Capítulo 1 — O Convite que Não Deveria Existir
O relógio do call center marcava 14h37, mas para João Almeida — conhecido entre os colegas apenas como Joca — parecia que o tempo se arrastava em câmera lenta.
De um lado, o barulho incessante de dezenas de vozes tentando vender cartões de crédito.
Do outro, a tela acinzentada com a lista de clientes que já haviam recusado dez, quinze vezes.
B2B Celestial: Negociando com Deuses é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
— “Boa tarde, senhor Carlos, aqui é da Central Financeira, estou ligando para oferecer um cartão sem anuidade, com limite especial…”
Do outro lado, silêncio seguido de um clique.
Mais uma ligação encerrada.
Joca suspirou.
Era a décima segunda recusa daquela tarde.
Dez anos no mesmo emprego. Sempre batendo na trave das metas, nunca chegando lá. O salário mal pagava o aluguel do quitinete. A comida da semana, muitas vezes, vinha do fiado na mercearia.
À noite, ele revezava entre ser corretor de imóveis de fachada e rodar de Uber com a motinha quase caindo aos pedaços.
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“Trinta anos na cara e ainda nesse ciclo miserável…”, pensou, esfregando o rosto cansado.
Foi nesse instante que o celular vibrou no bolso.
Não era permitido mexer durante o expediente, mas Joca precisava de uma desculpa para fugir da monotonia.
Abriu rápido, tentando disfarçar.
Notificação do WhatsApp:
“Você foi adicionado ao grupo: B2B Celestial VIP 🌌✨”
Joca franziu a testa.
— “Que diabo é isso? Deve ser golpe…”
O grupo estava cheio de números estranhos, nenhum com foto.
Mas as mensagens…
Pareciam uma reunião empresarial de outro mundo.
Mercúria:
“Taxa de câmbio ajustada. Ouro celestial a 3:1 com relíquias menores.”
Zeus Júnior:
“Aceito apostas em trovões compactos. Quem dá mais?”
Malandro Celestial:
“Rapaz… até raio tá na feira agora? Cuidado, que o desconto vem com taxa escondida, visse?”
Joca soltou uma risada nervosa.
— “Rapaz, até no WhatsApp inventam jeito de enrolar otário.”
Quando estava prestes a sair, a tela brilhou.
O ícone do grupo se expandiu até ocupar todo o visor.
Uma luz intensa iluminou a baia apertada do call center.
De repente…
O chão sob seus pés pareceu se abrir.
Uma energia sugou o ar ao redor.
Entre os fios de computadores e cadeiras quebradas, formou-se um círculo dourado flutuante.
Um portal.
Joca arregalou os olhos, levantando-se instintivamente.
— “Oxente… o que é isso?!”
Do outro lado do portal, via-se uma sala envidraçada, imensa.
Como um escritório de arranha-céu que não deveria existir.
Uma figura feminina de cabelos prateados e olhar dourado estava sentada atrás de uma mesa, folheando relatórios como se fosse CEO de uma multinacional.

Ela ergueu os olhos.
Encarou Joca.
E abriu um sorriso leve.
— “Humano, seja bem-vindo ao B2B Celestial VIP.”
Uma pausa.
— “Você foi selecionado para negócios com deuses.”
O coração de Joca disparou.
As vozes dos colegas de call center sumiram.
O mundo inteiro pareceu silenciar.
— “Queremos saber…”
Ela inclinou levemente a cabeça.
— “O que você tem a oferecer?”
Joca não conseguia se mover.
Não conseguia respirar direito.
Só havia um pensamento ecoando na sua mente:
“Ou enlouqueci de vez…”
“…ou essa é a chance que esperei a vida inteira.”
Capítulo 2 — A Primeira Negociação

A sala de vidro do outro lado do portal parecia saída de um filme futurista.
Cadeiras flutuavam.
Papéis se organizavam sozinhos.
E a cidade lá embaixo não era Salvador nem qualquer metrópole conhecida — era um emaranhado de torres douradas que se erguiam até tocar as nuvens.
A mulher de cabelos prateados fechou a pasta que segurava e encarou Joca.
Sua voz era firme, mas sem esforço, como quem já estava acostumada a ditar as regras.
— “Sou Mercúria, responsável pelo Comércio Celestial. Você foi adicionado ao grupo porque, de alguma forma, alguém aqui acredita que tem potencial. Mas saiba… negociar com deuses não é brincadeira.”
Joca engoliu em seco.
