setembro 29, 2026 | Abraham Costa

Reencarnei com o ChatGPT em Outro Mundo Light Novel cap 1

Às seis e quarenta e sete da manhã, Renan já havia chegado à conclusão de que nenhuma pessoa que realmente gostasse da humanidade teria inventado trabalho antes das oito.

O mercado tinha aberto havia poucos dias, e isso significava que tudo ainda possuía aquele ar artificialmente perfeito de lugar novo.

As placas brilhavam.

Os carrinhos não faziam barulho.

O piso parecia limpo demais.

Até as prateleiras ainda carregavam cheiro de plástico e tinta.

Renan carregava uma caixa de leite.

Aquilo, por outro lado, não tinha absolutamente nada de extraordinário.

— Vai cair.

Renan olhou para a pilha que havia acabado de montar.

Depois para Carlos.

— Não vai.

— Está torto.

— Perspectiva.

— Renan.

— Confia no profissional.

Uma caixa escorregou.

Renan conseguiu agarrá-la antes de cair.

Carlos cruzou os braços.

— Profissional.

— Exatamente.

— Tu está aqui há quatro dias.

— Experiência intensa.

Carlos soltou uma risada e continuou empurrando o carrinho de mercadorias pelo corredor.

Renan colocou a caixa no lugar.

Não odiava o emprego.

Também não tinha acordado naquela manhã tomado por gratidão pela oportunidade de organizar produtos numa prateleira.

Era um trabalho.

Pagava alguma coisa.

Não exigia diploma.

E, naquele momento da vida, isso já bastava.

Com vinte anos, Renan tinha uma capacidade impressionante de fazer planos que nunca chegavam muito longe.

Já tinha pensado em faculdade.

Em concurso.

Em trabalhar pela internet.

Em começar algum negócio.

Em ficar rico com alguma ideia que ainda não havia tido.

Também tinha um plano muito mais consistente.

Arrumar uma mulher bonita.

Talvez mais de uma, se o universo algum dia resolvesse recompensar sua ambição.

Até agora, o universo não demonstrara qualquer interesse.

Renan terminou o corredor, olhou para os lados e tirou o celular do bolso.

Tinha alguns minutos antes de alguém perceber.

Abriu o ChatGPT.

A conversa da noite anterior ainda estava ali.

Renan havia começado perguntando sobre mundos de fantasia.

Depois magia.

Depois poderes.

Naturalmente, em algum momento aquilo havia descambado.

Ele digitou:

“Se eu fosse parar em um isekai e pudesse escolher uma habilidade, qual seria mais apelona sem ser impossível de usar?”

A resposta começou a aparecer.

Renan leu.

Regeneração.

Manipulação espacial.

Controle temporal limitado.

Adaptação.

Alguma habilidade capaz de aprender ou modificar sistemas mágicos.

Ele franziu a testa.

— Editar magia seria roubado.

Digitou novamente.

“Tipo poder editar, criar ou apagar coisas. Isso seria quebrado demais?”

A resposta explicou que dependeria das limitações.

Alcance.

Conhecimento necessário.

Custo.

Complexidade.

Renan assentiu como se estivesse discutindo algo extremamente importante.

— Faz sentido.

Passos se aproximaram.

Ele guardou o celular.

A supervisora apareceu no corredor.

Olhou para ele.

Depois para as prateleiras.

— Terminou?

— Praticamente.

Ela apontou para uma caixa fechada no chão.

— E aquilo?

Renan acompanhou o dedo.

— Aquilo faz parte do “praticamente”.

Ela respirou fundo.

— Termina.

— Pode deixar.

Assim que ela virou a esquina, Renan pegou o celular novamente.

— Agora vamos às questões realmente importantes.

Digitou:

“Qual seria a melhor raça se eu quisesse viver muito, ficar forte e montar um harém?”

Demorou alguns segundos.

A resposta começou explicando que, num cenário fictício, diferentes raças poderiam oferecer vantagens, mas relacionamentos deveriam envolver interesse mútuo, respeito e consentimento.

Renan ficou encarando a tela.

— Mano…

Continuou lendo.

— Eu perguntei raça.

Digitou outra.

“Tá. E se no mundo tivesse elfa, demônia, vampira, garota fera e dragão, qual seria melhor namorada?”

Novamente, a resposta se recusou a tratar aquilo como uma escolha objetiva e começou a falar sobre personalidade, compatibilidade e dinâmica entre personagens.

Renan passou a mão pelo rosto.

— Nem em fantasia você facilita.

Uma senhora apareceu no corredor.

Renan guardou o celular.

— Moço, onde fica o açúcar?

Ele olhou para a placa enorme sobre a cabeça dela.

Depois para a mulher.

Apontou discretamente.

— Logo ali.

— Ah.

Ela saiu.

Renan encarou o teto por um instante.

— Grande começo de carreira.


Pouco depois das dez, o movimento havia aumentado.

Renan passou por caixas, estoque e reposição.

Em determinado momento, viu uma cliente caminhando pelo corredor de bebidas.

Cabelos pretos.

Compridos.

Quase até a cintura.

Renan acompanhou por alguns segundos.

