
Capítulo 3 — Eu Só Precisava Subir Um Rank
Três dias.
Fiquei olhando para a carta enquanto mastigava o pão devagar.
Três dias para uma avaliação que poderia decidir se eu continuaria sendo apenas um Visconde inútil ou me tornaria um Visconde inútil com menos terras.
Era impressionante como minha segunda vida estava conseguindo piorar tão rápido.
— Edgar.
— Sim, jovem mestre?
— Essa avaliação acontece com todo mundo?
— Com todos os alunos matriculados na Academia Imperial de Matrimônio.
— E todo ano?
— Sim.
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Apoiei a carta na mesa.
— Certo. Então me explica como se eu não soubesse absolutamente nada.
Edgar ficou em silêncio.
Merda.
Talvez tivesse exagerado.
— Quero dizer… quero ouvir sua opinião.
— Minha opinião?
— Sobre minha situação.
Ele ainda parecia desconfiado.
Não dava para culpá-lo.
Até ontem, Adrian Veyron provavelmente não perguntava a opinião de ninguém.
— Pode falar sem medo — acrescentei.
Edgar respirou fundo.
— Nesse caso, perdoe minha franqueza.
— Manda.
Ele franziu levemente a testa.
— Prossiga.
Precisaria vigiar minhas palavras.
— O Rank Matrimonial não considera apenas capacidade mágica — explicou ele. — A Academia avalia quatro fundamentos: poder, administração, reputação e perspectivas de união.
Aquilo eu lembrava.
Mais ou menos.
No jogo, o sistema era apresentado por números. Viver dentro dele era diferente.
— Poder eu já perdi.
— Senhor…
— Tenho zero de mana, Edgar. Não precisa tentar me animar.
Ele não respondeu.
— Administração?
— A situação atual da Casa Veyron será considerada.
— Então também estou ferrado.
Edgar fez uma pequena pausa.
— A situação não é favorável.
— Você é muito educado.
Continuei.
— Reputação?
Ele olhou para mim.
— Onze pontos.
— Certo. Essa eu mereci.
Restava uma.
— Perspectivas de união.
Edgar ficou ainda mais desconfortável.
— Nenhuma proposta ativa.
— Nenhuma?
— Não.
— Nem de Rank F?
— Não.
Aquilo doeu mais do que deveria.
— Pera aí. Ninguém?
— Atualmente, não.
— Num continente inteiro?
— Os registros da Academia não abrangem todo o continente.
— Ah. Então melhorou bastante.
Edgar percebeu o sarcasmo.
Acho.
Peguei uma maçã.
— Qual foi meu resultado no ano passado?
— Rank F.
— Isso eu sei. Quantos pontos?
— Vinte e sete.
Parei.
— E quanto precisa para E?
— Quarenta.
Treze pontos.
Não parecia impossível.
— Então só preciso conseguir treze.
Edgar permaneceu calado.
Olhei para ele.
— O quê?
— Sua pontuação preliminar deste ano é inferior à anterior.
Minha mão parou.
— Quanto?
— Dezenove.
Coloquei a maçã de volta no prato.
— Como eu perdi oito pontos?
— Houve alguns… incidentes.
— Quantos?
Edgar não respondeu.
— Muitos?
— Sim.
— Envolvendo mulheres?
Silêncio.
— Entendi.
Encostei na cadeira.
Precisava de vinte e um pontos em três dias.
Sem mana.
Sem reputação.
Sem proposta de casamento.
E com uma Casa em crise.
Fácil.
— Ani.
[Sim?]
Edgar virou a cabeça.
Eu congelei.
Ele não conseguia ouvir.
Claro.
— Nada.
Edgar me encarou.
— Estava pensando alto.
— Compreendo.
Não compreendia porcaria nenhuma.
Esperei até ele se afastar para organizar a bandeja.
Ani, você conhece os critérios exatos da avaliação?
Dessa vez pensei em vez de falar.
[Posso responder diretamente ao pensamento do usuário.]
Isso teria sido útil saber antes.
[O usuário não perguntou.]
Quase suspirei.
Critérios.
Uma pequena lista surgiu na minha visão.
Ela não tinha números exatos.
Isso me surpreendeu.
Você não sabe?
[Os critérios disponíveis derivam das memórias do usuário e do hospedeiro. A fórmula utilizada pela Academia não está presente de maneira completa em nenhuma delas.]
Interessante.
Ani não estava puxando informação do nada.
Ela organizava o que eu sabia.
Talvez pudesse fazer mais que isso futuramente, mas por enquanto tinha limites claros.
Gostei.
Uma habilidade sem limite era divertida por cinco minutos.
Depois virava trapaça.
Então precisamos descobrir.
[Correto.]
Terminei o café.
— Edgar, eu quero ver as contas da família.
A jarra quase escapou da mão dele.
— As… contas?
— É.
— Da Casa Veyron?
— Eu só tenho uma.
— Naturalmente.
Ele ficou me olhando.
— Tem algum problema?
— Não, senhor.
— Então quero tudo. Receita, despesas, dívidas, propriedades, funcionários, contratos. O que tiver.
— Tudo?
— Tudo.
Edgar demorou alguns segundos.
— Posso perguntar por quê?
Boa pergunta.
Porque eu era um brasileiro morto que tinha zerado o jogo onde a família dele existia?
Não parecia uma boa resposta.
— Porque daqui a três dias alguém vai decidir se eu sou capaz de administrar minhas próprias terras.
A expressão dele mudou um pouco.
— Achei que seria inteligente descobrir o que estou administrando.
Dessa vez Edgar não respondeu imediatamente.
Fez apenas uma reverência.
— Providenciarei os documentos.
— Obrigado.
Ele caminhou até a porta.
— Edgar.
Parou.
— E o duelo.
— Sim?
— Cancela hoje.
— Como desejar.
A porta fechou.
Fiquei sozinho.
Levantei.
Agora precisava descobrir uma coisa.
Se a situação da Casa Veyron era tão ruim quanto eu lembrava.
Era pior.
Muito pior.
Uma hora depois, havia livros e papéis espalhados pela escrivaninha.
Eu não entendia metade dos termos.
Mas entendia números.
E números não precisavam de tradução.
— Isso aqui é dívida?
— Sim.
Edgar estava ao meu lado.
Apontei para outra coluna.
— E isso?
— Juros.
— Só os juros?
— Sim.
Olhei novamente.
— Rapaz…
Edgar fingiu que não ouviu.
A Casa Veyron ainda possuía dinheiro.
Esse era o lado bom.
O lado ruim era que devia muito mais.
O Viscondado tinha três vilas principais, várias aldeias menores, terras agrícolas, uma floresta e uma pequena mina.
No papel, parecia ótimo.
Na prática, a mina produzia pouco.
Duas pontes precisavam de reparo.
Uma das vilas havia perdido parte da colheita no último inverno.
E meu querido antecessor tinha conseguido gastar uma quantidade impressionante de dinheiro na capital.
Roupas.
Festas.
Presentes.
Bebidas.
Joias.
Uma carruagem.
Parei naquela linha.
— Eu comprei uma carruagem?
— Sim.
— Quanto custou?
Edgar apontou.
Olhei.
— Ela voa?
— Não.
— É feita de ouro?
— Não.
— Então por que custa isso?
— O acabamento foi produzido pela oficina de Marcel Duvant.
Esperei.
— Eu deveria saber quem é?
Edgar pareceu sinceramente surpreso.
— É considerado o melhor fabricante de carruagens da capital.
— Ah.
Olhei o preço novamente.
— Vende.
Edgar virou o rosto rapidamente.
— Senhor?
— A carruagem.
— Deseja vendê-la?
— Tenho outra?
— Temos duas carruagens antigas.
— Então temos três carruagens e uma dívida enorme.
— Tecnicamente…
— Vende a cara.
Edgar parecia ter acabado de presenciar um assassinato.
— Foi produzida sob encomenda.
— Melhor ainda. Deve valer alguma coisa.
— O senhor esperou sete meses por ela.
— Edgar.
— Sim?
— Eu não lembro nem da cor.
Ele ficou quieto.
— Vende.
— Sim, senhor.
Risquei outra despesa.
— E isso?
— Sua residência particular na Academia.
Olhei ao redor.
— Esse quarto?
— Toda esta ala.
— Eu tenho uma ala?
— Sim.
Levantei da cadeira.
Abri a porta.
Edgar veio atrás.
Saí para o corredor.
Olhei para um lado.
Depois para o outro.
Portas.
Muitas portas.
— Tudo isso?
— Sim.
— Quantos quartos?
— Oito, sem contar sala de visitas, escritório e instalações dos criados.
Fechei os olhos.
Na Terra eu morava num apartamento onde dava para ouvir o vizinho espirrando.
Aqui eu tinha uma ala.
E estava endividado.
— Quanto custa?
Edgar respondeu.
Voltei para o quarto.
— Dá para mudar?
— Para onde?
— Dormitório comum.
Dessa vez ele realmente perdeu a compostura.
— Senhor!
— O quê?
— O senhor é um Visconde.
— Um Visconde endividado.
— Ainda assim…
— Tem quarto individual?
— Sim, mas—
— Tem cama?
— Naturalmente.
— Banheiro?
— Sim.
— Janela?
— Creio que sim.
— Então já superou vários apartamentos que eu vi no Rio.
Edgar ficou parado.
Droga.
— Rio?
— Expressão.
— Nunca ouvi.
— Regional.
— De qual região?
— Edgar.
— Sim?
— Os dormitórios.
Ele entendeu que não receberia resposta.
— Posso consultar a administração.
— Consulta.
Voltei aos documentos.
Aquilo era familiar de uma forma estranha.
Estoque.
Entrada.
Saída.
Custo.
Perda.
Não era igual ao supermercado.
Mas dinheiro continuava saindo de algum lugar e precisava entrar por outro.
Passei quase duas horas examinando tudo.
E então encontrei algo.
— Por que a produção de trigo caiu tanto nessa vila?
Edgar se aproximou.
— Valenford?