— “Minha senhora… eu… só vendo cartão. E mal vendo, viu? O povo nem confia na minha voz.”
Ela arqueou a sobrancelha.
— “Então use o que tem. Cada humano possui algo que não imagina. Memórias, tempo, experiências, até mesmo sonhos. Tudo pode ser moeda.”
Joca piscou, confuso.
— “Memória? Sonho? Rapaz, eu já não durmo direito, se for vender sonho vou à falência.”
Um riso ecoou pelo escritório.
Da parede ao fundo, um sofá florido surgiu do nada.
E nele estava sentado um sujeito bronzeado, camisa estampada aberta no peito, corrente dourada balançando.
— “Oxente, Mercúria, não assusta o cabra logo na estreia, não. Vai espantar o freguês!”
Joca arregalou os olhos.
— “E tu é quem, meu irmão? Parece malandro de novela.”
O sujeito piscou, abrindo um sorriso largo.
— “Me chame de Malandro Celestial. Sou o guia dos caminhos tortos e das oportunidades escondidas. Se o mundo é um tabuleiro, eu ensino o atalho. Entendeu, cabra?”
Mercúria suspirou, como se já estivesse acostumada.
— “Ele sempre aparece sem ser convidado. Mas admito que, em certos negócios, sua visão… criativa… pode ser útil.”
Joca coçou a cabeça, ainda tentando processar tudo.
— “E como é que funciona, então? Eu dou o quê… e recebo o quê?”
Mercúria ergueu um tablet holográfico.
— “Faça sua primeira proposta. Pense no que tem, humano. Algo de valor para você — ou para nós.”
Joca respirou fundo.
Olhou para os bolsos, para o corpo.
Não tinha nada além de moedas de troco, uma caneta emprestada e o crachá do call center.
Pensou em voz alta:
— “Tenho vale-refeição… umas horas extras acumuladas… e uma motinha com o escapamento preso no arame.”
O Malandro Celestial gargalhou tão alto que até as paredes tremeram.
— “Rapaz, oferecer hora extra pra deus? Essa foi boa. Mas, veja, às vezes é justamente a ideia besta que vira ouro.”
Mercúria, no entanto, não riu.
Apenas digitou algo em sua tela.
O portal ao redor brilhou mais forte.
— “Se deseja mesmo iniciar… ofereça algo simples. A sua próxima noite de sono. Em troca, darei um item de baixo risco, apenas para teste.”
Joca hesitou.
— “Minha noite de sono? Já quase não durmo mesmo…”
Malandro Celestial se inclinou, piscando o olho:
— “Aceita, cabra. O máximo que acontece é ficar virado. E vai que você acorda milionário sem ter dormido.”
O coração de Joca disparou.
Sem entender direito, apenas balançou a cabeça.
— “Tá feito.”
O tablet de Mercúria apitou, confirmando o contrato.
Um pequeno cofre dourado apareceu sobre a mesa…
E imediatamente atravessou o portal.
Caiu aos pés de Joca.
Ele o segurou, quase sem acreditar.
Pesado.
Brilhante.
Parecia mais real que qualquer coisa em sua vida.
Mercúria sorriu pela primeira vez.
— “Parabéns, humano. Agora é parte oficial do B2B Celestial VIP. Que sua primeira transação seja apenas o começo.”
O portal começou a se fechar.
Mas antes que desaparecesse, o Malandro Celestial apontou para Joca, ainda sorrindo.
— “Ei, cabra… lembra do que eu disse: atalho não é trapaça, é inteligência. Se souber vender até seu fiado na mercearia, você chega longe.”
E então—
Num piscar de olhos—
Joca estava de volta ao call center.
Com o cofre dourado nos braços.
A primeira negociação tinha começado.
Capítulo 3 — A Relíquia do Vendedor

De volta à baia apertada do call center, Joca encarava o pequeno cofre dourado como quem olha para um pedaço de ouro roubado.
O objeto não combinava em nada com o teclado engordurado e o cheiro de café requentado do escritório.
Ele cutucou a lateral do cofre, tentando achar alguma trava.
— “E se for só enfeite? Deus também pode dar golpe, né?”
Um clique suave ecoou.
A tampa se abriu sozinha.
Lá dentro…
Uma caneta.
Simples.
Preta.
Mas com um brilho metálico que parecia vivo.
Joca franziu o cenho.
— “Passei minha noite de sono inteira por… uma caneta?”
Assim que segurou o objeto, uma sensação estranha percorreu seu braço.
Era como se a caneta pulsasse.