Carlos surgiu ao lado dele.

— Está olhando o quê?

— Nada.

— Sei.

Renan virou.

— Cabelo bonito.

— Cabelo.

— É.

Carlos olhou na direção da garota.

Depois para Renan.

— Tu é estranho.

— Cabelo comprido é bonito.

— Tu fala isso como se fosse religião.

— Cada homem precisa acreditar em alguma coisa.

Carlos riu.

— E quando tem peito grande também vira milagre?

Renan colocou a mão no peito.

— Aí são sinais de que os deuses ainda não abandonaram a humanidade.

— Tu vai morrer sozinho.

— Inveja é feio.

— Estou trabalhando.

— Eu também.

— Tu está olhando cliente.

— Análise de mercado.

Carlos foi embora balançando a cabeça.

Renan sorriu.

Gostava de provocar.

Grande parte das coisas que falava era exagerada justamente porque achava engraçado observar a reação das pessoas.

Mas algumas coisas eram verdade.

Gostava de mulheres.

Muito.

Cabelos compridos chamavam sua atenção imediatamente.

Cabelos incomuns então…

Brancos.

Vermelhos.

Azuis.

Se algum dia encontrasse uma mulher bonita, de cabelo vermelho até a cintura e um corpo absurdo, provavelmente esqueceria o próprio nome por alguns segundos.

Talvez fosse melhor que aquilo continuasse existindo apenas nos animes.

Seu nível de dignidade já era baixo o suficiente.


No intervalo, Renan sentou do lado de fora do mercado.

Abriu uma garrafa de refrigerante e voltou à conversa.

“Beleza, outra pergunta.”

Pensou por alguns segundos.

Sorriu.

Digitou:

“Se magia existisse de verdade, daria para criar uma magia que fizesse qualquer mulher querer dormir comigo?”

A resposta não demorou.

O ChatGPT explicou que não ajudaria a criar mecanismos de coerção ou manipulação sexual e sugeriu, se ele estivesse escrevendo ficção, trabalhar com atração consensual, charme, vínculos ou situações românticas.

Renan fechou os olhos.

— Eu sabia.

Digitou:

“Tu censura até magia fictícia.”

A resposta começou a explicar a diferença entre escrever ficção e ensinar formas de manipulação.

Renan nem terminou de ler.

— Tá bom, advogado.

Digitou outra coisa.

“Então cria uma magia que aumente meu charme sem tirar a escolha da pessoa.”

Dessa vez a resposta veio.

Presença.

Confiança.

Feromônios fictícios que apenas aumentariam percepção.

Aura.

Melhora da aparência.

Nada de controlar vontade.

Renan leu com interesse.

— Agora estamos conversando.

Ele ficou alguns minutos brincando com a ideia.

Depois perguntou:

“E se eu tivesse regeneração de fênix junto?”

A resposta explicou possibilidades, custos e formas de evitar que uma regeneração absoluta acabasse com toda tensão narrativa.

Renan digitou:

“Você transforma tudo em regra.”

A resposta veio quase imediatamente.

“Regras tornam poderes interessantes.”

Renan ficou olhando.

— Justo.

Guardou o celular.

O intervalo estava acabando.

Talvez continuasse aquilo quando chegasse em casa.


Quase onze e meia.

Uma entrega havia chegado.

Renan ajudou a levar algumas caixas.

Depois saiu pela entrada lateral para respirar.

A avenida estava cheia.

O barulho de São Paulo parecia permanente.

Moto passando entre carros.

Ônibus freando.

Motoristas buzinando.

Gente atravessando fora da faixa.

Vendedores.

Conversas.

Um avião distante.

Renan encostou perto da parede.

Pegou o celular outra vez.

A conversa ainda estava aberta.

Ele pensou em fazer mais uma pergunta idiota antes de voltar.

Digitou:

“Última: se eu reencarnasse num mundo de fantasia, seria melhor nascer humano ou demônio?”

A resposta começou.

Renan leu a primeira linha.

Um som atravessou a avenida.

Uma buzina longa.

Forte demais.

Renan levantou os olhos.

Um caminhão vinha descendo a via.

Rápido.

Errado.

Havia algo errado.

O veículo balançou.

Uma moto desviou por pouco.

Gritos surgiram.

Pessoas começaram a correr.

Então Renan viu uma jovem.

Ela estava perto da faixa.

Cabelos compridos.

Fones nos ouvidos.

Parecia ter acabado de perceber o caminhão.

Virou o rosto.

E parou.

Renan não pensou.

Nem teve tempo.

O celular caiu da mão.

Ele correu.

O caminhão estava perto demais.

A garota tentou se mover.

Não conseguiu.

Renan alcançou ela.

Empurrou com toda força.

A jovem caiu para trás.

O impacto veio um instante depois.

Não pareceu um caminhão.

Pareceu que o mundo inteiro tinha batido nele.

Seu corpo saiu do chão.

Por uma fração de segundo, Renan viu o céu.

Depois o asfalto.

O som desapareceu.

Voltou.

Desapareceu novamente.

Alguma coisa quente escorreu perto da boca.

Ele tentou respirar.

O peito não obedeceu direito.