— É.
— Problemas com o moinho.
— Há quanto tempo?
— Aproximadamente oito meses.
— Oito meses?
— Sim.
— E ninguém consertou?
— Houve tentativas.
— Quanto custa?
Ele mostrou.
Não era barato.
Mas a perda de produção era muito maior.
— Isso não faz sentido.
— O mecanismo utiliza uma peça encantada.
A palavra chamou minha atenção.
— Encantada?
— Sim.
— Mana?
— Naturalmente.
Olhei para Ani, ou melhor, para lugar nenhum.
Ani.
[Sim?]
Uma peça encantada possui energia armazenada?
[Provavelmente.]
Você conseguiria analisar?
[Sim, caso tenha acesso ao objeto.]
Guardei aquela informação.
Talvez houvesse mais maneiras de alimentar [Criação] do que caçar tesouros.
Mas não queria testar nada ainda.
Precisava entender as regras antes.
Continuei lendo.
Foi quando alguém bateu na porta.
Edgar abriu.
Um jovem criado entregou um envelope.
— Da Academia, senhor.
Meu estômago apertou.
Outra carta?
Edgar recebeu.
Olhou o selo.
Depois para mim.
— É referente ao duelo.
— Já?
Abri.
Dessa vez o texto era curto.
Meu pedido de cancelamento havia sido aceito.
Perderia cinco pontos de reputação.
Nenhuma punição adicional.
Soltei o ar.
— Resolvido.
— Ainda haverá comentários.
— Comentário não quebra costela.
Edgar quase sorriu.
Quase.
Então ouvi vozes no corredor.
Uma delas feminina.
— Onde ele está?
Edgar ficou rígido.
Eu também reconheci aquela voz.
Não porque Adrian gostasse dela.
Porque eu tinha ouvido a mesma voz centenas de vezes no jogo.
Passos se aproximaram.
A porta ainda estava aberta.
Uma jovem apareceu.
Cabelos negros.
Longos.
Uma fita vermelha entre eles.
Olhos vermelhos.
Uniforme escuro da Academia com detalhes dourados e vermelhos.
Era impossível não reconhecê-la.
Elena Valen.
A mesma mulher para quem Adrian tinha se declarado bêbado na noite anterior.
Ela parou na entrada.
Seus olhos passaram por Edgar.
Depois pelos documentos espalhados.
Então chegaram até mim.
O desprezo apareceu imediatamente.
— Então é verdade.
Não respondi.
— Você cancelou o duelo.
— Cancelei.
Ela entrou.
— Depois de desafiar Leon diante de dezenas de pessoas.
— Eu estava bêbado.
— Isso deveria melhorar alguma coisa?
— Não.
Ela pareceu não esperar a resposta.
— Por isso cancelei.
Elena estreitou os olhos.
— Você passou meses provocando Leon. Ontem fez aquele espetáculo ridículo. E agora simplesmente desistiu?
— Sim.
— Por quê?
— Porque ele vai me bater.
Silêncio.
Edgar abaixou o rosto.
Eu tinha certeza de que estava segurando uma risada.
Elena me encarou.
— Você é inacreditável.
— Obrigado.
— Não foi um elogio.
— Imaginei.
Ela respirou fundo.
— E sobre ontem?
Agora ficou sério.
Coloquei a pena sobre a mesa.
— O que tem?
— Você não lembra?
— Lembro o suficiente.
Elena cruzou os braços.
— Então?
Eu sabia o que Adrian faria.
Tentaria justificar.
Diria que a amava.
Culparia Leon.
Talvez prometesse derrotá-lo.
Eu não era Adrian.
Pelo menos não aquele Adrian.
— Desculpa.
Elena ficou imóvel.
Até Edgar olhou para mim.
— O quê?
— Pelo que aconteceu ontem.
Ela não respondeu.
— Eu estava bêbado, mas isso não é desculpa. Te coloquei numa situação constrangedora. Não deveria ter feito aquilo.
Os olhos vermelhos dela continuaram presos em mim.
— E?
— E o quê?
— É só isso?
— Acho que sim.
Ela pareceu irritada.
O que era curioso.
— Você não vai dizer que vai provar que é melhor que Leon?
— Não.
— Não vai me pedir outra oportunidade?
— Não.
— Não vai me mandar flores?
Pensei.
— Já mandei muitas?
— Cento e quarenta e sete.
Meu Deus.
— Em quanto tempo?
— Quatro meses.
Olhei para Edgar.
Ele desviou o rosto.
Aquilo explicava parte das dívidas.
Voltei para Elena.
— Não vou mandar mais.
Ela deveria ter ficado satisfeita.
Em vez disso, parecia confusa.
— Você está planejando alguma coisa.
— Estou.
A expressão dela endureceu.
— Eu sabia.
— Estou tentando não perder minhas terras.
Parei.
— E vender uma carruagem.
Edgar fechou os olhos.
Elena olhou para os papéis.
— Você?
— Eu.
— Está olhando as contas da Casa?
— Tentando.
Ela se aproximou da mesa.
Pegou uma das folhas antes que eu pudesse impedir.
Leu.
Depois olhou para mim.
— Você sabe o que isso significa?
— Que estou quase quebrado.
— Estou falando desta coluna.
— Ah.
Olhei.
— Não.
Ela me devolveu.
— Imaginei.
Justo.
— Mais alguma coisa?
Elena permaneceu parada.
Por algum motivo, parecia que tinha vindo preparada para uma briga.
E eu tinha estragado a briga.
— Não se aproxime mais de mim.
— Certo.
— Nem de Leon.
— Com prazer.
— E pare de mandar presentes.
— Já estava no plano.
Ela estreitou os olhos.
— Você está mesmo estranho.
— Ressaca.
— Ressaca não muda personalidade.
Essa foi perigosa.
Sorri de leve.
— Talvez duas garrafas e meia mudem.
— Foram quase três.
— Edgar já me contou.
Ela virou para sair.
Parou na porta.
— Adrian.
— Sim?
— Se isso for outra tentativa idiota de chamar minha atenção…
Ela não terminou.
Não precisava.
— Não é.
Elena me observou mais alguns segundos.
Então foi embora.
Esperei os passos desaparecerem.
Olhei para Edgar.
Ele olhou para mim.
— Cento e quarenta e sete?
— Sim.
— Flores?
— Sim.
— Com dinheiro da Casa?
Edgar ficou em silêncio.
Apoiei a testa na mesa.
— Vende a carruagem hoje.
Dessa vez ele sorriu.
Pouco.
Mas eu vi.
No começo da tarde, deixei a residência.
Precisava conhecer a Academia pessoalmente.
E também precisava descobrir se minhas memórias batiam com o mundo real.
Edgar insistiu em me acompanhar.
Aceitei.
Talvez fosse melhor não andar sozinho num lugar onde metade das pessoas tinha motivo para me odiar.
Assim que saímos, entendi por que a Academia Imperial de Matrimônio era uma das localizações mais importantes do jogo.
Era gigantesca.
Prédios de pedra branca cercavam jardins enormes.
Torres subiam acima das árvores.
Bandeiras azuis e douradas balançavam com o vento.
Havia fontes, estátuas, pontes e caminhos de pedra por todos os lados.
Centenas de alunos circulavam pelo campus.
Homens e mulheres.
Todos adultos.
Todos nobres ou ligados a famílias importantes.
E quase todos que me reconheciam reagiam da mesma forma.
Olhar.
Cochicho.
Risada.
— Isso vai ser divertido — murmurei.
[A reputação do usuário é extremamente baixa.]
Obrigado, Ani.
[Disponha.]
Passei por um grupo de rapazes.
Um deles falou alto o suficiente para eu ouvir:
— Veyron desistiu do duelo.
Outro riu.
— Óbvio.
Continuei andando.
Edgar me observou.
— Não vai responder?
— Eles mentiram?
— Não.
— Então deixa.
Aparentemente isso também era comportamento estranho para Adrian.
Ótimo.
Quanto menos eu me parecesse com o antigo, melhor.
Chegamos ao prédio administrativo.
Eu queria informações sobre a avaliação.
Mas alguma coisa chamou minha atenção antes.
Um enorme painel ocupava a parede do salão principal.
Nomes.
Centenas deles.
Separados por Rank.
S.
A.
B.
C.
D.
E.
E, bem embaixo…
F.
Encontrei meu nome.
Adrian Veyron — F.
Havia muitos outros no mesmo Rank.
Isso me surpreendeu.
— Ani.
[Sim?]
Quantos?
[Quarenta e três alunos classificados como F no painel visível.]
Então eu não era o único.
Observei os nomes.
Ao lado de alguns havia pequenos símbolos.
Famílias.
Títulos.
Disponibilidade matrimonial.
E foi aí que tive uma ideia.
Talvez estivesse pensando errado.
Desde que acordei, eu estava preocupado em subir de Rank para encontrar uma esposa.
Mas não precisava necessariamente subir primeiro.
Existiam mulheres Rank F.
Se eu encontrasse alguém tranquila, com uma família simples, talvez—
— Nem pense nisso.
Virei.
Elena estava alguns metros atrás.
De novo.
— Você me segue?
— Infelizmente estudamos no mesmo lugar.
Justo.
Ela percebeu para onde eu estava olhando.
— Está procurando outra vítima?
— Candidata.
— Isso não melhora.
— Eu preciso me casar algum dia.
Elena soltou uma risada curta.
— Com sua reputação?
— Por isso estou olhando o F.
Ela ficou me encarando.
— Você é inacreditável.
— Você já falou isso hoje.
Voltei para o painel.
— Ani.
[Sim?]
Consegue identificar quais dessas mulheres estão disponíveis?
Alguns nomes ganharam pequenas marcações.
[Onze candidatas sem contrato matrimonial registrado.]
Onze.
Excelente.
E quais têm compatibilidade comigo?
Pausa.
[Defina compatibilidade.]
Boa pergunta.
Pensei no que queria.
Uma pessoa tranquila.
Sem família envolvida em guerra.
Sem obsessão por poder.
