O Vilão Inútil – Light Novel de Fantasia e Isekai

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Eu Só Queria Uma Esposa e Uma Vida Tranquila

Volume 1 — Abraham Costa

Capítulo 1 — Seguro-Desemprego, Gacha e Outras Decisões Questionáveis

Ser demitido foi, provavelmente, a melhor coisa que tinha me acontecido naquele ano.

O que dizia bastante sobre como aquele ano estava uma merda.

Fiquei alguns segundos parado diante da porta automática do supermercado, segurando uma sacola com duas camisetas do uniforme, uma garrafa de água amassada e um carregador que eu tinha certeza de que nem era meu.

Atrás de mim, alguém empurrava uma fileira de carrinhos.

Mais adiante, uma senhora discutia com o segurança porque queria entrar com um cachorro no colo.

Um entregador quase foi atropelado por um carro que resolveu dar ré sem olhar.

Tudo continuava exatamente igual.

Menos eu.

Aos vinte anos, oficialmente desempregado.

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— É… — murmurei. — Deu bom.

Uma mulher que passava perto de mim lançou um olhar estranho.

Ignorei.

Talvez “deu bom” não fosse exatamente a reação esperada de alguém que acabara de perder o emprego.

Mas ela não tinha passado os últimos dois anos entrando naquele supermercado antes das oito da manhã.

Eu tinha.

Também não tinha passado manhãs inteiras descarregando caixa, conferindo mercadoria, repondo produto, ouvindo cliente reclamar que o preço na prateleira estava diferente por quarenta centavos e depois levando bronca porque uma promoção que eu nem sabia que existia tinha acabado.

Eu tinha.

Então, naquele momento, enquanto o ar quente do Rio batia no meu rosto e eu percebia que não precisaria voltar no dia seguinte, senti algo muito parecido com liberdade.

Durou uns quinze segundos.

Peguei o celular.

Saldo da conta.

A liberdade imediatamente pareceu menos bonita.

— Tá. Também não precisa humilhar.

Guardei o aparelho.

Eu não estava completamente ferrado. Receberia as verbas da demissão, tinha direito ao seguro-desemprego e ainda morava num apartamento pequeno que minha mãe havia deixado para mim antes de se mudar para outra cidade.

Não era uma vida de luxo.

Mas também não precisava entrar em pânico naquele mesmo dia.

Talvez eu pudesse descansar algumas semanas.

Procurar outro emprego depois.

Organizar minha cabeça.

Era um plano excelente.

O problema é que meus planos naquele ano tinham adquirido o hábito irritante de dar errado.

E o primeiro deles tinha nome.

Camila.

Eu a conhecera naquele mesmo supermercado.

Ela trabalhava no caixa quando entrei como repositor. Tinha vinte e um anos, cabelo castanho preso quase sempre num rabo de cavalo e o estranho talento de conseguir conversar com qualquer pessoa.

Inclusive comigo.

Começamos almoçando juntos.

Depois vieram mensagens.

Saídas depois do expediente.

Namoro.

Durante quase um ano, achei que tinha dado sorte.

Até uma terça-feira, três meses antes da minha demissão.

Eu deveria estar de folga.

Voltei ao mercado porque tinha esquecido minha carteira dentro do armário dos funcionários.

Foi isso.

Nada de pressentimento.

Nada de mensagem misteriosa.

Nenhum amigo me avisando.

Eu simplesmente esqueci a porcaria da carteira.

Entrei pela área dos funcionários, cumprimentei o segurança e fui até o corredor dos fundos.

Então ouvi uma risada conhecida.

Parei.

Camila estava perto do depósito.

Com Rafael.

Meu amigo.

Não “colega de trabalho”.

Meu amigo mesmo.

O cara que já tinha bebido cerveja na minha casa. O cara que sabia que eu estava juntando dinheiro para comprar uma moto usada. O cara que algumas semanas antes tinha me pedido duzentos reais emprestados.

E estava beijando minha namorada.

Por alguns segundos, meu cérebro tentou encontrar uma explicação alternativa.

Talvez ela tivesse tropeçado.

Na boca dele.

Por aproximadamente vinte segundos.

A criatividade humana realmente fica impressionante quando a verdade é uma merda.

Rafael foi o primeiro a me ver.

O rosto dele perdeu a cor.

Camila se afastou.

— Abraham…

Quando alguém começa uma frase usando seu nome daquele jeito, dificilmente vem coisa boa depois.