Como se exigisse ser usada.
No visor do computador, surgiu o próximo nome da lista:
Carlos Henrique dos Santos.
Joca bufou.
— “Esse já recusou cartão dez vezes. Vai desligar na minha cara.”
Respirou fundo.
Ajustou o fone.
E começou o script pela milésima vez.
— “Boa tarde, senhor Carlos, aqui é da Central Financeira…”
Mas no momento em que pressionou a caneta contra a mesa—
Algo mudou.
As palavras saíram diferentes.
Mais firmes.
Mais afiadas.
Mais… convincentes.
Do outro lado da linha, uma pausa.
— “…hm. E qual é a vantagem desse cartão aí mesmo?”
Joca arregalou os olhos.
Seu Carlinhos nunca tinha passado da primeira frase!
Empolgado, apertou a caneta de novo.
— “É um cartão que não pesa no bolso, abre portas e ainda pode ser seu aliado no dia a dia. Imagine não precisar se preocupar com anuidade nunca mais, senhor Carlos. Só vantagem, nenhuma dor de cabeça.”
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
Então—
— “…Tá bom. Me cadastra aí.”
Joca quase deixou o headset cair.
— “Aceitou?! De primeira?!”
O sistema piscou.
Venda confirmada.
Dez anos naquela cadeira…
E ele nunca tinha sentido aquela vitória tão rápida.
Ele olhou para a caneta reluzindo em sua mão.
— “Rapaz… isso não é só caneta.”
Uma pausa.
— “Isso é chave de ouro.”
O coração batia acelerado.
A primeira relíquia tinha transformado uma ligação impossível em venda.
E pela primeira vez em muito tempo…
Joca sorriu.
Como quem enxergava um novo mundo se abrindo.
O expediente terminou tarde, como sempre.
Joca guardou a caneta com cuidado no bolso.
Como se fosse um diamante.
Na saída, o estômago roncou.
Ele seguiu direto para a mercearia da Dona Marlene — uma portinha apertada na esquina da rua.
— “Boa noite, Dona Marlene. Tô precisando pegar umas coisinhas no fiado, mas prometo que semana que vem eu pago.”
Ela o encarou de cima a baixo.
Olhos semicerrados.
— “Você já disse isso há três semanas, Joca. E até hoje, nada. Aqui não é banco, não. Vai pagar ou vai ficar devendo no ar?”
Joca suspirou.
A vontade era sumir.
Mas então—
Lembrou da caneta.
Apertou-a discretamente.
E aquela sensação voltou.
Confiança.
Presença.
Peso nas palavras.
— “Dona Marlene, olha… se a senhora me der só mais um voto de confiança, prometo que semana que vem eu trago não só o dinheiro atrasado, mas o dobro. A senhora vai olhar pra mim e dizer: ‘esse menino é homem de palavra’.”
As palavras saíram tão firmes…
Que até ele acreditou.
Dona Marlene piscou.
Confusa.
Como se estivesse indo contra a própria lógica.
Por fim, soltou um suspiro pesado.
— “Tá bom. Mas é a última vez, visse? Pega logo antes que eu me arrependa.”
Joca arregalou os olhos.
Saiu com sacolas cheias.
Sem pagar um centavo.
— “Oxente… essa caneta é o cheat code da vida real!”
No caminho de casa, ainda rindo sozinho—
Uma luz cortou o céu.
E caiu bem na sua frente.
O chão tremeu.
Um portal se abriu.
De dentro dele, saiu um jovem loiro, bronzeado, com sorriso de galã.
Roupas brilhavam como neon de boate.
Na mão…
Uma taça dourada.
— “E aí, humano. Finalmente te encontrei.”
Joca engoliu em seco.
— “E tu é quem, cabra?”
O rapaz jogou o cabelo pra trás, cheio de vaidade.
— “Sou Zeus Júnior. Apostador oficial do Olimpo, herdeiro do trovão e…”
Ele sorriu.
— “…futuro dono dessa caneta aí.”
A taça brilhou intensamente.
Como se fosse feita de ouro líquido.
— “Troco sua relíquia por esta taça de néctar divino. Um gole e você nunca mais vai sentir fome na vida.”
Uma pausa.
— “Fechado?”
Joca olhou para a taça.
Depois para a caneta no bolso.
O coração acelerou.
Pela primeira vez…
Alguém queria comprar algo que ele mal entendia.
E ele sabia.
Aquilo não era só uma troca.
Era o começo—
De um jogo perigoso.