Sem problemas políticos gigantescos.
E, de preferência, alguém que não me odiasse.
Ani processou.
[Resultado: zero.]
Pisquei.
Como assim zero?
[Nenhuma candidata satisfaz todos os critérios.]
Remove “tranquila”.
[Zero.]
Remove problemas políticos.
[Uma candidata.]
Finalmente.
O nome apareceu.
Mira Solenne.
Eu conhecia.
Meu sorriso desapareceu.
Mira era uma personagem secundária.
Bonita.
Educada.
Rank F.
E a família dela seria massacrada durante uma disputa territorial no ano seguinte.
— Não.
[Candidata removida.]
Elena ainda estava ali.
— Está falando sozinho?
— Pensando.
— Em voz alta?
— Hábito ruim.
Continuei olhando para o painel.
Talvez casamento não fosse tão simples.
Na Terra, eu achava Tinder complicado.
Aqui precisava verificar Rank, família, território, reputação, sucessão e possibilidade de guerra civil antes de chamar alguém para jantar.
— Que saudade do supermercado.
— O quê?
— Nada.
Então um movimento no outro lado do salão chamou atenção.
As pessoas abriram espaço.
Um jovem loiro entrou.
Uniforme branco e azul.
Postura perfeita.
Bonito daquele jeito irritante que só personagem principal conseguia ser.
Leon Arclight.
Ele me viu.
Parou.
Nossos olhos se encontraram.
A lembrança de quatro mortes diferentes passou pela minha cabeça.
Não.
Nem ferrando.
Virei para Edgar.
— Terminamos aqui.
— Senhor?
— Vamos embora.
— Veyron.
Droga.
Leon tinha me chamado.
Parei.
Respirei.
Virei novamente.
Ele se aproximou.
Elena permaneceu perto do painel.
A expressão dela ficou séria.
Leon parou diante de mim.
— Recebi o aviso sobre o duelo.
— Ótimo.
— Você cancelou.
— Cancelei.
Ele parecia esperar alguma explicação.
Dei.
— Você é mais forte.
Leon franziu a testa.
— Isso nunca impediu você antes.
— Estou experimentando uma coisa nova.
— O quê?
— Bom senso.
Elena levou a mão à boca.
Não sabia se estava tossindo ou escondendo uma risada.
Leon continuou sério.
— Adrian, se isso tiver relação com Elena—
— Não tem.
— Deixe-me terminar.
— Desculpa.
Ele respirou.
— Se estiver tentando criar outro conflito, eu não vou permitir que ela seja envolvida.
Olhei para Elena.
Depois para ele.
Finalmente entendi uma coisa.
Na perspectiva deles, eu era o problema.
Não importava que Abraham tivesse chegado hoje.
Para aquelas pessoas, Adrian Veyron tinha meses, talvez anos de histórico.
Uma desculpa não apagaria isso.
E não deveria apagar.
— Entendi.
Leon pareceu surpreso.
— Só isso?
— Só.
Fiz uma pequena reverência para Elena.
— Não pretendo incomodar nenhum dos dois.
Depois olhei para Leon.
— E não quero lutar com você.
Parei.
— Na verdade, se puder passar o resto da minha vida sem lutar com você, melhor ainda.
Dessa vez Elena realmente riu.
Baixinho.
Leon olhou para ela.
Depois para mim.
Ele não sabia o que fazer.
Perfeito.
Eu sabia.
Fui embora.
No caminho de volta, passei novamente pelo grande jardim.
Foi quando vi algo que me fez parar.
Uma pequena placa indicava:
Depósito de Equipamentos Mágicos — Ala Oeste
Olhei.
Depois pensei na peça encantada do moinho.
Depois na Pedra de Éter.
— Edgar.
— Sim?
— A Academia joga fora artefatos quebrados?
Ele pareceu confuso.
— Algumas peças são descartadas, acredito.
Meu coração acelerou.
— Onde?
— Não sei.
Sorri.
Talvez eu não precisasse sair da capital para conseguir minha primeira fonte de energia.
Talvez o lixo daquela escola valesse mais para mim do que um tesouro.
Ani falou dentro da minha cabeça.
[Hipótese plausível.]
Finalmente você gostou de uma ideia minha.
[Não expressei aprovação.]
Deixa eu ser feliz.
Continuei andando.
Pela primeira vez desde que acordei, eu não estava pensando em sobreviver a alguma coisa que Adrian tinha feito.
Estava pensando no que eu poderia fazer.
E isso mudava bastante as coisas.
Capítulo 4 — O Lixo de Um Mago é o Tesouro de Um Visconde

Descobrir que a Academia jogava fora equipamentos mágicos deveria ter sido uma boa notícia.
O problema era descobrir onde.
— Senhor, ainda não entendi por que estamos indo para a Ala Oeste.
Edgar caminhava ao meu lado.
— Pesquisa.
— Pesquisa?
— Exatamente.
— Sobre equipamentos descartados?
— Sim.
— Posso perguntar para quê?
Olhei para ele.
— Pode.
Edgar esperou.
Continuei andando.
— E então?
— Você perguntou se podia perguntar.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Está fazendo isso de propósito?
— Um pouco.
A expressão dele não mudou, mas eu já estava começando a perceber quando aquele velho ficava irritado.
Era nos olhos.
Definitivamente nos olhos.
— Preciso de peças mágicas quebradas — expliquei. — Cristais, ferramentas, qualquer coisa que tenha sido descartada.
— Pretende vendê-las?
— Não.
— Repará-las?
— Também não.
— Então…
— Ainda estou descobrindo.
Dessa vez era verdade.
Eu sabia que [Criação] podia usar materiais para reduzir o custo de energia.
Sabia também que objetos encantados poderiam conter alguma energia residual.
O que eu não sabia era praticamente todo o resto.
Quanto conseguiria extrair?
Se conseguiria extrair.
Se Ani poderia fazer isso.
Se a energia serviria para [Criação].
Se tocar numa pedra mágica quebrada faria minha mão explodir.
Essa última possibilidade me incomodava um pouco.
Ani.
[Sim?]
Você me avisaria antes de eu tocar em alguma coisa que pudesse me matar, né?
Houve uma pequena pausa.
[Caso seja possível identificar o perigo antecipadamente.]
Não era exatamente a resposta que eu queria.
Vou considerar um sim.
[Interpretação incorreta.]
Continuei andando.
A Ala Oeste ficava afastada dos edifícios principais da Academia. Quanto mais avançávamos, menos alunos apareciam.
Os jardins deram lugar a construções menores.
Oficinas.
Armazéns.
Uma área de treinamento.
De algum lugar vinha o som repetido de metal batendo contra metal.
Aquilo também era diferente do jogo.
Corações de Asteria fazia a Academia parecer um lugar dedicado quase inteiramente a bailes, aulas e romance.
Na realidade, aquilo parecia uma pequena cidade.
Fazia sentido.
Centenas de nobres estudavam ali.
Precisavam comer.
Dormir.
Treinar.
Aprender magia.
Consertar equipamentos.
Cuidar de cavalos.
Manter carruagens.
Tudo isso exigia gente.
No jogo, bastava apertar um botão e avançar para o próximo dia.
Aqui, alguém precisava limpar a sujeira depois do baile.
— Acho que é aquele.
Edgar apontou.
Um prédio comprido de pedra escura ficava atrás de uma oficina maior.
Na porta havia uma placa.
MANUTENÇÃO E DESCARTE ARCANO
Sorri.
— Achei meu shopping.
— Seu quê?
— Nada.
Entramos.
O cheiro foi a primeira coisa que me surpreendeu.
Metal quente.
Óleo.
Madeira.
E alguma coisa parecida com o cheiro que ficava no ar depois de uma tempestade.
Havia prateleiras por toda parte.
Peças de armaduras.
Bastões.
Lâmpadas.
Fragmentos de cristais.
Engrenagens.
Caixas.
Muitas caixas.
Atrás de uma bancada estava um homem enorme.
Careca.
Barba castanha.
Braços que pareciam capazes de me partir no meio.
Ele ergueu os olhos.
Primeiro viu Edgar.
Depois me viu.
A expressão piorou.
— Visconde Veyron.
— Boa tarde.
— O que quebrou dessa vez?
Parei.
— Como?
O homem apontou para mim com uma ferramenta.
— Da última vez foi um aquecedor.
Edgar desviou o olhar.
— Antes disso, duas lâmpadas de mana.
Continuei em silêncio.
— E uma caixa de música.
Olhei para Edgar.
— Eu quebrei uma caixa de música?
— O senhor a arremessou pela janela.
— Por quê?
— Não gostou da música.
Fechei os olhos por um instante.
O antigo Adrian parecia determinado a me deixar problemas mesmo depois de desaparecer.
Voltei para o homem.
— Hoje não quebrei nada.
— Ainda.
Justo.
— Qual seu nome?
Ele estreitou os olhos.
— Bram.
A memória apareceu.
Bram Keller.
Responsável por parte da manutenção dos equipamentos mágicos da Academia.
No jogo, aparecia em duas missões secundárias.
Eu nunca tinha prestado muita atenção nele.
Agora provavelmente deveria.
— Bram, o que vocês fazem com equipamentos mágicos que não podem ser consertados?
Ele apontou para uma porta no fundo.
— Separamos.
— E depois?
— O que ainda presta é reaproveitado. Metal vai para a fundição. Cristais são enviados para tratamento. O resto é descartado.
— Posso ver?
— Não.
Resposta rápida.
— Por quê?
— Porque isto é uma oficina, não um passeio para nobres entediados.
Gostei dele.
— Não estou entediado.
Bram cruzou os braços.
— Então por que quer ver lixo?
Boa pergunta.
— Estou estudando alternativas para reparar um equipamento no meu território.
Não era exatamente mentira.
A peça do moinho existia.
— Que equipamento?
— Um moinho.
Ele ficou um pouco menos hostil.
— Moinho de mana?
— Pelo que entendi, parte do mecanismo utiliza uma peça encantada.