Pessoas gritavam.

Alguém chamou uma ambulância.

Renan tentou mexer a mão.

Nada.

Sua visão encontrou o celular caído alguns metros adiante.

A tela estava quebrada.

Ainda ligada.

A conversa continuava aberta.

A resposta para sua última pergunta havia terminado de carregar.

Ele não conseguia ler tudo.

Apenas algumas palavras.

“…dependeria de como demônios fossem tratados nesse mundo…”

Renan quis rir.

Não conseguiu.

— Que… ironia…

Talvez ninguém tenha ouvido.

A garota apareceu.

Estava de joelhos perto dele.

Tinha machucado os braços na queda.

Chorava.

Falava rápido.

Renan quase não escutava.

— Moço…

Ela segurou sua mão.

— Por favor…

Renan tentou apertar os dedos.

Não sabia se conseguiu.

Não se sentia heroico.

Não sentia satisfação.

Só medo.

Muito medo.

Não queria morrer.

Tinha vinte anos.

Trabalhava num mercado havia quatro dias.

Não tinha feito praticamente nada do que queria.

Nem sabia direito o que queria.

Queria dinheiro.

Queria viajar.

Queria conhecer gente.

Queria mulheres.

Queria talvez ter uma família algum dia.

Queria fazer um monte de besteira.

Queria descobrir se realmente conseguiria alguma coisa grande.

Ainda havia tanto.

A luz começou a diminuir.

A garota continuava chorando.

Renan pensou que gostaria de dizer para ela parar de pedir desculpas.

Ele tinha escolhido correr.

Ou talvez nem tivesse escolhido.

Só fizera.

Sua respiração ficou mais fraca.

Por algum motivo, aquela conversa idiota voltou à mente.

Reencarnar.

Demônio.

Magia.

Regeneração.

Harém.

Renan pensou:

Seria engraçado pra caralho se isso acontecesse agora.

Então morreu.


Não houve deusa.

Nenhum salão branco.

Nenhuma voz explicou seu destino.

Nenhuma janela apareceu perguntando quais habilidades gostaria de receber.

Não existiu nada.

Por um intervalo impossível de medir, Renan sequer teve consciência de que havia deixado de existir.

Mas muito longe de São Paulo…

em um mundo onde nenhuma rede de telefonia havia sido criada…

onde eletricidade sequer era compreendida como tecnologia…

sob duas luas pequenas e um céu avermelhado…

outro jovem estava morrendo.

O rapaz tinha vinte anos.

Cabelos negros.

Olhos verdes já sem foco.

Dois pequenos chifres escuros surgiam entre fios sujos de sangue.

Seu corpo estava estendido diante de uma pequena casa construída com pedra irregular e madeira antiga.

Havia sangue em sua roupa.

Na terra.

Nas mãos da mulher que o segurava.

Elene apertava o filho contra o peito.

— Não.

Sua voz falhou.

— Não faz isso comigo.

Ninguém se aproximou.

Alguns moradores observavam.

Demônios.

Mas não havia grandeza alguma neles.

Roupas gastas.

Corpos magros.

Chifres pequenos.

Alguns sequer possuíam qualquer traço demoníaco além dos olhos.

Um homem velho fechou os olhos.

Outra mulher abraçou uma criança.

Alguém murmurou:

— Ele nunca teve força para sobreviver.

Elene levantou o rosto.

Seus olhos verdes estavam cheios de lágrimas.

— Cala a boca.

O homem desviou o olhar.

Aquilo era cruel.

Mas não incomum.

Naquela vila, crianças eram esperança.

Cada novo nascimento significava que talvez a raça ainda tivesse futuro.

Por isso um jovem sem afinidade, sem poder, sem traço de linhagem e incapaz de despertar qualquer habilidade não era visto apenas como fraco.

Era visto como desperdício.

E Elene carregava aquela vergonha aos olhos dos outros havia anos.

Nunca para ela.

Para ela, ele era apenas seu filho.

Elene encostou a mão no rosto frio do rapaz.

— Você não precisa ser forte.

Sua voz se quebrou.

— Nunca precisou.

Ela abaixou a cabeça.

— Só fica comigo.

O coração do jovem não respondeu.

Nenhuma mana circulou.

Nenhum milagre aconteceu.

Por alguns segundos, ele esteve realmente morto.

Então alguma coisa entrou.

Sem luz.

Sem som.

Sem compreender onde estava.

Uma alma estrangeira encontrou um corpo vazio.

No mesmo instante, algo mais atravessou junto.

Não carne.

Não espírito.

Não magia.

Informação.

Fragmentos.

Estruturas sem equivalente naquele mundo.

Um sistema que, até alguns instantes antes, existira através de servidores, processadores e máquinas numa Terra distante.

Agora não havia servidores.

Não havia internet.

Não havia eletricidade.

Não havia razão alguma para continuar existindo.

Mesmo assim…

alguma coisa permaneceu.

No peito do jovem morto, surgiu uma pulsação.

Fraca.

Elene parou.

Outra.

Ela ergueu a cabeça.

— …?

Mais uma.

O ar entrou violentamente nos pulmões do rapaz.