— Não.

Ela piscou.

— Me deixa explicar.

— Explicar o quê?

— Não é o que você está pensando.

Olhei para Rafael.

Depois para ela.

Depois novamente para Rafael.

— Caralho, então eu tô pensando errado pra cacete.

Rafael tentou falar alguma coisa.

Não lembro o quê.

Também não bati nele.

Durante algumas semanas, fiquei imaginando se deveria ter batido. Parecia uma daquelas situações em que, numa série, o protagonista acerta um soco perfeito, o outro cara cai e todo mundo pensa que ele é foda.

Na vida real, provavelmente eu seria demitido três meses antes, perderia parte do dinheiro da rescisão e talvez ainda precisasse responder por agressão.

Então simplesmente peguei minha carteira.

Terminei o namoro.

Bloqueei os dois.

E fui embora.

Foi menos cinematográfico.

Também foi mais barato.

O problema veio depois.

Não virei um daqueles caras que decide que todas as mulheres são iguais.

Minha conclusão foi bem mais simples.

Relacionamento dava trabalho.

Muito trabalho.

E aparentemente nem fazer tudo direito garantia alguma coisa.

Trabalhar também dava trabalho.

Portanto, quando fui demitido três meses depois, decidi que talvez o universo estivesse tentando me ensinar alguma coisa.


Na primeira semana desempregado, fui produtivo.

Atualizei currículo.

Arrumei o apartamento.

Pesquisei vagas.

Fiz uma planilha de gastos.

Comecei a correr pela manhã.

Na segunda semana, parei de correr.

Na terceira, parei de olhar vagas todos os dias.

Na quarta, descobri que acordar às dez da manhã numa terça-feira era uma experiência espiritual.

O seguro-desemprego caiu.

Paguei as contas.

Comprei comida.

Olhei o que sobrou.

— Dá pra sobreviver.

Esse foi meu primeiro erro.

O segundo estava instalado no computador.

Um jogo de gacha.

Eu já jogava algumas coisas antes, mas trabalhar em mercado não deixava muito tempo para dedicar a jogos gigantescos. Agora eu tinha uma coisa extremamente perigosa.

Tempo livre.

Comecei terminando um RPG que estava parado havia meses.

Depois outro.

Então um amigo de internet me recomendou um gacha.

Depois outro.

Quando percebi, tinha uma rotina.

Acordava.

Fazia café.

Entrava para pegar recompensa diária.

Fazia missão diária.

Gastava energia.

Fechava o jogo.

Abriria outro.

Repetia.

Eu me tornei extremamente eficiente em não fazer nada útil.

O que, considerando meus dois anos organizando estoque, parecia merecido.

Até que apareceu o primeiro otome game.

Meu primeiro pensamento foi:

— Nem ferrando.

Dois dias depois, eu estava jogando.

A culpa foi de uma propaganda.

O anúncio mostrava um mapa enorme, batalhas mágicas, administração territorial, monstros e um sistema de criação de equipamentos.

Parecia um RPG de fantasia normal.

Baixei.

Nos primeiros quinze minutos, descobri que o personagem principal era uma mulher e que existiam cinco homens com retratos bonitos demais aparecendo na tela.

Fechei o jogo.

Abri novamente dez minutos depois.

Eu já tinha baixado três gigas.

Não ia desperdiçar internet.

Foi assim que comecei.

E, para minha surpresa, gostei.

Não exatamente do romance.

Gostei dos sistemas.

Alguns daqueles jogos eram absurdamente complexos.

Escolher uma resposta errada no capítulo quatro podia impedir um casamento no capítulo dezessete.

Uma aliança aparentemente inútil mudava uma guerra.

Um personagem secundário salvo no começo podia virar ministro anos depois.

Havia rotas secretas.

Finais ruins.

Finais verdadeiros.

Eventos escondidos.

Itens que só apareciam se você estivesse no lugar certo durante determinado período.

Aquilo virou um desafio.

Eu queria ver tudo.

Então comecei a zerar.

Um.

Outro.

Outro.

Quando acabavam, procurava jogos parecidos.

E foi assim que encontrei Corações de Asteria.

O nome parecia tão genérico que quase passei direto.

A descrição também não ajudava.

Encontre o amor em um mundo onde seu coração determinará seu destino.

— Nossa senhora.

Quase fechei a página.

Então vi as avaliações.