— Regulador de fluxo?
Olhei para Edgar.
Ele não sabia.
— Provavelmente.
— Qual modelo?
— Não sei.
— Qual encantamento?
— Não sei.
— Quantos anos?
— Também não sei.
Bram respirou fundo.
— E quer consertar como?
— É justamente o que estou tentando descobrir.
Ele me encarou por alguns segundos.
Então apontou para a porta.
— Dez minutos.
Sorri.
— Já gostei de você, Bram.
— Eu ainda não gostei do senhor.
— Justo.
O depósito era maravilhoso.
Não de um jeito normal.
Para qualquer outra pessoa, aquilo provavelmente era um monte de sucata.
Para mim, parecia uma loja de peças grátis.
Havia caixas cheias de fragmentos.
Cristais opacos.
Placas metálicas cobertas de símbolos.
Pedaços de bastões.
Pequenos mecanismos.
Algumas coisas eu reconhecia do jogo.
Outras nunca tinha visto.
Ani começou a reagir assim que entramos.
[Fonte energética detectada.]
Parei.
Onde?
[Múltiplas.]
Meu coração acelerou.
Quantas?
[Trinta e sete fontes com presença energética detectável.]
Trinta e sete.
Tive vontade de abraçar uma caixa.
Me controlei.
Bram estava atrás de mim.
— Posso tocar?
— Depende.
— Em quê?
— Exatamente.
Tá.
— Vou apontar primeiro.
Aproximei-me de uma caixa.
Dentro havia pequenos cristais azulados.
A maioria estava rachada.
Ani?
[Cristal de mana de baixa qualidade.]
Energia?
[Residual.]
Consegue usar?
Pausa.
[Possivelmente.]
Essa palavra estava aparecendo demais na minha nova vida.
Peguei um dos cristais.
Nada aconteceu.
— E aí?
Bram franziu a testa.
— Está falando comigo?
— Não.
— Então com quem?
— Comigo mesmo.
Ele olhou para Edgar.
Edgar simplesmente assentiu.
O velho já tinha desistido.
Ani, tenta absorver.
[Comando inválido.]
Claro.
Como faço para usar essa energia em Criação?
[É necessário estabelecer um meio de transferência.]
Como?
[Posso tentar desenvolver um método.]
Pisquei.
Essa era nova.
Você consegue desenvolver coisas?
[Posso analisar informações disponíveis, testar hipóteses e otimizar processos dentro das capacidades vinculadas ao usuário.]
Rafael.
Não o desgraçado da Terra.
O outro.
A habilidade de Rimuru.
Foi a primeira comparação que veio à minha cabeça.
Ani não era igual.
Mas a função parecia parecida.
Uma assistente de análise.
Aquilo podia ser muito mais importante do que [Criação].
Quanto tempo?
[Estimativa inicial: três horas e quarenta e dois minutos.]
Quase ri.
Pode começar.
[Análise iniciada.]
Guardei o cristal.
Bram imediatamente falou:
— Isso não é seu.
— Eu sei.
Coloquei de volta.
— Quanto custa?
— Isso?
— É.
Ele pegou o cristal.
— Quase nada.
— Quanto é quase nada?
Bram disse o valor.
Eu não sabia se era barato.
Olhei para Edgar.
Ele assentiu discretamente.
Barato.
— Quero comprar alguns.
— Para quê?
— Pesquisa.
— Você não sabe usar isso.
— Por isso se chama pesquisa.
Ele não gostou da resposta.
Mas também não encontrou argumento.
— Quantos?
Pensei.
— Dez.
Edgar tossiu.
Olhei para ele.
— Cinco?
— Sugiro dois.
Minha situação financeira devia estar realmente ruim.
— Dois.
Bram colocou dois cristais separados.
Continuei olhando.
Foi então que Ani falou.
[Objeto de interesse detectado.]
Meu corpo parou.
Onde?
Uma pequena indicação apareceu na minha visão.
No fundo do depósito.
Debaixo de pedaços de metal.
Caminhei até lá.
Afastei uma placa.
Encontrei uma esfera.
Tinha mais ou menos o tamanho de uma laranja.
Metal escuro.
Uma rachadura atravessava o centro.
Peguei.
Bram se aproximou.
— Isso não funciona.
— O que é?
— Núcleo de um servo doméstico.
Eu conhecia servos mágicos.
Pequenos construtos usados por famílias ricas.
No jogo eram basicamente decoração.
— O que aconteceu?
— Sobrecarga.
Ani?
[Estrutura danificada. Núcleo energético parcialmente preservado.]
Quanta energia?
[Consideravelmente superior aos cristais anteriores.]
Meu interesse aumentou.
— Quanto?
Bram deu de ombros.
— Pode levar.
— De graça?
— É lixo.
Quase abracei o homem.
— Tem mais?
— Núcleos?
— Coisas quebradas que ninguém quer.
Ele apontou ao redor.
— Está vendo o depósito?
— Sim.
— Então.
Meu sorriso aumentou.
Edgar percebeu.
— Senhor…
— Eu sei.
— Não podemos levar um depósito inteiro.
— Eu nem falei nada.
— Conheço essa expressão.
— Você me conhece faz algumas horas.
Ele ficou em silêncio.
Eu também.
Tecnicamente Edgar conhecia aquele corpo havia vinte anos.
Melhor não entrar nessa discussão.
Peguei mais algumas peças.
Nada demais.
Um cristal rachado.
O núcleo quebrado.
Uma pequena placa encantada.
Bram cobrou apenas pelos cristais.
Antes de sair, parei.
— Posso voltar?
— Se não quebrar nada.
— Fechado.
— E não entre sozinho.
— Por quê?
— Algumas peças aqui podem explodir.
Olhei para Ani.
[Informação relevante registrada.]
Agora você registra.
Saímos.
No caminho de volta, percebi que já estava ficando tarde.
O céu começava a ganhar tons alaranjados.
Alunos atravessavam os jardins em grupos.
Alguns ainda olhavam para mim.
Mas agora eu estava ocupado demais pensando no núcleo.
Se Ani encontrasse uma maneira de usar aquela energia…
[Criação] deixaria de ser inútil.
Talvez.
Não queria criar expectativas.
Já tinha aprendido isso com gacha.
Quando o jogo dizia “chance aumentada”, significava apenas que você sofreria com mais esperança.
— Edgar.
— Sim?
— Existe algum lugar onde eu possa testar magia sem ninguém ver?
Ele me olhou.
— O senhor não possui mana.
— Eu sei.
— Então o que pretende testar?
— Essa é a parte que quero fazer sem ninguém ver.
— Isso não é tranquilizador.
— Tem algum lugar?
Ele pensou.
— Há uma pequena sala de prática vinculada à sua residência.
Parei.
— Eu tenho uma sala de prática?
— Sim.
— E por que um homem sem mana paga por uma sala de prática?
Edgar não respondeu.
Já sabia.
Status.
O antigo Adrian provavelmente alugava tudo que nobres importantes tinham.
Mesmo sem conseguir usar.
— Também vamos cancelar isso depois.
— Como desejar.
A sala era pequena.
Pelo padrão daquele lugar.
Para mim, parecia grande o suficiente.
Paredes de pedra.
Um alvo no fundo.
Mesa.
Alguns equipamentos.
Coloquei o núcleo quebrado sobre ela.
Os dois cristais ao lado.
— Agora esperamos.
Edgar ficou na porta.
— Pelo quê?
Boa pergunta.
— Uma ideia.
Sentei.
Ani ainda trabalhava.
[Análise: 61%.]
Rápido.
Talvez não levasse as três horas.
Enquanto esperava, peguei os documentos da avaliação.
Tinha trazido alguns comigo.
Poder.
Administração.
Reputação.
União.
Se eu conseguisse fazer [Criação] funcionar, talvez pudesse ganhar pontos em poder.
Mas provavelmente não em três dias.
Administração parecia a melhor opção.
Consertar o moinho poderia ajudar.
Vender a carruagem reduziria despesas.
Talvez existissem outros problemas fáceis de resolver.
Mas vinte e um pontos continuavam sendo muita coisa.
— Edgar.
— Sim?
— Tem como eu subir para Rank E sem ter mana?
— Naturalmente.
Isso me surpreendeu.
— Tem?
— Existem nobres de Rank superior sem grande capacidade mágica.
— Sem grande capacidade ou sem nenhuma?
Ele pensou.
— Zero é… incomum.
— Obrigado pela delicadeza.
— Mas não impossível.
Isso era importante.
— Qual foi o maior Rank que alguém sem mana conseguiu?
— Não sei.
Ani respondeu.
[As memórias disponíveis indicam pelo menos um indivíduo Rank B com capacidade mágica extremamente baixa.]
Eu lembrava.
Barão Holt.
Um personagem secundário famoso pela riqueza.
Ele praticamente comprava influência.
Não era um exemplo moral.
Mas provava que o sistema permitia compensações.
Então eu não precisava virar mago.
Ótimo.
Nunca gostei de fazer exercício mesmo.
A porta se abriu.
Um funcionário apareceu.
— Lorde Veyron?
— Sim?
Ele entregou um documento para Edgar.
— Confirmação da alteração de residência solicitada.
Já?
Edgar leu.
Sua expressão ficou estranha.
— O que foi?
— Seu pedido foi aprovado.
— Excelente.
— A mudança ocorrerá amanhã.
— Melhor ainda.
— Entretanto…
Eu já estava começando a odiar essa palavra.
— Fala.
— Como aluno Rank F sem requerimento especial, será transferido para a Residência Sete.
— Certo.
— Quartos compartilhados.
Parei.
— Compartilhados?
— Sim.
Ah.
Essa parte Edgar não tinha mencionado.
— Com quantas pessoas?
Ele continuou lendo.
— Dois alunos por quarto.
Pensei.
Tudo bem.
Eu já tinha dividido alojamento durante uma excursão escolar.
Sobreviveria.
— Quem é o outro?
Edgar procurou.
Então parou.
— Senhor…
— O quê?
— Talvez queira reconsiderar.
