B2B Celestial: Negociando com Deuses – Light Novel (Cap. 1, 2 e 3 Completo)

5/5 - (1 voto)

Capítulo 1 — O Convite que Não Deveria Existir

O relógio do call center marcava 14h37, mas para João Almeida — conhecido entre os colegas apenas como Joca — parecia que o tempo se arrastava em câmera lenta.

De um lado, o barulho incessante de dezenas de vozes tentando vender cartões de crédito.
Do outro, a tela acinzentada com a lista de clientes que já haviam recusado dez, quinze vezes.

B2B Celestial: Negociando com Deuses é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

— “Boa tarde, senhor Carlos, aqui é da Central Financeira, estou ligando para oferecer um cartão sem anuidade, com limite especial…”

Do outro lado, silêncio seguido de um clique.

Mais uma ligação encerrada.

Joca suspirou.

Era a décima segunda recusa daquela tarde.

Dez anos no mesmo emprego. Sempre batendo na trave das metas, nunca chegando lá. O salário mal pagava o aluguel do quitinete. A comida da semana, muitas vezes, vinha do fiado na mercearia.

À noite, ele revezava entre ser corretor de imóveis de fachada e rodar de Uber com a motinha quase caindo aos pedaços.

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“Trinta anos na cara e ainda nesse ciclo miserável…”, pensou, esfregando o rosto cansado.

Foi nesse instante que o celular vibrou no bolso.

Não era permitido mexer durante o expediente, mas Joca precisava de uma desculpa para fugir da monotonia.

Abriu rápido, tentando disfarçar.

Notificação do WhatsApp:

“Você foi adicionado ao grupo: B2B Celestial VIP 🌌✨”

Joca franziu a testa.

— “Que diabo é isso? Deve ser golpe…”

O grupo estava cheio de números estranhos, nenhum com foto.

Mas as mensagens…

Pareciam uma reunião empresarial de outro mundo.

Mercúria:
“Taxa de câmbio ajustada. Ouro celestial a 3:1 com relíquias menores.”

Zeus Júnior:
“Aceito apostas em trovões compactos. Quem dá mais?”

Malandro Celestial:
“Rapaz… até raio tá na feira agora? Cuidado, que o desconto vem com taxa escondida, visse?”

Joca soltou uma risada nervosa.

— “Rapaz, até no WhatsApp inventam jeito de enrolar otário.”

Quando estava prestes a sair, a tela brilhou.

O ícone do grupo se expandiu até ocupar todo o visor.

Uma luz intensa iluminou a baia apertada do call center.

De repente…

O chão sob seus pés pareceu se abrir.

Uma energia sugou o ar ao redor.

Entre os fios de computadores e cadeiras quebradas, formou-se um círculo dourado flutuante.

Um portal.

Joca arregalou os olhos, levantando-se instintivamente.

— “Oxente… o que é isso?!”

Do outro lado do portal, via-se uma sala envidraçada, imensa.

Como um escritório de arranha-céu que não deveria existir.

Uma figura feminina de cabelos prateados e olhar dourado estava sentada atrás de uma mesa, folheando relatórios como se fosse CEO de uma multinacional.

Ela ergueu os olhos.

Encarou Joca.

E abriu um sorriso leve.

— “Humano, seja bem-vindo ao B2B Celestial VIP.”

Uma pausa.

— “Você foi selecionado para negócios com deuses.”

O coração de Joca disparou.

As vozes dos colegas de call center sumiram.

O mundo inteiro pareceu silenciar.

— “Queremos saber…”

Ela inclinou levemente a cabeça.

— “O que você tem a oferecer?”

Joca não conseguia se mover.

Não conseguia respirar direito.

Só havia um pensamento ecoando na sua mente:

“Ou enlouqueci de vez…”

“…ou essa é a chance que esperei a vida inteira.”

Capítulo 2 — A Primeira Negociação

A sala de vidro do outro lado do portal parecia saída de um filme futurista.

Cadeiras flutuavam.

Papéis se organizavam sozinhos.

E a cidade lá embaixo não era Salvador nem qualquer metrópole conhecida — era um emaranhado de torres douradas que se erguiam até tocar as nuvens.

A mulher de cabelos prateados fechou a pasta que segurava e encarou Joca.

Sua voz era firme, mas sem esforço, como quem já estava acostumada a ditar as regras.

— “Sou Mercúria, responsável pelo Comércio Celestial. Você foi adicionado ao grupo porque, de alguma forma, alguém aqui acredita que tem potencial. Mas saiba… negociar com deuses não é brincadeira.”