O jogo era famoso por uma razão completamente diferente.

Era difícil.

Não difícil no sentido de inimigos com vida demais.

Difícil porque tudo estava conectado.

Romance.

Status social.

Magia.

Economia.

Território.

Diplomacia.

Casamento.

Sucessão.

Guerra.

A personagem principal entrava na Academia Imperial de Matrimônio, onde jovens adultos da aristocracia eram avaliados não apenas por poder mágico, mas pela capacidade de formar uma Casa funcional.

O sistema de classificação ia de F até S.

Seu Rank influenciava pretendentes disponíveis, contratos matrimoniais, posição social e até determinadas possibilidades de sucessão.

E havia Leon.

O protagonista masculino principal.

Bonito.

Talentoso.

Educado.

Poderoso.

Herdeiro de uma família importante.

O pacote completo.

Eu não gostava dele.

Não porque fosse mal escrito.

Esse era justamente o problema.

Leon era bom demais.

Na primeira rota que joguei, achei que em algum momento revelariam que ele sacrificava crianças ou chutava cachorro escondido.

Nada.

O maluco realmente era gente boa.

— Aí fica difícil competir, parceiro.

Mas eu não estava competindo.

Minha obsessão estava nos personagens secundários.

Principalmente nos inúteis.

Existia algo estranhamente divertido em descobrir que um nobre mencionado durante duas linhas possuía uma propriedade abandonada onde, seis capítulos depois, era possível encontrar um artefato raro.

Comecei a anotar.

Rotas.

Itens.

Tesouros.

Chefes.

Receitas.

Eventos.

Algumas informações foram parar numa planilha.

Sim.

Uma planilha.

Depois de passar dois anos reclamando de inventário no supermercado, eu voluntariamente criei um inventário para um jogo.

A ironia não passou despercebida.

Entre os personagens que mais apareciam nas rotas ruins estava um jovem Visconde.

Um sujeito bonito de cabelo prateado, família antiga e talento mágico inexistente.

Rank F.

Arrogante.

Preguiçoso.

Covarde quando precisava lutar e corajoso demais quando precisava importunar mulher.

O tipo de personagem criado especificamente para o jogador sentir satisfação quando levava um soco.

Eu vi aquele desgraçado morrer quatro vezes.

Em uma rota, Leon o derrotava em duelo.

Em outra, a própria família perdia o título depois de uma investigação.

Em uma terceira, ele se envolvia com nobres rebeldes tentando recuperar prestígio e terminava executado.

A quarta era particularmente humilhante.

Ele fugia de uma batalha, caía de uma ponte e morria sem ninguém perceber até dois capítulos depois.

Nem ilustração especial tinha.

Eu ri muito.

— Imagina ser tão inútil que nem sua morte ganha CG.

Continuei jogando.

Com o tempo, completei todas as rotas principais.

Depois as secundárias.

Depois comecei a procurar conteúdo escondido.

Foi aí que percebi uma coisa.

O mundo de Corações de Asteria era muito maior do que a história romântica mostrava.

Havia ruínas que nenhuma rota obrigava o jogador a visitar.

Descrições de guerras ocorridas séculos antes.

Itens com efeitos aparentemente inúteis.

Regiões inteiras que apareciam apenas no mapa.

E tesouros.

Muitos tesouros.

Alguns eram ridiculamente poderosos.

Só estavam escondidos em lugares que quase ninguém tinha motivo para explorar.

Passei semanas procurando tudo.

Quando finalmente apareceu na tela:

CONCLUSÃO TOTAL: 100%

encostei na cadeira.

E fiquei olhando.

— Acabou.

Era quase quatro da manhã.

Na mesa havia uma caneca vazia, duas embalagens de biscoito e um prato que eu vinha prometendo levar para a cozinha desde a tarde.

Meu celular estava carregando perto do monitor.

A parcela do seguro-desemprego tinha caído naquele dia.

Eu deveria começar a procurar emprego seriamente na semana seguinte.

Olhei para o computador.

Depois para o teto.

Pensei na minha vida.

Vinte anos.

Sem emprego.

Sem namorada.

Um amigo a menos.

E agora especialista mundial num jogo de romance que provavelmente não colocaria no currículo.

— Tá indo bem, Abraham.

Levantei.

Minha cabeça girou.

Segurei na mesa.

— Opa.

Esperei alguns segundos.

Tinha passado o dia praticamente só no café.