— Quem é?
Ele me entregou o papel.
Li.
Residência Sete — Quarto 214.
Adrian Veyron.
Cedric Arden.
Conhecia o nome.
Demorei dois segundos para lembrar.
Depois lembrei.
— Ah, não.
Cedric Arden.
Rank F.
Filho mais novo de um Barão.
Jogador compulsivo.
Endividado.
Mulherengo.
Preguiçoso.
E um dos poucos personagens masculinos que conseguia ter reputação pior do que Adrian.
Em três rotas diferentes, ele acabava preso.
Em uma quarta, fugia do país devendo dinheiro.
— Cancela.
Edgar quase sorriu.
— Achei que preferisse economizar.
Olhei novamente para o valor da minha residência atual.
Depois para o nome.
Dinheiro.
Cedric.
Dinheiro.
Cedric.
Fechei os olhos.
— Não cancela.
Edgar assentiu.
— Uma escolha sensata.
— Não parece.
O funcionário foi embora.
Voltei para o núcleo.
Ani chegou a 87%.
O sol já estava desaparecendo.
Edgar acendeu uma das lâmpadas mágicas da sala.
Fiquei observando aquela luz.
Mana.
Tudo naquele mundo parecia depender dela.
Portas.
Ferramentas.
Armas.
Transporte.
Agricultura.
E eu tinha zero.
Talvez isso não fosse uma desvantagem.
Talvez fosse simplesmente uma regra diferente para mim.
[Análise concluída.]
Levantei imediatamente.
— Finalmente.
Edgar olhou.
— Teve a ideia?
— Tive.
Mais ou menos.
A interface apareceu.
Processo auxiliar desenvolvido
Conversão Energética Primária
Permite converter energia mágica armazenada em uma fonte externa para utilização temporária pela habilidade [Criação].
Eficiência atual: 8,7%
Meu sorriso desapareceu um pouco.
— Oito vírgula sete?
[Correto.]
— Isso é horrível.
[Considerando a ausência completa de estrutura de conversão no usuário, o resultado é superior à estimativa inicial.]
Tá.
Justo.
Quanto desse núcleo conseguimos usar?
[Energia útil estimada após conversão: 3,2 unidades.]
Lembrei da caneta.
0,03.
Meu sorriso voltou.
Cem canetas.
Não que eu precisasse de cem canetas.
Mas era uma escala que eu entendia.
Coloquei a mão sobre o núcleo.
Como faço?
[Autorize a conversão.]
Autorizado.
O núcleo brilhou.
Muito pouco.
Uma linha azul apareceu dentro da rachadura.
Senti algo atravessar minha mão.
Não doeu.
Era quente.
Depois desapareceu.
A esfera perdeu completamente a luz.
Minha interface mudou.
Energia disponível para [Criação]: 3,2
Fiquei olhando.
Funcionou.
Realmente funcionou.
Edgar se aproximou.
— O núcleo…
— Acabou.
— O senhor drenou a energia?
— Parece que sim.
Ele me encarou.
— Como?
— Ainda estou descobrindo.
Peguei uma folha.
Uma caneta.
Desenhei algo simples.
Uma pequena peça cilíndrica de metal.
Nada complexo.
— Ani, consegue criar isso?
[Sim.]
— Custo?
[0,11 unidade.]
— Faz.
Uma pequena luz apareceu sobre a mesa.
Edgar deu um passo para trás.
A luz se juntou.
Metal surgiu.
Em menos de dois segundos, uma pequena peça caiu sobre a madeira.
Tin.
Ficamos em silêncio.
Peguei.
Metal frio.
Real.
Edgar parecia ter esquecido como falar.
— Senhor…
Eu também estava impressionado.
Muito.
Mas então Ani falou.
[Criação concluída.]
Olhei para a peça.
Depois para os cristais.
Depois para minhas mãos.
Uma habilidade que não funcionava porque eu não tinha mana.
Um mundo cheio de objetos movidos a mana.
E uma Academia que literalmente jogava energia no lixo.
Comecei a rir.
— Senhor?
— Nada.
Coloquei a peça sobre a mesa.
Minha situação ainda era péssima.
Continuava Rank F.
Continuava endividado.
Continuava com reputação seis depois do cancelamento do duelo.
Ainda tinha uma avaliação em três dias.
Mas agora eu possuía alguma coisa que o antigo Adrian nunca teve.
Uma saída.
— Edgar.
— Sim?
— Amanhã quero informações sobre o moinho de Valenford.
— Certo.
— Modelo, peça quebrada, desenhos, tudo.
— Pretende repará-lo?
Olhei para o pequeno cilindro que eu acabara de criar.
— Vou tentar.
Ele observou a peça.
Depois olhou para mim.
Pela primeira vez desde que acordei, Edgar não parecia desconfiado.
Parecia curioso.
— E tem outra coisa — falei.
— Qual?
— Descobre quanto lixo mágico a Academia vende por mês.
— Lixo?
— Equipamentos quebrados. Cristais gastos. Núcleos. Tudo.
— Para quê?
Sorri.
— Talvez eu tenha encontrado minha mina.
Edgar não entendeu.
Ainda.
Eu também não entendia completamente.
Mas não importava.
Tinha três dias.
E, pela primeira vez, três dias começaram a parecer tempo suficiente.
Na manhã seguinte, acordei com alguém batendo na porta.
Abri os olhos.
Por alguns segundos, não lembrei onde estava.
Então vi o teto caro.
— Segunda vida.
Sentei.
— Certo.
[Bom dia.]
— Bom dia, Ani.
Estranho.
Eu estava começando a me acostumar com uma voz dentro da cabeça rápido demais.
As batidas continuaram.
— Já vou!
Levantei.
Abri a porta.
Edgar estava do outro lado.
E não estava sozinho.
Dois funcionários carregavam caixas.
— Mudança.
Olhei para as caixas.
Depois para meu quarto.
Ah.
Residência Sete.
Cedric.
Tinha esquecido.
— Podemos deixar para depois do café?
— O senhor solicitou redução imediata das despesas.
Maldito Abraham de ontem.
— Certo.
Duas horas depois, eu estava diante da Residência Sete.
Era bem diferente da ala nobre.
Não era ruim.
Só era simples.
Um prédio grande de quatro andares.
Pedra cinza.
Janelas comuns.
Alunos entrando e saindo.
A maioria parecia de famílias menores.
Alguns carregavam livros.
Outros equipamentos.
Ninguém tinha criado puxador de porta com ouro.
Já gostei.
— Quarto 214 — disse Edgar.
Subimos.
O corredor estava movimentado.
Algumas pessoas me reconheceram.
Os cochichos começaram.
Ignorei.
Chegamos.
Edgar abriu a porta.
Entramos.
Duas camas.
Dois armários.
Duas escrivaninhas.
Uma janela grande.
Era maior do que meu apartamento na Terra.
— Isso é dormitório barato?
— Sim.
— Esse mundo tem problemas.
Edgar não perguntou.
Os funcionários começaram a colocar minhas coisas.
Então ouvi passos correndo pelo corredor.
Uma voz masculina gritou:
— SEGURA ELE!
Outra respondeu:
— PARA, SEU DESGRAÇADO!
Um rapaz entrou correndo no quarto.
Cabelos castanho-avermelhados bagunçados.
Camisa aberta no colarinho.
Uma bota na mão.
Só uma.
Ele bateu a porta.
Encostou nela.
Respirou fundo.
Então me viu.
Eu vi ele.
Silêncio.
— Adrian?
Cedric Arden.
Meu novo colega de quarto.
— Cedric.
Ele olhou para Edgar.
Para minhas caixas.
Depois novamente para mim.
— Você vai morar aqui?
— Vou.
Um sorriso enorme apareceu no rosto dele.
— Graças aos deuses!
Não gostei.
— Por quê?
— Preciso de dinheiro.
Gostei menos ainda.
— Não tenho.
O sorriso desapareceu.
— Então estamos fodidos.
Do outro lado da porta, alguém começou a bater.
— CEDRIC! ABRE ESSA PORTA!
Ele olhou para mim.
— Você sabe lutar?
— Não.
— Magia?
— Zero.
— Tem algum plano?
Pensei.
— Tenho.
Cedric sorriu novamente.
— Qual?
Apontei para a janela.
— Você corre.
Ele olhou para a janela.
Depois para mim.
— Segundo andar.
— Então paga o que deve.
As batidas ficaram mais fortes.
Cedric ficou em silêncio.
Eu também.
Edgar simplesmente colocou uma das minhas caixas sobre a cama.
Minha segunda manhã naquele mundo tinha acabado de começar.
E eu já sentia falta do quarto caro.
Capítulo 5 — Meu Colega de Quarto Era Outra Dívida Esperando para Acontecer

As batidas na porta ficaram mais fortes.
— CEDRIC!
Meu novo colega olhou para a janela.
Depois para a porta.
Depois para mim.
— Adrian, meu amigo…
— Não.
— Eu nem pedi nada.
— Mas vai.
— Você mudou.
— Nos conhecemos há quanto tempo?
Cedric pensou.
— Uns dois anos.
Droga.
Ainda precisava me acostumar com isso.
Para mim, aquele era nosso primeiro encontro.
Para ele, Adrian Veyron era um conhecido antigo.
E pelas memórias que começavam a aparecer, os dois já tinham bebido juntos algumas vezes.
Não eram amigos.
Mas faziam parte do mesmo grupo de nobres que possuía duas características em comum:
dinheiro mal administrado e decisões ruins.
As batidas continuaram.
— Abra essa porcaria!
Olhei para Cedric.
— Quanto você deve?
— Depende.
— De quê?
— Para quem?
— Para o cara tentando derrubar a porta.
Cedric fez uma careta.
— Trinta e duas moedas de prata.
Olhei para Edgar.
— É muito?
— Para uma dívida de jogo, sim.
— Jogo?
Cedric levantou as mãos.
— Antes de me julgar, preciso explicar.
— Você perdeu apostando?
— Tecnicamente.