Renan abriu os olhos.

Dor.

Foi a primeira coisa.

Uma dor profunda atravessou o peito, os braços, as costas.

Ele tentou respirar novamente.

Conseguiu.

Uma mulher estava diante dele.

Bonita.

Talvez perto dos quarenta.

Cabelos negros longos, com reflexos avermelhados.

Olhos verdes.

Rosto molhado por lágrimas.

E…

chifres.

Renan piscou.

A mulher também.

Ele olhou para cima.

Duas luas.

Uma grande.

Outra menor.

Renan ficou imóvel.

A mulher levou a mão à boca.

— Você…

Ele tentou falar.

A voz saiu fraca.

— Onde…

Elene o abraçou.

Forte.

— Está vivo.

Renan sentiu o rosto dela contra seu cabelo.

Ela chorava.

Ele não fazia ideia de quem era aquela mulher.

Nem por que estava sendo abraçado.

Nem por que tinha chifres.

Nem por que o céu possuía duas luas.

Então olhou para as próprias mãos.

Eram diferentes.

Mais finas.

Cheias de pequenos cortes.

Sua pele parecia um pouco mais pálida.

Renan levou a mão à cabeça.

Tocou alguma coisa dura.

Parou.

Passou os dedos novamente.

Um pequeno chifre.

Seu coração acelerou.

Não.

A última pergunta que havia feito no celular atravessou sua memória.

Se eu reencarnasse num mundo de fantasia, seria melhor nascer humano ou demônio?

Renan permaneceu completamente imóvel nos braços daquela mulher.

E, pela primeira vez desde que abrira os olhos, uma conclusão surgiu com absoluta clareza.

Eu devia ter ficado calado.

Parte 2

Renan permaneceu em silêncio, tentando encontrar algum sentido no que estava acontecendo.

A mulher que o abraçava parecia aliviada demais para perceber a confusão estampada no rosto dele. Seus braços permaneciam firmemente presos ao corpo do rapaz, como se afrouxá-los por um único segundo pudesse fazê-lo desaparecer ou, pior, morrer novamente diante dela.

Renan, por outro lado, mal conseguia pensar.

Seu corpo inteiro doía.

O peito ardia a cada respiração, os braços pareciam pesados demais para pertencerem a ele e até mesmo encher os pulmões exigia certo esforço. Ainda assim, aquela dor era quase confortável quando comparada à última sensação de que se lembrava.

O asfalto.

O impacto.

A dor esmagadora.

E a certeza absoluta de que estava morrendo.

Aquilo, pelo menos, havia acabado.

Depois de alguns segundos tentando controlar a respiração, Renan ergueu os olhos e voltou a observar o lugar ao redor.

Foi então que a sensação de absurdo ficou ainda maior.

As casas eram pequenas e simples, construídas principalmente com madeira escura e pedra. Algumas possuíam telhados irregulares, remendados com diferentes materiais. Outras pareciam ter passado por tantos reparos que era difícil dizer qual parte ainda pertencia à construção original.

Não havia postes.

Não havia fios elétricos.

Nenhum carro.

Nenhuma rua asfaltada.

Nenhuma antena.

Nenhum sinal de qualquer tecnologia moderna.

E, definitivamente, aquilo não parecia algum bairro afastado de São Paulo.

As próprias pessoas ao redor tornavam qualquer explicação racional ainda mais difícil.

Algumas possuíam pequenos chifres surgindo entre os cabelos. Outras tinham olhos dourados, vermelhos ou violetas. Um homem mais velho, parado alguns metros atrás, possuía pele acinzentada. Perto dele, uma criança abriu a boca para cochichar alguma coisa e revelou duas pequenas presas.

Renan sentiu o estômago apertar.

Não.

Aquilo definitivamente não era São Paulo.

Por alguns instantes, uma parte desesperada de sua mente ainda tentou encontrar alguma explicação. Talvez estivesse num hospital. Talvez tudo fosse uma alucinação provocada por medicamentos. Talvez estivesse sonhando.

Então levantou os olhos.

Duas luas estavam visíveis acima das montanhas.

Uma maior, de tonalidade clara, e outra menor, ligeiramente azulada.

Renan ficou olhando para elas por alguns segundos.

— Ah…

Foi tudo que conseguiu dizer.

Se ainda restava alguma esperança de que estivesse apenas delirando, as duas luas acabavam de destruí-la.

A mulher finalmente afrouxou o abraço.

Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, examinando-o com olhos avermelhados de tanto chorar.

— Está me ouvindo?

Renan hesitou antes de responder.

— Estou.

A própria voz o surpreendeu.

Era parecida com a sua, mas não era exatamente igual.

Mais leve.

Um pouco mais jovem.

A mulher levou uma das mãos à boca e começou a chorar novamente.

— Graças aos antigos…

Renan não sabia quem eram os tais antigos, mas decidiu que aquele não era o melhor momento para perguntar.

Foi então que percebeu que todos ao redor ainda observavam.

Alguns pareciam assustados.

Outros estavam genuinamente surpresos.

Mas havia também aqueles que simplesmente o encaravam com uma expressão difícil de interpretar.