Joca engoliu em seco.

— “Minha senhora… eu… só vendo cartão. E mal vendo, viu? O povo nem confia na minha voz.”

Ela arqueou a sobrancelha.

— “Então use o que tem. Cada humano possui algo que não imagina. Memórias, tempo, experiências, até mesmo sonhos. Tudo pode ser moeda.”

Joca piscou, confuso.

— “Memória? Sonho? Rapaz, eu já não durmo direito, se for vender sonho vou à falência.”

Um riso ecoou pelo escritório.

Da parede ao fundo, um sofá florido surgiu do nada.

E nele estava sentado um sujeito bronzeado, camisa estampada aberta no peito, corrente dourada balançando.

— “Oxente, Mercúria, não assusta o cabra logo na estreia, não. Vai espantar o freguês!”

Joca arregalou os olhos.

— “E tu é quem, meu irmão? Parece malandro de novela.”

O sujeito piscou, abrindo um sorriso largo.

— “Me chame de Malandro Celestial. Sou o guia dos caminhos tortos e das oportunidades escondidas. Se o mundo é um tabuleiro, eu ensino o atalho. Entendeu, cabra?”

Mercúria suspirou, como se já estivesse acostumada.

— “Ele sempre aparece sem ser convidado. Mas admito que, em certos negócios, sua visão… criativa… pode ser útil.”

Joca coçou a cabeça, ainda tentando processar tudo.

— “E como é que funciona, então? Eu dou o quê… e recebo o quê?”

Mercúria ergueu um tablet holográfico.

— “Faça sua primeira proposta. Pense no que tem, humano. Algo de valor para você — ou para nós.”

Joca respirou fundo.

Olhou para os bolsos, para o corpo.

Não tinha nada além de moedas de troco, uma caneta emprestada e o crachá do call center.

Pensou em voz alta:

— “Tenho vale-refeição… umas horas extras acumuladas… e uma motinha com o escapamento preso no arame.”

O Malandro Celestial gargalhou tão alto que até as paredes tremeram.

— “Rapaz, oferecer hora extra pra deus? Essa foi boa. Mas, veja, às vezes é justamente a ideia besta que vira ouro.”

Mercúria, no entanto, não riu.

Apenas digitou algo em sua tela.

O portal ao redor brilhou mais forte.

— “Se deseja mesmo iniciar… ofereça algo simples. A sua próxima noite de sono. Em troca, darei um item de baixo risco, apenas para teste.”

Joca hesitou.

— “Minha noite de sono? Já quase não durmo mesmo…”

Malandro Celestial se inclinou, piscando o olho:

— “Aceita, cabra. O máximo que acontece é ficar virado. E vai que você acorda milionário sem ter dormido.”

O coração de Joca disparou.

Sem entender direito, apenas balançou a cabeça.

— “Tá feito.”

O tablet de Mercúria apitou, confirmando o contrato.

Um pequeno cofre dourado apareceu sobre a mesa…

E imediatamente atravessou o portal.

Caiu aos pés de Joca.

Ele o segurou, quase sem acreditar.

Pesado.

Brilhante.

Parecia mais real que qualquer coisa em sua vida.

Mercúria sorriu pela primeira vez.

— “Parabéns, humano. Agora é parte oficial do B2B Celestial VIP. Que sua primeira transação seja apenas o começo.”

O portal começou a se fechar.

Mas antes que desaparecesse, o Malandro Celestial apontou para Joca, ainda sorrindo.

— “Ei, cabra… lembra do que eu disse: atalho não é trapaça, é inteligência. Se souber vender até seu fiado na mercearia, você chega longe.”

E então—

Num piscar de olhos—

Joca estava de volta ao call center.

Com o cofre dourado nos braços.

A primeira negociação tinha começado.

Capítulo 3 — A Relíquia do Vendedor

De volta à baia apertada do call center, Joca encarava o pequeno cofre dourado como quem olha para um pedaço de ouro roubado.

O objeto não combinava em nada com o teclado engordurado e o cheiro de café requentado do escritório.

Ele cutucou a lateral do cofre, tentando achar alguma trava.

— “E se for só enfeite? Deus também pode dar golpe, né?”

Um clique suave ecoou.

A tampa se abriu sozinha.

Lá dentro…

Uma caneta.

Simples.

Preta.

Mas com um brilho metálico que parecia vivo.

Joca franziu o cenho.

— “Passei minha noite de sono inteira por… uma caneta?”

Assim que segurou o objeto, uma sensação estranha percorreu seu braço.