— Então não precisa explicar.
— Eu estava ganhando.
— Todo mundo que perde fala isso.
Cedric pareceu ofendido.
— Você também jogava!
Outra memória apareceu.
Cartas.
Bebida.
Uma mesa.
O antigo Adrian jogando moedas como se fossem feijões.
Ótimo.
— Parei.
— Quando?
— Hoje.
— Isso não conta.
— Para mim conta.
A porta recebeu outra pancada.
Edgar caminhou até ela.
— Senhor Edgar?
— Não podemos manter um credor no corredor enquanto os demais alunos observam.
Fazia sentido.
— Abre.
Cedric ficou pálido.
— Adrian.
— Você prefere que ele continue gritando?
— Sim.
Edgar abriu.
Dois rapazes estavam do lado de fora.
O primeiro era grande.
Não tanto quanto Bram, mas ainda assim grande o suficiente para fazer Cedric recuar.
O segundo segurava um pequeno caderno.
Nenhum parecia particularmente perigoso.
Só irritado.
— Finalmente.
O maior tentou entrar.
Edgar permaneceu no caminho.
— Senhores.
O rapaz parou.
Talvez roupa de mordomo não fosse intimidadora, mas Edgar tinha um talento impressionante para fazer qualquer frase soar como uma advertência.
— Viemos falar com Arden.
Cedric levantou a mão.
— Olá.
— Meu dinheiro.
— Sobre isso…
— Hoje.
— Certo.
— Agora.
— A parte do “agora” complica.
O rapaz deu um passo.
Cedric deu outro para trás.
Suspirei.
— Ele realmente deve trinta e duas pratas?
O segundo abriu o caderno.
— Trinta e quatro.
Cedric virou.
— Trinta e quatro?!
— Juros.
— Desde ontem?!
— Você concordou.
Cedric olhou para mim.
— Isso é roubo.
— Você assinou?
— Assinei.
— Então é roubo com sua autorização.
Ele parecia decepcionado comigo.
O credor quase sorriu.
— Quando vence?
Perguntei.
— Hoje ao pôr do sol.
Olhei pela janela.
Ainda era manhã.
— Então vocês não têm motivo para estar aqui agora.
O maior franziu a testa.
— E você vai pagar por ele, Veyron?
— Nem morto.
Cedric levou a mão ao peito.
— Isso machucou.
— Mas se o prazo é até o pôr do sol, vocês voltam no pôr do sol.
O rapaz do caderno analisou a anotação.
Depois assentiu.
— Está certo.
O maior não gostou.
— E se ele fugir?
Apontei para Cedric.
— Olha para ele.
Todos olharam.
Cedric ainda estava com apenas uma bota.
— Justo — disse o rapaz do caderno.
— Ei!
Eles foram embora.
Edgar fechou a porta.
Cedric soltou o ar.
— Você salvou minha vida.
— Por algumas horas.
— Isso já é amizade.
— Não é.
Ele sentou na própria cama.
Só então percebi o estado do lado dele do quarto.
Roupas.
Livros.
Cartas de baralho.
Duas garrafas vazias.
Uma meia pendurada numa cadeira.
Eu tinha acabado de chegar e já queria me mudar novamente.
— Você sempre vive assim?
— Assim como?
Apontei.
Cedric olhou ao redor.
— Ah.
Pegou a meia.
Jogou dentro do armário.
— Resolvido.
Olhei para Edgar.
— Ainda temos o quarto caro?
— Até o final do dia.
Pensei seriamente.
Não.
Economizar.
Precisava economizar.
— Vou sobreviver.
Cedric se jogou na cama.
— Sabia que ficaríamos bem juntos.
— Essa frase ficou estranha.
— Você entendeu.
Começamos a organizar minhas coisas.
Eu tinha trazido muito menos do que Adrian possuía.
A maior parte das roupas caras seria enviada para a propriedade da família.
Algumas eu pretendia vender.
O mesmo valia para objetos que não precisava.
Enquanto os funcionários trabalhavam, Cedric me observava.
— É verdade?
— O quê?
— Você vendeu a carruagem.
— Coloquei à venda.
— Aquela preta?
— Acho.
— Com detalhes de prata?
— Provavelmente.
Cedric sentou.
— Você amava aquela carruagem.
— Eu amo mais não ficar pobre.
Ele ficou em silêncio.
— E cancelou o duelo com Leon.
— Sim.
— Pediu desculpas para Elena.
Parei.
— As notícias correm rápido aqui.
— É uma Academia de casamento cheia de nobres. Fofoca é praticamente matéria obrigatória.
Isso fazia sentido.
Cedric me analisou.
— Você bateu a cabeça?
Tecnicamente, eu morri.
— Ressaca.
— Eu já tive várias. Nenhuma me fez responsável.
— Talvez você esteja bebendo errado.
Ele riu.
Pelo menos Cedric parecia fácil de lidar.
Problemático.
Mas fácil.
— E você? — perguntei. — Como pretende pagar as trinta e quatro?
O sorriso desapareceu.
— Ainda estou trabalhando nisso.
— Quanto tem?
Ele mexeu no bolso.
Colocou algumas moedas sobre a cama.
Contei.
— Isso não chega nem perto.
— Eu sei.
— Sua família?
— Se meu pai descobrir que voltei a apostar, ele me tira da Academia.
Isso eu lembrava.
O Barão Arden já tinha pago dívidas do filho duas vezes.
Na terceira, cortava tudo.
Em algumas rotas do jogo, esse era justamente o começo da queda de Cedric.
Ele pegava dinheiro com pessoas piores.
Depois tentava recuperar apostando.
Perdia.
Pegava mais.
E a bola de neve crescia.
Eu sabia onde terminava.
Não queria aquilo dentro do meu quarto.
— Não vou te emprestar dinheiro.
— Nem ia pedir.
— Ia sim.
— Ia.
— E não vou ajudar você a apostar para recuperar.
— Essa era minha segunda ideia.
— Péssima.
Cedric se deitou.
— Então estou aberto a sugestões.
— Trabalha.
Ele virou o rosto.
— Não exagera.
— Você prefere apanhar?
— Dependendo do trabalho…
Joguei uma almofada nele.
Edgar saiu pouco depois para cuidar da venda da carruagem e buscar as informações de Valenford.
Fiquei sozinho com Cedric.
Isso me deu a oportunidade de descobrir mais sobre a Academia.
Ele sabia bastante.
Não porque estudasse.
Mas porque conhecia gente.
Muita gente.
— Então a avaliação começa depois de amanhã?
— Para nosso Rank, sim.
— Nosso?
Cedric apontou para si.
— F.
Eu tinha esquecido.
— Quanto você precisa para subir?
— Não vou subir.
— Por quê?
— Porque não tenho chance.
— Qual sua pontuação preliminar?
— Trinta e seis.
Parei.
— Trinta e seis?!
— É.
— Você está quatro pontos abaixo do E.
— E?
Ele me olhou como se eu fosse idiota.
— Eu preciso de quatro pontos.
— Sim.
— E você desistiu?
— Basicamente.
Fiquei olhando para ele.
Eu precisava de vinte e um.
O desgraçado precisava de quatro e estava preocupado em fugir pela janela.
— Por que você está Rank F?
— Reputação.
Claro.
— E administração.
— Certo.
— E disciplina.
— Entendi.
— E notas.
— Já deu.
Ele sorriu.
— Em poder eu sou D.
Aquilo me interessou.
— Você usa magia?
Cedric levantou a mão.
Uma pequena chama apareceu sobre os dedos.
Vermelha.
Simples.
Mas real.
Observei com atenção.
— Faz de novo.
— Por quê?
— Quero ver.
Ele apagou.
Acendeu novamente.
Ani falou.
[Energia mágica detectada.]
Consegue analisar?
[Sim.]
A chama desapareceu.
— Mais uma.
Cedric franziu a testa.
— Você nunca viu fogo?
— Estou tentando entender uma coisa.
Ele fez novamente.
[Análise parcial concluída.]
Uma informação apareceu.
Manifestação elemental simples.
Conversão de mana interna em fenômeno térmico.
Dá para copiar?
[Não com as capacidades atuais.]
Tudo bem.
Seria absurdo demais.
— Por que a pergunta? — Cedric quis saber.
— Curiosidade.
— Você odeia magia.
Outra informação sobre Adrian.
— Mudei de opinião.
Cedric ficou me olhando novamente.
— Definitivamente bateu a cabeça.
Talvez essa desculpa acabasse funcionando melhor que ressaca.
— Quanto de mana você tem?
— Quarenta e três.
Olhei minha interface.
Mana: 0.
Era até ofensivo.
— Isso é muito?
— Não.
— Leon tem quanto?
— Mais de quatrocentos, acho.
Ah.
Então lutar com ele realmente teria sido uma excelente ideia.
— Elena?
— Duzentos e alguma coisa.
— Certo.
Precisava entender a escala.
— E alguém Rank S?
Cedric deu de ombros.
— Depende. Rank não é só mana.
Exatamente.
Esse era um ponto importante do mundo.
Rank Matrimonial não era nível de combate.
Uma pessoa podia ser Rank A por território, influência, administração e linhagem mesmo sem ser um monstro em batalha.
E alguém poderoso podia ficar preso num Rank menor por ser politicamente inútil.
O sistema existia para medir o valor de uma união aristocrática.
Não o tamanho de uma bola de fogo.
— Cedric.
— Hum?
— Você conhece alguém que trabalhe com a avaliação?
Ele sorriu.
— Talvez.
— Quem?
— Depende.
— Do quê?
— Quanto vale a informação?
Apontei para a porta.
— Seus credores voltam no pôr do sol.
O sorriso desapareceu.
— Professora Margaret.
— O que ela faz?
— Administração territorial. Faz parte da banca dos Ranks D, E e F.
Isso era útil.
Muito útil.
— Onde encontro?
— Prédio Sul. Sala 31.
Levantei.
— Vamos.
— Nós?
— Você vem comigo.
— Por quê?
— Porque preciso entender a avaliação.