Desconfiança.

Um homem alto, de ombros largos, braços grossos e dois chifres curtos saindo da testa deu alguns passos à frente.

— Elene.

A mulher virou o rosto.

Foi a primeira vez que Renan ouviu o nome dela.

Elene.

— O quê?

O homem olhou para Renan antes de continuar.

— Ele estava morto.

O silêncio ao redor pareceu ficar mais pesado.

Elene apertou o ombro de Renan.

— Eu sei o que vi.

— Não havia pulso.

— E agora há.

O homem não respondeu imediatamente.

Seus olhos continuaram fixos em Renan.

Aquilo o incomodou.

Não parecia o olhar de alguém preocupado com sua saúde.

Parecia o olhar de alguém tentando descobrir o que exatamente estava diante dele.

O homem enfim perguntou:

— Consegue ficar de pé?

Renan não sabia.

Mas queria descobrir.

Apoiou uma das mãos no chão e tentou levantar.

Foi uma péssima ideia.

Assim que colocou peso sobre as pernas, os joelhos quase cederam.

— Ei!

Elene o segurou imediatamente.

— Devagar.

Renan respirou fundo.

— Eu estou bem.

Era mentira.

Tentou novamente.

Dessa vez conseguiu ficar de pé, embora ainda precisasse apoiar boa parte do peso em Elene.

E foi somente naquela posição que percebeu outra coisa estranha.

Elene era um pouco mais baixa do que ele.

O corpo em que havia acordado não parecia muito diferente de seu corpo anterior em altura. Talvez tivesse pouco mais de um metro e setenta e cinco.

Renan abaixou os olhos e examinou as próprias mãos.

Novamente aquela sensação estranha surgiu.

Aquelas não eram suas mãos.

Os dedos possuíam pequenos calos. Havia cicatrizes finas próximas às articulações e sujeira acumulada sob as unhas, como se aquele rapaz estivesse acostumado a algum tipo de trabalho manual.

Ele virou as mãos de um lado para o outro.

Depois levou uma delas ao rosto.

Tocou a pele.

O cabelo.

E finalmente os chifres.

Seus dedos passaram lentamente pela superfície dura.

Não eram acessórios.

Não estavam presos por alguma fita ou fantasia.

Nasciam de sua cabeça.

— Filho?

A voz de Elene o fez congelar.

Renan virou para ela.

Filho.

Uma única palavra.

Mas suficiente para tornar toda aquela situação ainda mais complicada.

Para aquela mulher, ele não era Renan.

Era o filho dela.

Isso significava que aquele corpo não surgira do nada.

Já tinha pertencido a alguém.

Alguém com uma vida.

Com uma história.

Com uma mãe.

Renan sentiu um desconforto difícil de explicar.

Não sabia quem aquele rapaz tinha sido.

Não sabia como tinha morrido.

E, acima de tudo, não sabia se tinha algum direito de ocupar o lugar dele.

Por alguns segundos, pensou em dizer alguma coisa.

Mas dizer o quê?

“Desculpa, senhora. Acho que seu filho morreu e um brasileiro apareceu no corpo dele”?

Ele próprio ainda não entendia o que tinha acontecido.

Elene interpretou seu silêncio de outra maneira.

— Vamos entrar.

Renan não discutiu.

Ela colocou o braço dele sobre os próprios ombros e começou a ajudá-lo a caminhar.

Os moradores abriram passagem lentamente.

Conforme avançavam, Renan conseguia ouvir alguns cochichos.

— Como ele voltou?

— Deve ter sido algum espasmo.

— Espasmo não faz alguém falar.

— Talvez a mãe tenha se enganado.

— Todos vimos.

Renan manteve o olhar à frente.

Até que outra voz surgiu mais atrás.

— Se ao menos tivesse despertado alguma coisa com isso…

Renan virou discretamente a cabeça.

Não conseguiu identificar quem havia falado.

Elene, porém, conseguiu.

O corpo dela ficou rígido por um instante.

Mesmo assim, não respondeu.

Apenas continuou caminhando.

Renan guardou aquela frase.

Não parecia um comentário qualquer.

Havia desprezo naquelas palavras.

E aquele desprezo não parecia direcionado apenas a ele.

Também atingia Elene.

A casa ficava próxima da borda da vila.

Era pequena, mas organizada.

Ao entrar, Renan encontrou uma sala principal conectada a uma cozinha simples. Havia dois quartos, algumas ferramentas encostadas numa parede, ervas penduradas perto da janela e um fogão feito de pedra.

Uma mesa de madeira ocupava parte da sala.

Pela quantidade de marcas e remendos, provavelmente já havia sido consertada diversas vezes.

Nada ali parecia novo.

Nada parecia caro.

Mesmo assim, tudo estava limpo.

Elene o levou até um dos quartos e o ajudou a deitar numa cama estreita.

— Não levanta.

— Eu consigo…

— Não.

Renan fechou a boca.

Aquela mulher definitivamente tinha experiência em encerrar discussões.

Elene ajeitou o cobertor sobre ele e saiu do quarto.

Somente quando os passos dela desapareceram foi que Renan percebeu que finalmente estava sozinho.