Era como se a caneta pulsasse.

Como se exigisse ser usada.

No visor do computador, surgiu o próximo nome da lista:

Carlos Henrique dos Santos.

Joca bufou.

— “Esse já recusou cartão dez vezes. Vai desligar na minha cara.”

Respirou fundo.

Ajustou o fone.

E começou o script pela milésima vez.

— “Boa tarde, senhor Carlos, aqui é da Central Financeira…”

Mas no momento em que pressionou a caneta contra a mesa—

Algo mudou.

As palavras saíram diferentes.

Mais firmes.

Mais afiadas.

Mais… convincentes.

Do outro lado da linha, uma pausa.

— “…hm. E qual é a vantagem desse cartão aí mesmo?”

Joca arregalou os olhos.

Seu Carlinhos nunca tinha passado da primeira frase!

Empolgado, apertou a caneta de novo.

— “É um cartão que não pesa no bolso, abre portas e ainda pode ser seu aliado no dia a dia. Imagine não precisar se preocupar com anuidade nunca mais, senhor Carlos. Só vantagem, nenhuma dor de cabeça.”

Silêncio.

Um segundo.

Dois.

Então—

— “…Tá bom. Me cadastra aí.”

Joca quase deixou o headset cair.

— “Aceitou?! De primeira?!”

O sistema piscou.

Venda confirmada.

Dez anos naquela cadeira…

E ele nunca tinha sentido aquela vitória tão rápida.

Ele olhou para a caneta reluzindo em sua mão.

— “Rapaz… isso não é só caneta.”

Uma pausa.

— “Isso é chave de ouro.”

O coração batia acelerado.

A primeira relíquia tinha transformado uma ligação impossível em venda.

E pela primeira vez em muito tempo…

Joca sorriu.

Como quem enxergava um novo mundo se abrindo.

O expediente terminou tarde, como sempre.

Joca guardou a caneta com cuidado no bolso.

Como se fosse um diamante.

Na saída, o estômago roncou.

Ele seguiu direto para a mercearia da Dona Marlene — uma portinha apertada na esquina da rua.

— “Boa noite, Dona Marlene. Tô precisando pegar umas coisinhas no fiado, mas prometo que semana que vem eu pago.”

Ela o encarou de cima a baixo.

Olhos semicerrados.

— “Você já disse isso há três semanas, Joca. E até hoje, nada. Aqui não é banco, não. Vai pagar ou vai ficar devendo no ar?”

Joca suspirou.

A vontade era sumir.

Mas então—

Lembrou da caneta.

Apertou-a discretamente.

E aquela sensação voltou.

Confiança.

Presença.

Peso nas palavras.

— “Dona Marlene, olha… se a senhora me der só mais um voto de confiança, prometo que semana que vem eu trago não só o dinheiro atrasado, mas o dobro. A senhora vai olhar pra mim e dizer: ‘esse menino é homem de palavra’.”

As palavras saíram tão firmes…

Que até ele acreditou.

Dona Marlene piscou.

Confusa.

Como se estivesse indo contra a própria lógica.

Por fim, soltou um suspiro pesado.

— “Tá bom. Mas é a última vez, visse? Pega logo antes que eu me arrependa.”

Joca arregalou os olhos.

Saiu com sacolas cheias.

Sem pagar um centavo.

— “Oxente… essa caneta é o cheat code da vida real!”

No caminho de casa, ainda rindo sozinho—

Uma luz cortou o céu.

E caiu bem na sua frente.

O chão tremeu.

Um portal se abriu.

De dentro dele, saiu um jovem loiro, bronzeado, com sorriso de galã.

Roupas brilhavam como neon de boate.

Na mão…

Uma taça dourada.

— “E aí, humano. Finalmente te encontrei.”

Joca engoliu em seco.

— “E tu é quem, cabra?”

O rapaz jogou o cabelo pra trás, cheio de vaidade.

— “Sou Zeus Júnior. Apostador oficial do Olimpo, herdeiro do trovão e…”

Ele sorriu.

— “…futuro dono dessa caneta aí.”

A taça brilhou intensamente.

Como se fosse feita de ouro líquido.

— “Troco sua relíquia por esta taça de néctar divino. Um gole e você nunca mais vai sentir fome na vida.”

Uma pausa.

— “Fechado?”

Joca olhou para a taça.

Depois para a caneta no bolso.

O coração acelerou.

Pela primeira vez…

Alguém queria comprar algo que ele mal entendia.

E ele sabia.

Aquilo não era só uma troca.

Era o começo—

De um jogo perigoso.

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