo… — murmurou — então quem melhor pra quebrar as regras do que alguém que já zerou duzentas vezes?

Foi nesse momento… que a Roleta apareceu.

Flutuando diante dele, como uma engrenagem celestial coberta de luzes, surgiu um disco dividido em centenas de seções coloridas. Um título brilhava no ar:

【Roleta do Destino】

Dom Único — permite girar uma vez por dia e receber um item aleatório.
Rank F… até Divino.

Parecia incrível.

Capítulo 2 — A Roleta do Lixo

Mas havia um detalhe cruel.

Noventa por cento das vezes… vinha lixo.

Leonhart observou a roleta girar pela primeira vez.

Um som metálico ecoou pelo quarto silencioso.

Clac… clac… clac…

E o resultado surgiu.

【Pá de Jardinagem +1】 — Rank F.

Ele piscou.

Olhou de novo.

Sim.
Era uma pá.

De jardinagem.

— …É sério?

No dia seguinte, girou novamente.

【Poção de Crescimento Capilar】 — Rank D.

Leonhart encarou o frasco em silêncio. Uma mecha do cabelo balançou com o vento da janela quebrada.

Ele suspirou.

Terceiro giro.

【Chave Enferrujada】 — Rank E.
Sem descrição.
Sem uso aparente.

Enquanto outras famílias despertavam poderes capazes de destruir fortalezas…

Leonhart… colecionava lixo.

Por alguns segundos, o silêncio tomou conta da sala.

Então ele riu.

Um riso sarcástico, meio enlouquecido.

— Heh… então é assim que vai ser, né?

Na sala principal da mansão, diante dos poucos servos remanescentes, Leonhart ergueu a pá como se fosse uma espada lendária.

— Senhores! A Casa Vessalius… RESSURGIRÁ… com esta pá!

Os velhos se entreolharam, confusos. Um tossiu. Outro coçou a cabeça.

Ninguém sabia se aplaudia… ou fugia.

Do topo da escada, Ariadne Vessalius observava a cena.

Loira. Elegante. Ainda tentando sustentar a dignidade da família em meio ao caos.

— Irmão… você enlouqueceu de vez?

— Não, Ariadne… — respondeu ele, sorrindo. — Eu estou começando a jogar.

Nos dias seguintes, Leonhart agiu como um estrategista.

Testou os limites da roleta.
Catalogou cada item, até os inúteis.
Estudou o “sistema” como quem disseca um manual de jogo.

E aos poucos, uma ideia começou a nascer.

Se o destino o colocou no corpo de um vilão condenado…

Ele reescreveria a história.

Pedaço por pedaço.

E a primeira oportunidade… estava se aproximando.

Capítulo 3 — O Teste que Não Existia no Jogo

Dias depois, o céu da capital imperial amanheceu dourado.

As ruas fervilhavam com carroças, nobres em carruagens e plebeus curiosos. Todos seguiam para o mesmo lugar:

O Coliseu Imperial.

Uma vez por ano, famílias nobres reuniam seus herdeiros para o Teste de Talento, onde cada jovem despertava oficialmente sua afinidade mágica e provava o valor do sangue que corria em suas veias.

Os que se destacassem ganhavam bolsas nas academias de elite.

Os fracassados… tornavam-se motivo de riso público.

E entre os nomes anunciados naquele dia, um fazia o público gargalhar apenas ao ser ouvido.

— Leonhart Vessalius…? Eles ainda existem?
— Hahaha! Vai ser divertido ver esse lixo se humilhar de novo.
— Aposto um ouro que ele tira Rank F de novo.

Os rumores cortavam como lâminas invisíveis.

No centro da arena, cercado por milhares de olhos, Leonhart caminhava com passos firmes.

A cada movimento, lembranças de suas mortes no jogo original retornavam.

A cena era exatamente como ele lembrava.

O herdeiro fracassado tocaria o cristal…
revelaria um Dom vergonhoso…
seria humilhado diante de todos.

E sua queda marcaria o início da glória do protagonista.

Mas dessa vez…

Leonhart sorriu.

— Se o roteiro espera que eu morra como piada… — murmurou — vou quebrar o roteiro.

O Mestre do Coliseu, um ancião de barba longa, ergueu a voz:

— Leonhart Vessalius, aproxime-se do Cristal do Destino.

O cristal pulsava em múltiplas cores, carregando a energia do mundo.

Leonhart colocou a mão sobre a superfície fria.

O silêncio caiu como um peso sobre a arena.

Então… a luz explodiu.

Runas antigas giraram ao redor do cristal, mais rápidas do que qualquer outro teste realizado naquele dia. O público murmurava, confuso.

— Isto é… — começou o Mestre.

Antes que pudesse terminar, o cristal se rompeu.

Estilhaços de luz voaram, formando círculos mágicos suspensos acima de Leonhart. Símbolos arcanos que ninguém jamais havia visto.

E então…

Um portal se abriu diante dele.

Uma ventania varreu o Coliseu, sacudindo capas e bandeiras.

Do portal, uma figura feminina emergiu, caminhando com passos leves, como se deslizasse sobre a própria luz.

Cabelos prateados caíam como cascata lunar.
Olhos violeta profundo brilhavam com frieza etérea.
Vestes negras adornadas por runas carmesins.

Na presença dela, até os magos mais velhos sentiram a pele arrepiar.

O Coliseu caiu em silêncio absoluto.

Um nome foi murmurado, em choque, como se pronunciá-lo fosse profanar um mito.

— …Aria Nachtgrün.

Uma entidade lendária.

Um espírito de batalha que, segundo as crônicas antigas, jamais havia sido invocado por humano algum.

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