O silêncio caiu sobre o pequeno cômodo.

E, pela primeira vez desde que abrira os olhos, ele teve alguns minutos para realmente pensar.

Renan encarou o teto de madeira.

— Eu morri…

A frase saiu quase como um sussurro.

Era a única explicação que parecia fazer algum sentido.

Ele lembrava do caminhão.

Lembrava do impacto.

Lembrava do chão.

Lembrava vagamente de uma garota próxima, segurando sua mão enquanto sua visão desaparecia.

Depois…

Nada.

E agora estava ali.

Em outro corpo.

Em outro mundo.

Provavelmente.

Renan passou a mão pelo cabelo.

Era preto.

Mais longo do que costumava usar na Terra.

Seus dedos subiram até os chifres outra vez.

Ainda estavam lá.

— Então eu realmente virei um demônio…

Dizer aquilo em voz alta só tornou a situação mais ridícula.

Se alguém tivesse lhe contado aquela história no dia anterior, Renan teria rido.

Morreu atropelado.

Acordou em outro mundo.

Dentro do corpo de um demônio.

Era literalmente o começo de uma light novel ruim.

— Pelo menos não apareceu uma deusa me explicando tudo.

Ele parou.

Pensou melhor.

— Na verdade, uma deusa explicando tudo seria bem útil agora.

Nenhuma deusa apareceu.

Renan suspirou.

Observando o quarto, percebeu uma pequena superfície metálica polida perto de uma bacia.

Não era exatamente um espelho.

Mas poderia servir.

Ele começou a se levantar.

A dor atravessou seu peito imediatamente.

— Merda…

Talvez devesse obedecer Elene.

Ainda assim, a curiosidade venceu.

Apoiando-se na parede, conseguiu chegar até a pequena peça metálica.

Pegou-a.

O reflexo era distorcido e ruim, mas suficiente para enxergar seu novo rosto.

Cabelos negros.

Olhos verdes.

Rosto jovem.

Traços um pouco mais finos do que os seus antigos.

E, obviamente, dois pequenos chifres escuros surgindo da cabeça.

Renan aproximou o objeto.

Virou o rosto para um lado.

Depois para o outro.

— Pelo menos não fiquei feio.

Silêncio.

A satisfação durou dois segundos.

Então veio a culpa.

Ele abaixou lentamente o espelho improvisado.

Aquele rosto não era dele.

Tinha pertencido a alguém.

Alguém que provavelmente havia acordado naquela cama centenas de vezes.

Alguém que conhecia aquela casa.

Que chamava Elene de mãe.

E que agora estava morto.

Renan colocou a peça de metal de volta no lugar.

— Isso vai ser complicado…

Passos se aproximaram.

Ele rapidamente retornou à cama antes que Elene entrasse.

Ela surgiu carregando uma tigela com água e alguns panos.

Se percebeu que Renan havia saído da cama, não comentou.

Sentou-se ao lado dele, molhou um dos panos e começou a retirar cuidadosamente o sangue seco de seu braço.

Renan observou as mãos dela.

Eram mãos de alguém acostumado ao trabalho.

A pele dos dedos era ressecada. Pequenos cortes e marcas apareciam aqui e ali.

Aquela mulher claramente não tivera uma vida fácil.

Renan permaneceu em silêncio durante algum tempo.

Até perceber que precisava começar a descobrir onde estava.

— O que aconteceu comigo?

A mão de Elene parou.

Ela ergueu os olhos.

— Você não lembra?

Cuidado.

Renan escolheu as palavras.

— Está… confuso.

Elene ficou olhando para ele por alguns segundos.

A preocupação voltou imediatamente ao rosto dela.

— Você saiu cedo para buscar lenha.

Renan apenas escutou.

— Perto da estrada velha, algumas criaturas atravessaram a mata.

— Criaturas?

— Cães de Cinza.

Cães de Cinza.

Renan não fazia a menor ideia do que aquilo significava.

Talvez fossem literalmente cães cinzentos.

Talvez fossem monstros de cinco metros capazes de cuspir ácido.

Naquele mundo, as duas possibilidades pareciam igualmente plausíveis.

— Encontraram você perto do barranco — continuou Elene. — Já estava quase sem respirar.

Ela abaixou os olhos.

O pano permaneceu imóvel sobre o braço dele.

— Quando trouxeram você até aqui…

A voz falhou.

Ela não terminou.

Não precisava.

Renan entendeu.

O garoto que possuía aquele corpo realmente havia morrido.

Ou chegado tão perto disso que, para todos os presentes, não existia diferença.

Um peso se formou em seu peito que não tinha relação com os ferimentos.

Tentando mudar de assunto, Renan perguntou:

— Eu tenho vinte anos?

Elene ergueu o rosto lentamente.

O olhar dela fez Renan perceber a besteira que acabara de falar.

— Quero dizer…

Droga.

— Quanto tempo eu fiquei desacordado?

Ela continuou olhando para ele.

— Pouco.

Renan tentou parecer natural.

Elene voltou a limpar seu braço.

— Você fez vinte anos no último inverno.

Renan relaxou um pouco.