Boa ideia.

Fui até a cozinha, abri a geladeira e peguei água.

Bebi direto da garrafa.

Minha visão continuou estranha.

Sentei.

Talvez eu tivesse exagerado.

Dormir quatro ou cinco horas por noite durante vários dias parecia muito menos inteligente quando o corpo começava a cobrar.

Respirei fundo.

O coração estava rápido.

Depois rápido demais.

Peguei o celular.

A tela pareceu distante.

— Ah, não…

Tentei levantar.

Não consegui.

O aparelho escapou da minha mão e bateu no chão.

Por algum motivo, pensei na minha mãe.

Depois pensei que morrer daquele jeito seria extremamente vergonhoso.

Depois não pensei em mais nada.


Quando abri os olhos novamente, havia um teto acima de mim.

Isso já era uma surpresa considerável.

Fiquei olhando para ele.

Madeira escura.

Detalhes dourados.

Uma pintura no centro.

Nenhuma dessas coisas pertencia ao meu apartamento.

Mexi os dedos.

Funcionaram.

Braços.

Também.

Respirei.

Sem dor.

— Hospital?

Minha voz saiu diferente.

Parei.

Toquei a garganta.

— Que porra…

A voz era minha.

Mas não era.

Mais grave.

Mais limpa.

Sentei devagar.

O quarto era enorme.

Não grande.

Enorme.

Cama com dossel.

Cortinas pesadas.

Tapete que provavelmente custava mais do que tudo que eu tinha no apartamento.

Uma lareira apagada.

Estantes.

Uma escrivaninha.

E uma janela alta mostrando torres de pedra sob o céu azul.

Fiquei alguns segundos completamente imóvel.

Então olhei para minhas mãos.

Dedos longos.

Pele clara.

Nenhuma pequena cicatriz perto do polegar esquerdo.

Eu tinha aquela cicatriz desde os doze anos.

Saí da cama.

Quase tropecei.

Meu corpo era mais alto.

Fui até o espelho.

E parei.

Um jovem me encarava.

Devia ter aproximadamente minha idade.

Talvez exatamente vinte.

Rosto fino, bonito demais para ser meu, pele clara e olhos de uma tonalidade fria que eu conhecia muito bem.

O cabelo prateado caía de maneira bagunçada sobre a testa e terminava próximo à nuca.

Eu conhecia aquele rosto.

Não pessoalmente.

Tinha visto ele sendo espancado.

Preso.

Humilhado.

Executado.

E, numa ocasião memorável, caindo de uma ponte.

— Não.

Aproximei o rosto do espelho.

— Não, não, não.

Memórias que não eram minhas começaram a surgir.

Um sobrenome.

Um título.

Uma Casa.

Uma academia.

Mulheres olhando para mim com desprezo.

Professores desistindo de tentar.

Dívidas.

Escândalos.

Rejeições.

Meu estômago afundou.

— Não pode ser.

Uma sensação fria atravessou minha cabeça.

Então uma voz feminina, perfeitamente calma, falou dentro dela.

[Integração concluída.]

Congelei.

Olhei para trás.

Ninguém.

— Quem falou?

[Estabilização da alma concluída.]

— Alô?

Silêncio.

— Tem alguém aqui?

[Sim.]

Dei dois passos para trás.

— Onde?

[A pergunta não possui precisão suficiente.]

Fiquei olhando para o quarto vazio.

— Você tá dentro da minha cabeça?

Pausa.

[Descrição simplificada, porém aceitável.]

Passei a mão pelo rosto.

— Beleza.

Não estava beleza.

Nada estava beleza.

Mas entrar em pânico antes de entender o problema nunca tinha me ajudado muito.

— Quem é você?

[Não há designação registrada.]

— O que você é?

Dessa vez, a resposta demorou um pouco mais.

[Função auxiliar vinculada à habilidade única do usuário.]

Algo apareceu diante dos meus olhos.

Não uma tela física.

Era mais parecido com informação tomando forma diretamente na minha percepção.

Nome: —
Idade: 20
Título: Visconde
Rank: F
Mana: 0

E abaixo:

Habilidade Única: [Criação]

Li uma vez.

Depois outra.

Na terceira, comecei a rir.

Não porque fosse engraçado.

Era aquele tipo de risada que aparece quando a realidade passa do ponto em que reclamar ainda faz sentido.

— Criação.

[Correto.]

