Ubisoft encerra Champions Tactics: o fim de uma aposta em NFTs que nunca decolou

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A Ubisoft confirmou que vai desligar os servidores de Champions Tactics: Grimoria Chronicles no dia 30 de outubro de 2026. O anúncio saiu direto no Discord oficial do jogo, sem grande cerimônia, encerrando um projeto que a publisher francesa apresentava, até pouco tempo atrás, como prova de que blockchain e games podiam conviver bem. Não deu certo.

O jogo tinha pouco mais de dois anos de vida. Lançado em outubro de 2024, Champions Tactics era descrito pela própria Ubisoft como um “RPG competitivo por turnos em Web3” — uma forma elegante de dizer que cada personagem controlado pelo jogador era, na prática, um token não fungível registrado em blockchain. As batalhas colocavam equipes de três guerreiros, os “Champions”, uma contra a outra em combates táticos. Até aí, nada muito diferente de dezenas de outros jogos de estratégia por turnos.

A diferença estava no marketplace. Os personagens podiam ser comprados, vendidos e negociados usando moeda do próprio jogo ou criptomoeda — no caso, o token OAS da rede Oasys, a blockchain que a Ubisoft escolheu como parceira para o projeto. Existia ainda um sistema chamado Forge, que permitia criar novos Champions mediante pagamento. Alguns desses personagens chegaram a ser anunciados no mercado por valores que beiravam os 63 mil dólares — embora anunciar um preço desses não signifique, necessariamente, que alguém tenha pago por ele. Na prática, a maioria das transações reais ficava bem abaixo disso, geralmente na casa das poucas centenas de dólares.

Uma retirada que já vinha sendo desenhada

O fim completo do jogo não pegou ninguém de surpresa, porque a Ubisoft já vinha recuando dessa estratégia havia meses. Em maio de 2026, a empresa avisou à comunidade que pretendia “transicionar progressivamente” o jogo para fora da tecnologia blockchain, citando mudanças na infraestrutura que sustentava as funções Web3. Na prática, isso significou congelar as carteiras digitais dos jogadores, fechar o marketplace e a Forge, e transformar os antigos NFTs em itens digitais comuns, sem nenhuma ligação real com blockchain. Quem tinha vantagens de VIP continuou com elas, mas o que antes era vendido como algo único e verdadeiramente seu virou, de uma hora para outra, um item de jogo qualquer guardado dentro de um jogo qualquer.

Foi nesse mesmo movimento que surgiu Champions Tactics Reforged, uma versão gratuita disponibilizada na Steam em 19 de maio de 2026, sem nenhum vestígio de blockchain ou criptomoeda. A ideia era simples: talvez o problema nunca tivesse sido o jogo em si, mas a rejeição do público a qualquer coisa rotulada como NFT. Tirando essa camada, talvez os jogadores aparecessem.

Não apareceram. O pico de usuários simultâneos na Steam bateu em torno de 1,4 mil jogadores, um número modesto até para os padrões de jogos de nicho, e a versão Reforged acabou saindo de catálogo pouco tempo depois de estrear. Hoje ela nem consta mais como disponível na loja da Valve.

Por que o jogo não vingou

Vale separar dois problemas que a Ubisoft tentou resolver como se fossem um só. O primeiro era a rejeição ao conceito de NFT em si: parte considerável do público de videogame nunca escondeu o desconforto com a ideia de pagar por personagens digitais como se fossem ativos financeiros, principalmente depois da onda de golpes e esquemas de “pay-to-earn” que marcaram o auge das criptomoedas em jogos por volta de 2021. Retirar essa camada, como fez a versão Reforged, ajudava a resolver essa parte.

O segundo problema, porém, era o próprio jogo. Relatos de jogadores e da imprensa especializada apontam para instabilidade, travamentos e bugs recorrentes mesmo entre quem nunca se importou com a questão do blockchain. Ou seja: tirar o NFT do jogo não resolvia o motivo real pelo qual as pessoas desistiam dele em poucas horas de partida.