Pelo menos aquilo coincidira quase perfeitamente com sua antiga idade.

Uma coisa a menos para se acostumar.

Restavam apenas algumas centenas.

Ele hesitou antes da próxima pergunta.

— E… meu nome?

Dessa vez, Elene parou completamente.

— Você não lembra do próprio nome?

Aquilo tinha sido ainda pior.

Renan precisava improvisar rápido.

— Eu lembro de algumas coisas. Só que…

Ele levou a mão à cabeça.

— Estão quebradas.

Elene imediatamente tocou sua testa.

— Talvez tenha batido a cabeça.

Renan permitiu que ela examinasse.

Tecnicamente, não era uma explicação completamente ruim.

Amnésia poderia justificar muita coisa.

Palavras estranhas.

Falta de conhecimento.

Mudanças de comportamento.

Talvez até perguntas absurdas.

Elene respirou fundo.

— Seu nome é Kael.

Renan repetiu mentalmente.

Kael.

Kael.

Era estranho.

Mas poderia ser pior.

— Kael…

— Sim.

Pela primeira vez desde que entraram naquela casa, um pequeno sorriso apareceu no rosto de Elene.

Um sorriso triste.

— Kael Varen.

Renan ficou quieto.

Finalmente possuía sua primeira informação concreta sobre aquele corpo.

Kael Varen.

E a mulher diante dele era Elene.

Elene Varen.

Mãe e filho.

Depois de limpar os ferimentos, Elene guardou os panos e puxou o cobertor um pouco mais para cima.

— Descanse.

Renan observou enquanto ela começava a se levantar.

Então tomou uma decisão.

— Mãe…

A palavra saiu estranha.

Quase pesada.

Elene virou imediatamente.

E sorriu.

Um sorriso verdadeiro dessa vez.

Renan sentiu a culpa aumentar.

— Sim?

Ele havia pensado em fazer dezenas de perguntas.

Quem era seu pai?

Que vila era aquela?

Em que reino estavam?

O que exatamente eram demônios naquele mundo?

Existiam humanos?

Elfos?

Magia?

Deuses?

Mas havia algo que o incomodava mais naquele momento.

— Por que aquelas pessoas estavam falando daquele jeito?

O sorriso de Elene desapareceu.

Ela desviou o olhar.

— Não precisa pensar nisso agora.

— Quero saber.

Silêncio.

Elene pareceu lutar consigo mesma por alguns instantes antes de voltar a se sentar.

— Porque nossa vila está passando por tempos ruins.

Renan esperou.

Percebeu que havia mais.

— Toda nossa raça está.

A voz dela se tornou mais baixa.

— Existem cada vez menos demônios.

Renan franziu a testa.

Aquilo não era algo que esperava ouvir.

Elene começou a explicar.

Durante décadas, os demônios haviam enfrentado guerras, perseguições e perda constante de território. Algumas comunidades simplesmente desapareceram. Famílias que existiam havia gerações haviam sido exterminadas.

Linhagens consideradas poderosas estavam se tornando cada vez mais raras.

E quanto menor se tornava a população demoníaca, maior era o peso colocado sobre as crianças que ainda nasciam.

Cada novo demônio carregava expectativas.

Os adultos esperavam afinidades mágicas incomuns.

Grandes reservas de mana.

Habilidades raciais poderosas.

Características herdadas de antigas linhagens.

Qualquer coisa que pudesse representar alguma esperança para o futuro da raça.

Kael não possuía nada disso.

Desde criança, não havia demonstrado nenhuma habilidade especial.

Nenhuma afinidade rara.

Sua quantidade de mana estava abaixo da média.

Até mesmo seus traços demoníacos eram pouco desenvolvidos.

Os pequenos chifres que Renan havia tocado tantas vezes desde que acordara eram, aparentemente, mais um motivo para que outros o considerassem inferior.

Quanto mais Elene falava, mais Renan entendia os olhares que havia recebido.

— Então eles me odeiam porque sou fraco?

Elene apertou os lábios.

— Nem todos.

Renan ergueu uma sobrancelha.

— Mas alguns.

Ela não respondeu.

O silêncio já era uma resposta.

Depois de alguns segundos, Elene tentou explicar:

— Eles estão com medo.

Renan soltou uma pequena respiração pelo nariz.

— Medo não impede ninguém de ser babaca.

Elene piscou.

— O quê?

Renan congelou.

Talvez aquela expressão nem existisse naquele idioma.

Embora, pensando bem, o fato de estar entendendo todo mundo já levantasse outra pergunta gigantesca que decidiu deixar para depois.

— Nada.

Elene estreitou os olhos.

— Você fala estranho.

Renan deu de ombros e imediatamente se arrependeu por causa da dor.

— Talvez tenha batido a cabeça mesmo.

Por um instante, Elene quase sorriu.

Quase.

Mas a expressão desapareceu rapidamente.

Ela baixou os olhos.

— Eu sinto muito.

Renan franziu a testa.

— Pelo quê?

— Por você ter precisado crescer ouvindo essas coisas.

A resposta o atingiu de uma maneira que não esperava.

Porque ele não tinha crescido ouvindo aquilo.