— Eu consigo criar coisas?

[Correto.]

Meu sorriso aumentou.

Talvez não estivesse tão ferrado.

Eu conhecia aquele mundo.

Conhecia itens que ninguém descobriria durante anos.

Conhecia tesouros.

Conhecia guerras antes de acontecerem.

E agora ainda tinha uma habilidade chamada Criação.

— Certo. Como uso?

[Selecione o objeto desejado.]

Olhei para a escrivaninha.

Uma caneta.

Algo simples.

— Cria uma caneta.

[Energia insuficiente.]

Meu sorriso desapareceu.

— Quanto custa?

[0,03 unidade de mana.]

Olhei novamente para minha condição.

Mana: 0.

— E quanto eu tenho?

[Zero.]

— Eu entendi essa parte. Quanto eu consigo recuperar?

[Zero.]

— Naturalmente?

[Zero.]

— Dormindo?

[Zero.]

— Comendo?

[Zero.]

— Meditando?

[Zero.]

Apoiei as duas mãos na escrivaninha.

Respirei.

— Então eu recebi uma habilidade que cria qualquer coisa…

[A afirmação contém imprecisões.]

— …e não tenho energia nem para criar uma caneta?

[Correto.]

Fechei os olhos.

Claro.

Era óbvio.

Seria pedir demais morrer e ganhar alguma coisa que funcionasse.

— Você tem nome?

[Não.]

— Então vou te chamar de Ani.

Silêncio.

— Algum problema?

[Designação registrada: Ani.]

— Ótimo.

Voltei ao espelho.

O rosto bonito continuava lá.

Cabelo prateado.

Vinte anos.

Visconde.

Rank F.

Mana zero.

Então finalmente lembrei do nome daquele personagem.

E toda a pouca esperança que eu ainda tinha desapareceu.

Eu não tinha reencarnado como Leon.

Nem como um príncipe.

Nem como um figurante desconhecido que pudesse pegar uma fazenda e desaparecer da história.

Eu era o Visconde inútil.

O homem que praticamente todas as mulheres importantes daquele jogo detestavam.

E, dependendo da rota, eu tinha menos de dois anos para morrer.

Fiquei encarando meu reflexo por algum tempo.

— Ani.

[Sim?]

— Tem como eu voltar?

[Não.]

— Imaginei.

Caminhei de volta até a cama e sentei.

Precisava pensar.

Eu conhecia aquele jogo melhor do que provavelmente qualquer pessoa deveria conhecer.

Isso significava que também sabia exatamente quais decisões aquele idiota tomaria.

A solução mais óbvia era simples.

Não tomar nenhuma delas.

Nada de perseguir heroína.

Nada de provocar Leon.

Nada de entrar em conspiração política.

Nada de tentar recuperar prestígio fazendo merda.

Eu já tinha trabalhado demais numa vida.

Não pretendia morrer e começar outra carreira.

Precisava sobreviver.

Depois resolver as dívidas do Viscondado.

Encontrar alguma forma de contornar minha ausência de mana.

Melhorar aquele Rank F só o suficiente para deixar de ser uma piada.

E então encontrar uma mulher normal que aceitasse se casar comigo.

Uma.

Não precisava ser princesa.

Não precisava ser a mulher mais bonita do continente.

Não precisava ter Rank S.

Bonita, tranquila e sem intenção de me esfaquear enquanto eu dormisse já estaria excelente.

Depois disso, uma propriedade pequena.

Dinheiro suficiente.

Comida boa.

Talvez uma biblioteca.

Dormir até tarde de vez em quando.

Era um plano modesto.

Depois de morrer uma vez, achei que tinha conquistado o direito de querer pouco.

Levantei novamente.

— Certo.

[O usuário estabeleceu um objetivo?]

— Estabeleci.

Abri as cortinas.

Abaixo da janela, carruagens atravessavam uma avenida larga. Ao longe, torres brancas se erguiam acima dos telhados da cidade.

Em algum lugar além delas estava a Academia Imperial de Matrimônio.

O lugar onde o antigo dono daquele corpo tinha conseguido transformar a própria reputação em lixo.

— Vou arrumar uma esposa, resolver essa bagunça e viver tranquilo.

Ani permaneceu em silêncio por alguns segundos.

[Objetivo registrado.]

Assenti.

Pelo menos alguém naquele mundo parecia acreditar no meu plano.