— E eu?
— Você precisa de quatro pontos.
— Eu já aceitei meu destino.
— Desaceita.
Cedric ficou olhando.
— Isso existe?
— A partir de hoje.
A professora Margaret era assustadora.
Não porque fosse enorme.
Era uma mulher de aproximadamente quarenta anos, cabelos castanhos presos e óculos finos.
O problema era o olhar.
Aquele olhar me lembrou uma supervisora do supermercado que conseguia descobrir quem tinha colocado produto na prateleira errada só de entrar no corredor.
Entramos na sala.
Margaret levantou os olhos dos documentos.
Viu Cedric.
Suspirou.
Depois me viu.
Suspirou mais forte.
— Não.
Parei.
— Eu ainda nem falei.
— Seja o que for, não.
Cedric cochichou:
— Eu disse que ela não gostava da gente.
— Eu ouvi, senhor Arden.
Ele fechou a boca.
Aproximei-me da mesa.
— Professora, só quero fazer algumas perguntas sobre a avaliação.
Ela me encarou.
— Você sabe que não posso alterar sua pontuação.
— Não quero que altere.
— Nem aceitar pagamento.
— Também não quero.
— Nem presentes.
— Não trouxe.
Ela pareceu genuinamente confusa.
— Então o que quer?
— Entender como posso ganhar pontos legalmente antes da avaliação.
Silêncio.
Margaret tirou os óculos.
— Repita.
Repeti.
Ela olhou para Cedric.
— Ele está doente?
— Acho que bateu a cabeça.
— Cedric.
— Desculpa.
Margaret colocou os óculos novamente.
— Sente.
Sentamos.
Ela puxou uma folha.
— Sua situação é péssima, Veyron.
— Eu percebi.
— Dezenove pontos preliminares.
— Agora provavelmente quatorze.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Cancelou o duelo.
— Cinco pontos de reputação.
— Correto.
Então eu precisava de vinte e seis.
Excelente.
— A pontuação final não é simplesmente uma soma fixa — explicou ela. — A banca avalia mudanças relevantes ocorridas desde a última revisão.
— Então posso recuperar bastante se demonstrar uma mudança real?
— Em teoria.
— Quanto?
— Não existe um número garantido.
— Mas existe um limite?
— Não.
Isso mudou tudo.
Eu tinha assumido que precisaria juntar pontos como num jogo.
Não funcionava exatamente assim.
O jogo simplificava.
A Academia real julgava acontecimentos.
— Se eu reduzir despesas da Casa?
— Pode influenciar administração.
— Resolver um problema de produção no meu território?
— Pode influenciar mais.
— Demonstrar uma habilidade nova?
Margaret me olhou.
— Você despertou magia?
— Não.
— Então?
— Hipoteticamente.
— Se houver uma habilidade verificável, naturalmente será considerada.
Ótimo.
— E contratos matrimoniais?
— Você não conseguirá um em dois dias.
— Obrigado pela confiança.
— Estou sendo realista.
— Prefiro assim.
Margaret ficou alguns segundos me observando.
— Veyron.
— Sim?
— Por que está fazendo isso agora?
A pergunta era simples.
A resposta não.
Olhei pela janela.
— Porque percebi que estava destruindo minha própria vida.
Não era toda a verdade.
Mas também não era mentira.
— Demorou.
— Bastante.
Ela assentiu.
— Nesse caso, comece parando de criar novos problemas.
Olhei para Cedric.
Ele apontou para si.
— Por que olhou para mim?
Margaret quase sorriu.
Saímos da sala com algo muito mais valioso que pontos.
Uma direção.
Eu não precisava resolver minha vida inteira em dois dias.
Precisava mostrar mudança suficiente para justificar Rank E.
Era diferente.
— Vamos comer — disse Cedric.
— Ainda não.
— Adrian, pensar consome energia.
— Você não pensa tanto assim.
— Exatamente. Por isso tenho energia.
Ignorei.
Descemos as escadas.
Foi quando Ani falou.
[Sugestão.]
Parei.
Essa era nova.
Fala.
[A demonstração de [Criação] pode satisfazer o critério de habilidade verificável.]
Eu sei.
[Entretanto, revelar a habilidade integralmente apresenta risco estratégico.]
Meu sorriso desapareceu.
Ela estava certa.
Se eu aparecesse dizendo “consigo criar matéria”, chamaria atenção demais.
Principalmente sendo um nobre sem mana.
Podemos esconder parte?
[Sim.]
Como?
[Apresente o resultado como uma habilidade de reconstrução ou fabricação limitada que exige fonte energética e materiais.]
Isso era inteligente.
Muito inteligente.
Não precisava mentir completamente.
Só não precisava explicar tudo.
— Adrian?
Cedric estava me olhando.
— Você travou.
— Tive uma ideia.
— Perigoso.
— Preciso de um objeto quebrado.
— Eu tenho vários.
— Mágico.
— Também.
— Barato.
— Ah.
Ele pensou.
— Tenho uma chaleira.
Parei.
— Uma chaleira mágica?
— É.
— Quebrada?
— Faz três meses.
— Por que ainda guarda?
— Eu ia consertar.
— Há três meses?
— Eu sou ocupado.
Olhei para ele.
— Você estava fugindo de cobrador com uma bota.
— Exatamente.
A chaleira estava no fundo do armário.
Debaixo de duas camisas.
E de algo que eu decidi não identificar.
Colocamos sobre a mesa.
Era pequena.
Metal escuro.
Um cristal minúsculo na base.
— O que ela faz?
— Esquenta água.
— Só isso?
— O que você queria? Que fizesse café?
Pensei.
— Isso seria útil.
Ani começou a analisar.
[Dano identificado.]
Consegue reparar com Criação?
[Sim.]
Quanto?
[Utilizando a estrutura existente e um cristal externo: 0,18 unidade.]
Perfeito.
Peguei um dos cristais que comprei com Bram.
— Cedric.
— Hum?
— Fecha a porta.
— Por quê?
— Porque vou mostrar uma coisa.
Ele fechou.
Voltou.
Coloquei a mão sobre o cristal.
Autorizei a conversão.
A luz azul diminuiu.
Minha reserva aumentou.
Depois toquei a chaleira.
— Ani.
[Reparo iniciado.]
Uma luz fraca apareceu.
Nada espetacular.
A rachadura na base desapareceu lentamente.
O pequeno símbolo gravado no metal voltou a ficar inteiro.
Terminou.
Cedric ficou olhando.
— O que você fez?
— Testa.
Ele colocou água.
Tocou o símbolo.
O cristal brilhou.
Alguns segundos depois, vapor começou a subir.
Cedric olhou para a chaleira.
Depois para mim.
Depois novamente para a chaleira.
— Você consertou.
— Parece.
— Você.
— Eu.
— Adrian Veyron.
— Infelizmente.
— O cara que conseguiu quebrar uma caixa de música jogando ela pela janela.
— Estou tentando deixar essa história no passado.
Cedric pegou a chaleira.
— Quanto você gastou?
— Quase nada.
Ele ficou sério.
— Consegue fazer isso com outras coisas?
Essa era a pergunta perigosa.
— Algumas.
— Armas?
— Não sei.
— Artefatos?
— Não sei.
— Carruagens?
— Cedric.
— Certo.
Ele olhou para a chaleira.
Então seus olhos mudaram.
Eu conhecia aquele olhar.
Era o mesmo que eu fazia quando encontrava alguma maneira de economizar dinheiro.
— Quanto custa consertar uma dessas normalmente?
Perguntei.
Cedric respondeu.
Fiz as contas.
Depois olhei para a chaleira.
Depois para ele.
— Quanto você deve mesmo?
— Trinta e quatro pratas.
— E quantos alunos você conhece com equipamento mágico quebrado?
Ele ficou imóvel.
Eu também.
Um sorriso apareceu no rosto dele.
— Muitos.
Sorri de volta.
— Quantos?
— Adrian…
Ele colocou a chaleira na mesa.
— Acho que acabei de descobrir como pagar minha dívida.
— Nossa dívida não.
— Minha.
— Melhor.
Cedric estendeu a mão.
— Sociedade?
Olhei para a mão.
— Não.
— Setenta para você, trinta para mim.
— Você só vai encontrar clientes.
— Isso é importante.
— Oitenta, vinte.
— Setenta e cinco, vinte e cinco.
— E você para de apostar.
O sorriso dele diminuiu.
— Isso não fazia parte.
— Agora faz.
— Por quanto tempo?
— Até pagar suas dívidas.
Ele pensou.
— Todas?
— Quantas existem?
Cedric ficou quieto.
— Cedric.
— A gente estava falando das trinta e quatro.
— Quantas?
— Podemos discutir isso depois.
— Quantas?
Ele coçou a cabeça.
— Cento e nove.
Fiquei em silêncio.
— Pratas?
— Sim.
Soltei o ar.
— Você é um idiota.
— Eu sei.
— Fechado.
Ele estendeu a mão novamente.
Dessa vez apertei.
— Oitenta para mim.
— Vinte para mim.
— Sem apostas.
— Até pagar tudo.
— E nada de pegar empréstimo.
Cedric fez uma careta.
— Certo.
— Nem comigo.
— Certo.
— Nem usar meu nome.
— Você é muito desconfiado.
Lembrei de Camila.
Rafael.
Depois olhei para Cedric.
— Experiência de vida.
Soltei sua mão.
— Agora precisamos testar isso sem chamar atenção.
Cedric sorriu.
— Deixa comigo.
Isso não me tranquilizou nem um pouco.
Uma hora depois, descobri que tinha cometido um erro.
Cedric voltou para o quarto com sete pessoas.
— Eu falei sem chamar atenção!
— São poucos!
— SETE?!
Atrás dele havia quatro rapazes e três mulheres.
Todos carregando alguma coisa.
Uma garota tinha uma luminária.
Outro segurava um bastão.
Uma das mulheres carregava uma pequena caixa metálica.
— Você disse que ele conserta qualquer coisa — falou um rapaz.