Há também um problema de tempo de mercado que ninguém na Ubisoft parece ter enfrentado de frente. O auge do interesse por NFTs em jogos aconteceu entre 2021 e 2022. Quando Champions Tactics chegou ao público, em outubro de 2024, esse assunto já tinha perdido praticamente todo o interesse do público geral e da própria imprensa de tecnologia, que já discutia outra onda, a da inteligência artificial. Lançar um jogo centrado em blockchain quase três anos depois do pico da moda soa, no mínimo, como uma aposta tardia demais para dar retorno.

Ubisoft encerra Champions Tactics
Ubisoft encerra Champions Tactics- Imagem: Eurogamer

O histórico da Ubisoft com blockchain

Champions Tactics não nasceu isolado. A Ubisoft vinha insistindo nessa tecnologia havia anos, mesmo diante de reações majoritariamente negativas do público gamer. Em janeiro de 2022, o vice-presidente do Strategic Innovations Lab da empresa chegou a dizer publicamente que os jogadores “não entendiam” o valor dos NFTs — frase que voltou a circular nos últimos dias como um lembrete irônico de como aquela visão andou distante da realidade do mercado.

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Antes de Champions Tactics, a Ubisoft já tinha tentado, e recuado, de outras experiências com recursos do tipo “pague para ganhar” ligados a itens colecionáveis digitais. Ainda assim, insistiu no conceito, chegando a lançar dois jogos com elementos de NFT somente em 2024.

E o interessante é que a companhia não está totalmente fora dessa aposta. No início de 2026, entrou no ar Might and Magic Fates, um jogo de cartas colecionáveis que também permite comprar e vender cartas usando criptomoeda ou dinheiro real. Não por acaso, parte da comunicação de encerramento de Champions Tactics já direciona os jogadores remanescentes para esse novo título, oferecendo recompensas para quem migrar. Resta saber se Might and Magic Fates vai correr o mesmo risco em alguns meses, ou se a empresa aprendeu algo com o fracasso anterior.

O que acontece com quem ainda joga

Para quem segue ativo em Champions Tactics, a Ubisoft já suspendeu todas as compras dentro do jogo em todas as plataformas, uma medida padrão para evitar que alguém gaste dinheiro em algo com prazo de validade tão curto. O jogo continua jogável normalmente até o desligamento definitivo dos servidores, marcado para 30 de outubro. A empresa prometeu enviar novos avisos e lembretes conforme a data se aproxima, mas não sinalizou nenhum plano de compensação financeira para quem investiu em personagens ou itens do marketplace ao longo desses dois anos.

Chama atenção, olhando o Discord oficial do jogo, a ausência de qualquer mobilização forte contra o encerramento. Diferente de outros casos de games fechados pela Ubisoft, que costumam gerar petições e campanhas de jogadores tentando reverter a decisão, aqui a reação parece ter sido de resignação — quando não de discussão sobre se o projeto era, desde o início, uma tentativa de vender promessa financeira disfarçada de jogo tático.

O saldo da experiência

Champions Tactics: Grimoria Chronicles fecha um ciclo que resume bem o momento das grandes publishers com blockchain: entrar tarde demais em uma tendência já desgastada, tropeçar em problemas técnicos que nada tinham a ver com criptomoeda, tentar salvar o produto removendo justamente o elemento que o diferenciava, e, mesmo assim, não conseguir reter público suficiente para justificar manter os servidores no ar.

Fica também a pergunta sobre o próximo passo da Ubisoft nesse território. Enquanto Might and Magic Fates seguir no ar com o mesmo modelo de negociação de cartas por criptomoeda, o histórico recente sugere que vale acompanhar de perto — porque, pelo visto, a companhia ainda não está pronta para abandonar de vez essa ideia, mesmo depois de ver na prática quanto ela custou.

Imagem do topo: Flow Games

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