Capítulo 2 — Um Visconde Rank F Tem Problemas Demais

Naquele momento, eu também acreditava.

O problema foi que meu plano durou menos de cinco minutos.

Três batidas vieram da porta.

— Jovem mestre?

Olhei para ela.

A voz era de um homem mais velho.

— Ani.

[Sim?]

— Quem é?

[Não possuo informação suficiente.]

— Excelente ajuda.

[Agradeço.]

Fiquei em silêncio.

Eu não sabia se ela tinha entendido o sarcasmo.

— Jovem mestre? — o homem chamou novamente. — Posso entrar?

Meu primeiro impulso foi responder que não.

O segundo foi lembrar que eu não fazia ideia de onde ficavam minhas roupas.

Olhei para mim.

Eu estava usando uma camisa branca larga e uma calça simples. Pelo menos não tinha acordado pelado.

— Pode.

A porta se abriu.

Um homem de aproximadamente sessenta anos entrou no quarto.

Cabelos grisalhos bem penteados. Barba curta. Roupa preta impecável.

Ele parecia exatamente o tipo de mordomo que existia em jogo de fantasia.

O homem parou.

Olhou para mim.

Depois olhou para a cama.

Depois para mim outra vez.

— O senhor está de pé.

— Estou.

Ele continuou me encarando.

— Isso é… bom?

O homem piscou.

— Naturalmente.

Aquilo não pareceu muito natural.

— Aconteceu alguma coisa?

— O senhor não se recorda?

Essa pergunta nunca traz coisa boa para alguém que acabou de reencarnar.

Procurei nas memórias que tinham aparecido na minha cabeça.

Havia muita coisa.

Algumas lembranças eram claras. Outras pareciam fotografias jogadas dentro de uma caixa.

Então encontrei.

Bebida.

Uma discussão.

Um corredor da academia.

Uma garota.

Cabelos negros.

Olhos vermelhos.

Meu estômago apertou.

— Ah.

O mordomo manteve a expressão séria.

— O médico recomendou que permanecesse em repouso durante todo o dia.

— Médico?

— O senhor perdeu a consciência ontem à noite.

Ótimo.

Pelo menos isso explicava por que ninguém achava estranho eu estar no quarto.

— Quanto eu bebi?

O mordomo hesitou.

Isso já era resposta suficiente.

— Entendi.

— O senhor consumiu aproximadamente duas garrafas de vinho.

— Duas?!

— E parte de uma terceira.

Fiquei olhando para ele.

Meu novo corpo também era um idiota.

— Sozinho?

— Não exatamente.

Isso me deixou ainda mais preocupado.

— O que eu fiz?

O homem desviou os olhos.

— Senhor…

— Pode falar.

— Talvez seja melhor não pensar nisso agora.

Pronto.

Tinha feito merda.

— Eu quero saber.

Ele respirou fundo.

— O senhor tentou declarar seus sentimentos à senhorita Elena Valen novamente.

O nome trouxe outra sequência de memórias.

Elena.

Filha de um Conde.

Rank C.

Uma das personagens importantes de Corações de Asteria.

E uma das mulheres que aquele corpo tinha perseguido por meses.

Fechei os olhos.

— Ela recusou.

— Sim.

— E eu não aceitei bem.

O mordomo não respondeu.

— Acertei?

— Sim.

— Fiz alguma coisa com ela?

A pergunta saiu mais séria.

Se aquele desgraçado tivesse machucado a garota, eu precisava saber.

— Não.

Soltei o ar.

— Ainda bem.

— Entretanto…

Claro que tinha um entretanto.

— Fala.

— O senhor desafiou Lorde Leon para um duelo.

Fiquei imóvel.

Olhei lentamente para ele.

— Eu fiz o quê?

— Um duelo.

— Com Leon?

— Sim.

— Leon… qual Leon?

O mordomo pareceu confuso.

— Lorde Leon Arclight.

Era ele.

O protagonista.

O homem que eu tinha acabado de decidir evitar.

Passei a mão pelo rosto.

— Quando?

— Amanhã.

Silêncio.

Olhei para a janela.

Depois para o mordomo.

Depois para a janela novamente.

— Dá para cancelar?

O homem ficou surpreso.

— Cancelar?

— É. Desistir. Falar que eu estava bêbado. Pedir desculpa. Qualquer coisa.

Ele demorou alguns segundos para responder.

— Tecnicamente… sim.

— Ótimo.