Olhei lentamente para Cedric.
— Você disse o quê?
— Marketing.
— Vou te matar.
— Depois dos clientes.
Respirei fundo.
Muito fundo.
Talvez fosse tarde demais.
— Um por vez.
A primeira foi a garota da luminária.
Cabelos loiros curtos.
Rank E, pelo símbolo no uniforme.
Ela colocou o objeto na mesa.
— Parou de funcionar ontem.
— Já levou para manutenção?
— Fica pronto em seis dias.
Ani analisou.
[Cristal de conexão deslocado. Dano mínimo.]
Quase nada.
— Quanto você pagaria?
Ela disse o valor.
Era pouco.
Mas ainda muito mais que meu custo.
— Faço pela metade.
Ela arregalou os olhos.
— Hoje?
— Agora.
— Fechado.
Usei uma quantidade mínima de energia.
A luminária acendeu.
A garota ficou olhando.
— Já?
— Já.
Cedric recebeu o pagamento.
Segundo cliente.
Uma caixa térmica.
Terceiro.
Um bracelete encantado.
O bastão eu recusei.
Ani identificou danos complexos demais.
Não queria arriscar.
Isso também era importante.
Não aceitar tudo.
Em menos de uma hora, tínhamos consertado cinco objetos.
O sexto era impossível com nossa energia atual.
Quando o último aluno saiu, Cedric fechou a porta.
Colocou as moedas sobre a mesa.
Ficamos olhando.
Não era uma fortuna.
Mas era dinheiro.
Dinheiro de verdade.
Ganhei mais reparando sucata durante uma hora do que Adrian costumava gastar numa garrafa de vinho.
— Funciona — Cedric disse.
— Funciona.
Ele começou a separar as moedas.
— Oitenta…
— Espera.
— O quê?
— Precisamos descontar o custo dos cristais primeiro.
Cedric me encarou.
— Você é assustador.
— Por quê?
— Ontem você desafiou Leon para um duelo por causa de uma mulher.
Apontou para as moedas.
— Hoje está calculando custo operacional.
— Crescimento pessoal.
— Isso não é crescimento. É possessão demoníaca.
Quase engasguei.
Cedric riu.
— Sua cara!
— Vai se ferrar.
Foi a primeira vez desde que cheguei àquele mundo que uma expressão da Terra escapou sem eu me importar.
Talvez porque Cedric fosse o tipo de pessoa que não perguntaria de onde veio.
Ele começou a rir ainda mais.
Então alguém bateu na porta.
Nós dois paramos.
— Credor? — perguntei.
Cedric olhou pela janela.
Ainda faltavam algumas horas para o pôr do sol.
— Acho que não.
Abri.
Elena estava do lado de fora.
Olhou para mim.
Depois para Cedric.
Depois para as moedas espalhadas sobre a mesa.
E finalmente para cinco objetos mágicos quebrados esperando análise.
Seus olhos vermelhos se estreitaram.
— O que vocês dois estão fazendo?
Cedric abriu a boca.
Apontei para ele.
— Pensa muito bem antes de responder.
Ele fechou.
Elena cruzou os braços.
— Adrian?
Dessa vez não dava para esconder tudo.
Peguei a chaleira.
Coloquei sobre a mesa.
— Tentando subir para Rank E.
Ela olhou para a chaleira.
— Com chá?
Cedric começou a rir.
Eu queria jogar ele pela janela.
— Não.
Coloquei um dos equipamentos quebrados ao lado.
— Descobri uma habilidade.
O humor desapareceu do rosto dela.
— Que habilidade?
— Consigo reparar algumas coisas.
— Você não tem mana.
— Eu sei.
— Então como?
Era exatamente a pergunta que eu não queria responder.
— Ainda estou descobrindo.
Elena me observou.
A desconfiança voltou.
Mas havia outra coisa agora.
Curiosidade.
Ela entrou no quarto.
— Mostre.
— Agora?
— Agora.
Cedric se aproximou de mim e cochichou:
— Se impressionar ela, talvez ganhe pontos matrimoniais.
Olhei para ele.
— Você quer morrer?
— Só estou ajudando.
Elena ouviu.
— Eu também ouvi.
— Foi mal.
Ela colocou alguma coisa sobre a mesa.
Um pequeno pingente vermelho.
Meu corpo reconheceu antes de mim.
Adrian já tinha visto aquele objeto.
Elena usava desde criança.
— Está quebrado? — perguntei.
— Há três anos.
A expressão dela ficou diferente.
Não era apenas um objeto.
— Ninguém conseguiu reparar sem substituir o núcleo.
— E você não quer substituir.
Ela me olhou.
— Não.
Ani começou a analisar.
Segundos passaram.
[Objeto mágico identificado.]
[Dano estrutural severo.]
[Núcleo preservado.]
Dá para reparar?
Pausa.
Longa demais.
[Sim.]
Meu coração acelerou.
Quanto?
A resposta apareceu.
[14,7 unidades de energia.]
Olhei minha reserva.
Nem perto.
Elena percebeu minha expressão.
— Não consegue?
Peguei o pingente com cuidado.
— Consigo.
Ela ficou imóvel.
— Mas não hoje.
— Por quê?
— Preciso de energia.
— Mana?
— Algo parecido.
Ela estendeu a mão.
— Então devolva.
Coloquei o pingente na palma dela.
— Se eu conseguir uma fonte suficiente, tento.
Elena fechou os dedos em torno dele.
— Quanto vai cobrar?
— Nada.
Ela franziu a testa.
Cedric me olhou como se eu tivesse cometido um crime.
— Nada?
— É importante para você.
— Isso não responde.
Pensei.
Talvez fosse melhor estabelecer limites.
— Considera pagamento pelo pedido de desculpas de ontem.
Elena ficou em silêncio.
Então guardou o pingente.
— Se quebrar ainda mais, eu mato você.
— Justo.
Ela saiu.
Cedric esperou a porta fechar.
Depois virou para mim.
— Nada?!
— Cala a boca.
— Você acabou de destruir nosso modelo de negócios!
— Era um caso diferente.
— É assim que começa.
— Cedric.
— Primeiro uma cliente bonita, depois desconto, depois—
Joguei a almofada nele.
No fim da tarde, Edgar voltou.
Trouxe três coisas.
A confirmação de que havia recebido uma proposta pela carruagem.
Os desenhos do moinho de Valenford.
E uma notícia que mudou meus planos.
Colocou os documentos sobre a mesa.
— A peça quebrada do moinho não pode ser comprada atualmente na capital.
— Por quê?
— O fabricante encerrou as atividades dois anos atrás.
Olhei para os desenhos.
Ani começou imediatamente a analisar.
— Dá para mandar fazer?
— Sim.
— Quanto tempo?
— Entre quatro e seis meses.
— E a vila está esperando há oito.
— Sim.
Aquilo era absurdo.
— Quanto estamos perdendo por mês?
Edgar mostrou.
Fiz a conta.
Minha expressão mudou.
Muito.
Consertar aquele moinho não era só questão de Rank.
A Casa estava sangrando dinheiro.
Ani.
[Análise em andamento.]
Esperei.
Cedric tentou olhar por cima do meu ombro.
— O que é?
— Trabalho.
Ele se afastou imediatamente.
Alguns segundos depois:
[Componente identificado.]
[Reprodução possível.]
Sorri.
Energia necessária?
[23,4 unidades utilizando matéria-prima compatível.]
Meu sorriso diminuiu.
Precisava de muito mais energia.
Mas eu sabia onde conseguir.
A Pedra de Éter.
Aquela que tinha lembrado no primeiro dia.
A ruína fora da capital.
Se ainda estivesse lá, deveria ser suficiente.
Talvez para o moinho.
Talvez até para o pingente de Elena.
Olhei pela janela.
A avaliação começaria em dois dias.
Não podia esperar.
— Edgar.
— Sim?
— Quero uma carruagem amanhã cedo.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Acabamos de vender uma.
— Usa uma velha.
— Para onde pretende ir?
Puxei um mapa.
Encontrei a região.
Apontei.
Edgar se aproximou.
Cedric também.
— Bosque de Elnor — disse Edgar.
— Quanto tempo?
— Aproximadamente três horas.
Perfeito.
Cedric olhou o mapa.
— O que tem lá?
Eu sabia exatamente o que tinha.
Uma ruína esquecida.
Uma estátua quebrada.
Uma passagem escondida.
E uma Pedra de Éter que nenhum personagem importante encontraria durante mais três anos.
Dobrei o mapa.
— Algo que preciso buscar.
Cedric sorriu.
— Vou junto.
— Não.
— Por quê?
— Porque você tem credores.
— Exatamente. É um ótimo motivo para sair da cidade.
— Você prometeu pagar.
— Tecnicamente prometi não apostar.
Edgar interrompeu.
— Talvez seja prudente não viajar sozinho, senhor.
Olhei para Cedric.
Ele sorriu.
— Ouviu o homem.
Não gostei.
Mas Edgar tinha razão.
Eu não sabia lutar.
Cedric pelo menos tinha magia.
— Você sabe usar essa chama para alguma coisa além de acender vela?
Cedric pareceu ofendido.
— Sou Rank D em poder.
— Isso não respondeu.
Uma pequena bola de fogo surgiu sobre a mão dele.
Dessa vez maior.
O calor chegou até mim.
— Serve?
— Serve.
— Então vou.
— Se morrer, sua dívida não vira minha.
— Você sabe realmente acabar com um momento.
Edgar recolheu os documentos.
Eu voltei a olhar para o mapa.
Amanhã seria minha primeira saída da Academia.
Também seria a primeira vez que eu dependeria seriamente do meu conhecimento de Corações de Asteria.
No jogo, chegar à Pedra de Éter era fácil.
Alguns cliques.
Duas telas.
Um pequeno quebra-cabeça.
Mas eu não estava mais sentado diante de um computador.
Se houvesse alguma coisa naquela floresta que o jogo tinha decidido não mostrar…
eu descobriria pessoalmente.
E isso era uma diferença bem grande.