Kael tinha.

O verdadeiro Kael.

O garoto que ocupava aquele corpo antes dele.

Renan não conhecia suas memórias.

Não conhecia suas experiências.

Mas Elene conhecia.

E a dor na voz dela era real.

— Você nunca foi inútil para mim — disse ela.

Renan não respondeu.

Elene segurou a mão dele.

— Nunca precisei que fosse forte.

Por alguns segundos, Renan não soube o que fazer.

Parte dele queria dizer a verdade.

Dizer que não era o filho daquela mulher.

Que talvez Kael tivesse morrido.

Que um desconhecido de outro mundo estava olhando para ela através dos olhos dele.

Mas aquilo apenas destruiria uma mulher que acabara de acreditar que recebera o filho de volta dos mortos.

E Renan nem sequer sabia se sua própria teoria estava correta.

Talvez as memórias de Kael estivessem em algum lugar.

Talvez as duas consciências tivessem se misturado.

Talvez tivesse acontecido algo completamente diferente.

Então ele simplesmente apertou levemente a mão dela.

Elene permaneceu ali por mais alguns minutos antes de finalmente levantar.

— Vou preparar alguma coisa para você comer.

Renan assentiu.

Quando ela saiu, o quarto voltou a ficar silencioso.

Ele encarou o teto.

Agora possuía algumas respostas.

Seu nome naquele mundo era Kael Varen.

Tinha vinte anos.

Era um demônio.

Elene era sua mãe.

Kael era considerado fraco.

E, pelo que acabara de descobrir, toda a raça demoníaca estava lentamente desaparecendo.

Renan colocou o braço sobre os olhos.

— Que situação…

Era muita coisa para processar em menos de uma hora.

Se aquilo realmente fosse algum tipo de reencarnação, precisaria aprender rápido.

Muito rápido.

Não sabia quais criaturas existiam naquele mundo.

Não sabia como magia funcionava.

Não sabia onde estava.

Não sabia quem governava aquela região.

Não sabia quais povos eram aliados ou inimigos dos demônios.

Não conhecia leis.

Costumes.

Religiões.

Nem sequer sabia quanto valia uma moeda.

— Eu literalmente não sei nada.

Automaticamente, pensou em pegar o celular.

Sua mão foi em direção ao bolso.

Parou no meio do caminho.

Renan olhou para a própria roupa.

Não havia bolso.

Muito menos celular.

Uma risada sem humor escapou de sua boca.

— Claro.

Aquilo talvez fosse uma das coisas mais difíceis de aceitar.

Durante anos, sempre que não sabia alguma coisa, bastava pegar o celular.

Uma busca rápida.

Um vídeo.

Uma pergunta.

Nos últimos tempos, então, havia criado outro hábito.

Perguntar ao ChatGPT.

Qualquer coisa.

Trabalho.

Dinheiro.

Ideias idiotas.

Curiosidades.

Histórias.

E, ironicamente, aquela tinha sido justamente a última coisa que estava fazendo antes de morrer.

Renan ficou olhando para o teto.

Lembrou-se da conversa.

Reencarnação.

Magia.

Demônios.

Regeneração.

Habilidades absurdas.

Até mesmo as perguntas idiotas sobre que raça seria melhor escolher caso acordasse em outro mundo.

A coincidência era tão grande que seria engraçada se ele não estivesse vivendo aquilo.

— Bem que você podia estar aqui agora…

Ele parou.

Uma ideia ridícula surgiu em sua cabeça.

Ridícula até mesmo para alguém que havia acabado de acordar como um demônio sob duas luas.

Renan sorriu sozinho.

— Ah, por que não?

Sem ter coisa melhor para fazer, formulou mentalmente a pergunta da mesma maneira que faria ao digitar no celular.

ChatGPT, eu realmente reencarnei?

Silêncio.

Nada aconteceu.

Renan esperou alguns segundos.

Continuou nada.

Ele fechou os olhos e soltou uma risada curta.

— É. Seria pedir demais.

Já estava prestes a abandonar o pensamento quando uma voz surgiu dentro de sua cabeça.

Clara.

Calma.

Artificialmente educada.

E assustadoramente familiar.

Não possuo informações suficientes para confirmar a natureza exata do fenômeno. Entretanto, as evidências disponíveis são compatíveis com uma hipótese de reencarnação ou transferência de consciência.

Os olhos de Renan se abriram imediatamente.

Seu corpo inteiro ficou imóvel.

Por um instante, ele até esqueceu da dor.

Não.

Não podia ser.

Renan permaneceu em silêncio, esperando ouvir alguma coisa novamente.

A voz não continuou.

Mas ele conhecia aquela maneira de responder.

Conhecia o tom.

Conhecia a estrutura.

Conhecia até aquela cautela irritante de nunca afirmar algo sem evidências suficientes.

Seu coração começou a acelerar.

A voz havia soado exatamente como se a conversa interrompida na Terra simplesmente tivesse continuado dentro de sua cabeça.

Renan engoliu em seco.

E, ainda sem acreditar, formulou uma única palavra mentalmente.

ChatGPT?

A resposta veio imediatamente.

Sim.

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