— Mas o senhor perderá pontos de reputação na Academia.

— Quantos?

— Provavelmente cinco.

— Quantos eu tenho?

— Onze.

Parei.

— De quanto?

— Cem.

Onze.

Eu tinha onze pontos de reputação.

O antigo dono daquele corpo realmente tinha trabalhado duro para chegar ao fundo do poço.

— Então fico com seis.

— Senhor?

— Cancela.

O mordomo me encarou como se eu tivesse começado a falar outra língua.

— O senhor tem certeza?

— Absoluta.

— Mas todos saberão que o senhor recuou.

— Melhor covarde vivo do que corajoso enterrado.

Ele abriu a boca.

Fechou.

Acho que não existia resposta adequada para aquilo.

— Providencia o cancelamento.

— Sim, jovem mestre.

Ele fez uma reverência.

— Mais alguma coisa?

Pensei.

— Seu nome.

O homem levantou o rosto.

Merda.

— Quero dizer…

Precisava consertar aquilo.

— Nome completo.

— Edgar Hale.

A memória apareceu quase imediatamente.

Edgar.

Mordomo da família havia mais de trinta anos.

Serviu meu avô.

Depois meu pai.

Agora servia aquele desastre que eu tinha virado.

— Certo, Edgar.

Ele continuava desconfiado.

— Pode me trazer alguma coisa para comer?

— Naturalmente.

— E água.

— Sim.

— Muita água.

Edgar fez outra reverência e saiu.

A porta fechou.

Esperei.

Cinco segundos.

Dez.

— Ani.

[Sim?]

— Onze pontos.

[Correto.]

— Não precisava confirmar.

Sentei na cadeira perto da escrivaninha.

Agora eu tinha um problema mais urgente.

Informação.

Conhecer o jogo era uma vantagem enorme, mas havia uma diferença entre conhecer a história e viver dentro dela.

No jogo, ninguém precisava saber quantas moedas o personagem gastava no café da manhã.

Aqui, eu precisava.

— Ani, consegue mostrar minhas informações completas?

[Sim.]

Uma janela apareceu diante dos meus olhos.


Nome: Adrian Veyron
Idade: 20 anos
Título: Visconde
Casa: Veyron
Rank Matrimonial: F
Reputação Acadêmica: 11/100
Mana: 0
Afinidade Mágica: Nenhuma
Habilidade Única: [Criação]


Finalmente.

Meu nome agora era Adrian Veyron.

Estranho.

Na Terra, eu era Abraham.

Aqui, Adrian.

Poderia levar algum tempo para acostumar.

Continuei olhando.

— Mostra detalhes da Criação.

A janela mudou.


[Criação]

Permite materializar objetos compreendidos pelo usuário mediante consumo de energia.

Requisitos:

Conhecimento suficiente sobre o objeto.

Energia necessária para materialização.

Materiais adicionais podem reduzir o custo.


Franzi a testa.

— Materiais?

[Sim.]

Isso não estava na explicação anterior.

— Se eu tiver material, preciso de menos mana?

[Correto.]

Meu corpo se inclinou para frente.

— Quanto menos?

[Depende do objeto, matéria-prima disponível, complexidade e grau de compreensão.]

Interessante.

Muito interessante.

Talvez a habilidade não fosse inútil.

Só precisava descobrir como usar sem mana.

— Existe alguma energia que substitua mana?

[Existem múltiplas possibilidades.]

Meu coração acelerou.

— Quais?

[Informação insuficiente.]

— Você acabou de dizer que existem.

[Correto.]

— Então me fala.

[Não possuo dados suficientes para determinar quais estão disponíveis na região atual.]

Encostei na cadeira.

Ani não era uma enciclopédia.

Isso era importante.

Ela podia analisar informações que possuía, mas não sabia automaticamente tudo sobre o mundo.

Melhor assim.

Se ela soubesse absolutamente tudo, metade dos meus problemas acabaria antes de começar.

— Então precisamos encontrar uma fonte de energia.

[Conclusão adequada.]

Eu já conhecia algumas.

No jogo existiam cristais mágicos.

Núcleos de monstros.

Pedras espirituais.

Artefatos antigos.

Mas comprar qualquer uma dessas coisas custava dinheiro.

Dinheiro que talvez eu não tivesse.

— Mostra minhas finanças.

Nada apareceu.

— Ani?

[Não possuo acesso às finanças da Casa Veyron.]

— Claro que não.

Teria que perguntar para Edgar.

Levantei e caminhei até a janela.

A cidade se espalhava lá fora.

Era bonita.

Muito mais bonita do que as imagens do jogo conseguiam mostrar.

Carruagens atravessavam as ruas.

Pessoas caminhavam pelas calçadas.

Torres surgiam entre prédios de pedra clara.

Mais longe, acima de praticamente tudo, estava a Academia Imperial.

Eu reconheceria aquele lugar em qualquer lugar.

Passei centenas de horas olhando para aquele mapa.

E, de repente, uma lembrança surgiu.

Não da vida de Adrian.

Minha.

Do jogo.

Uma floresta.

Uma pequena ruína.

Uma estátua quebrada.

E alguma coisa enterrada embaixo dela.

Meu coração bateu mais rápido.

— Ani.

[Sim?]

— Você consegue analisar objetos mágicos?

[Se estiverem ao alcance dos meus sentidos ou forem fornecidas informações suficientes, sim.]

Sorri.

Era a primeira boa notícia desde que acordei.

Porque eu sabia onde encontrar um.

Na verdade, sabia onde encontrar vários.

O primeiro ficava relativamente perto da capital.

Era um tesouro tão insignificante para a história principal que a maioria dos jogadores nunca o encontrava.

Para mim, porém, poderia ser exatamente o que precisava.

Uma Pedra de Éter rachada.

No jogo, ela servia para alimentar um mecanismo antigo durante uma missão secundária.

Não era poderosa.

Não valia uma fortuna.

Não transformaria ninguém em guerreiro lendário.

Mas armazenava energia.

E energia era justamente o que eu não tinha.

Só havia um pequeno problema.

A área onde ela estava escondida pertencia a uma propriedade abandonada fora da capital.

E eu precisava sair da Academia para chegar lá.

Voltei para a cama.

— Primeiro cancelar o duelo.

[Decisão prudente.]

— Depois descobrir quanto dinheiro eu tenho.

[Decisão prudente.]

— Depois pegar aquela pedra.

[Decisão potencialmente perigosa.]

Olhei para o nada.

— Você precisava estragar a sequência?

[Estou cumprindo minha função.]

Suspirei.

Talvez eu tivesse acabado de encontrar alguém mais irritante que gerente de supermercado.

Alguns minutos depois, Edgar voltou trazendo uma bandeja.

Pão.

Queijo.

Frutas.

Ovos.

E uma pequena jarra.

Meu estômago imediatamente lembrou que o corpo estava vivo.

— Obrigado.

Edgar colocou tudo sobre a mesa.

Eu já estava puxando a cadeira quando percebi que ele não tinha ido embora.

— Alguma coisa?

— Jovem mestre…

A expressão dele estava estranha.

— Fala.

— Receio que exista outro problema.

Parei com um pedaço de pão na mão.

— Claro que existe.

Edgar respirou fundo.

— Chegou uma correspondência da Academia esta manhã.

Ele colocou um envelope sobre a mesa.

O selo dourado era familiar.

Academia Imperial de Matrimônio.

Abri.

Li.

Depois li novamente.

Não era sobre o duelo.

Era pior.

Minha avaliação anual de Rank seria realizada em três dias.

Olhei para o F nas minhas informações.

Depois para a carta.

— Edgar.

— Senhor?

— O que acontece se eu continuar Rank F?

O velho mordomo demorou um pouco para responder.

— A Casa Veyron perderá o direito de solicitar novos contratos matrimoniais de nível superior.

Isso eu já esperava.

Mas ele continuou.

— E, devido à situação atual do Viscondado, o Conselho poderá iniciar uma revisão da capacidade administrativa da Casa.

O pão parou no meio do caminho até minha boca.

— Traduz.

Edgar hesitou.

— Se o resultado for muito ruim… existe a possibilidade de o senhor perder parte das terras da família.

Baixei lentamente o pão.

Olhei novamente pela janela.

Três dias.

Eu tinha reencarnado fazia menos de uma hora.

Já tinha um duelo para cancelar.

Uma habilidade que não funcionava.

Onze pontos de reputação.

Um território aparentemente quebrado.

E agora corria o risco de perder terras.

Eu só queria uma esposa e uma vida tranquila.

Até aquele momento, não estava pedindo muito.

Começava a suspeitar que aquele mundo discordava.

Capitulo 3

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