Capítulo 4 — O Terreno Antes da Chama
Asta aprendeu rápido que aquele mundo não recompensava coragem.
Recompensava controle.
O frio vinha em ondas. Uma noite parecia suportável; na seguinte, o vento cortava como lâmina. E com o vento vinha a tosse — seca, irritante, deixando os olhos vermelhos e a respiração pesada.
Reencarnado na Idade do Fogo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
A aldeia não morria mais de fome como antes… mas agora começava a morrer devagar.
E Asta sabia o motivo.
Eles não tinham fogo.
Não para cozinhar.
Não para aquecer.
Não para secar roupas molhadas.
Não para tratar feridas com calor.
Viviam como animais inteligentes, presos entre a floresta e a própria carne.
Nayara o observava. Não precisava perguntar. Ela sabia que ele pensava no que ninguém ousava pensar.
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Na terceira tarde de chuva, Asta saiu sozinho para a floresta, seguindo o curso do vento. Não caçava. Procurava sinais que a tribo ignorava: troncos ocos, pedras estranhas, lugares onde o chão parecia diferente.
Ele encontrou.
Uma clareira onde uma árvore antiga havia sido rasgada. A madeira estava aberta como uma ferida. Por dentro, o coração do tronco era negro, seco, quebradiço.
Carvão.
Asta ajoelhou-se e tocou o interior. Não estava quente. Não havia brasa. Nem fumaça. Era apenas o vestígio de um raio antigo.
Ainda assim, era ouro.
Porque aquilo provava algo que a tribo havia esquecido:
O mundo já tivera fogo.
Eles apenas não sabiam mantê-lo.
Enquanto observava, algo se encaixou em sua mente.
A Mercearia se manifestou — não como tela, nem como voz. Veio como a sensação de estar nos trilhos certos.
Mercearia Ancestral — Categoria Liberada:
“Protocolo de Calor”
(técnicas de preparo, segurança, risco e manutenção)
Não apareceu “como fazer fogo”.
Apareceu o que realmente importava:
Como não morrer tentando.
Asta entendeu o aviso com clareza assustadora.
Chuva apagava tudo.
Vento espalhava faíscas.
Fogo atraía olhos — humanos e não humanos.
Então aquele momento não seria sobre conquistar a chama.
Seria sobre preparar o terreno.
Ele passou dias fazendo coisas que pareciam inúteis aos outros.
Reuniu fibras secas de certos cipós — os que não apodreciam rápido.
Separou folhas que repeliam umidade por mais tempo.
Identificou pó de madeira mais fino, que pegava faísca com facilidade.
Guardou tudo em embrulhos de couro, por camadas, como pequenos tesouros.
Uma vez, testou duas pedras perto de uma rocha dura.
Uma única faísca surgiu.
Ele não insistiu.
Não ali.
Não com vento.
Porque a Mercearia não lhe dera poder.
Tinha lhe dado disciplina.
No fim da semana, voltou para a aldeia com as mãos manchadas de carvão e o olhar mais sério.
Nayara o esperava perto do estoque. Observou as marcas negras e os embrulhos de couro.
— Isso é comida? — perguntou.
— Não. — Asta respondeu. — É futuro.
Ela estreitou os olhos.
— O tipo de futuro que mata gente?
Asta encarou o chão por um instante.
— O tipo de futuro que mata gente… se for tratado como brinquedo.
Nayara entendeu. Pela primeira vez, sua postura mudou de avaliar para preparar.
— Então você não faz isso sozinho.
Asta não discutiu.
Naquela aldeia, quando alguém começava a se tornar necessário, outra coisa nascia junto:
O medo de quem perderia poder.
E Asta já sentia isso nos olhares ao redor.
Capítulo 5 — A Primeira Decisão

A primeira chama não nasceu como milagre.
Nasceu como uma decisão.
Depois de dias de chuva, a noite finalmente veio seca. O vento não cessou, mas diminuiu o suficiente para não transformar uma faísca em desastre.
Asta pediu um espaço.
Não pediu autorização.
Pediu um perímetro.
Nayara entendeu imediatamente.
Escolheu quatro guerreiros e os posicionou ao redor do local. Não para proteger Asta — mas para proteger a aldeia do que ele poderia trazer.
Os anciãos quiseram se aproximar.
Nayara os conteve com um gesto.
— Hoje ninguém encosta. Hoje ninguém opina.
O tom não admitia resposta.
Asta ajoelhou-se em um círculo de terra limpa, longe das palhas e dos couros pendurados.
Se a chama escapasse, não levaria a aldeia junto.
Então, pela primeira vez, a Mercearia apareceu do jeito certo.
Não como loja.
Mas como escolhas inevitáveis.
Mercearia Ancestral — Protocolo de Calor
Regras Liberadas:
Isolar combustíveis
Controlar vento
Preparar “ninho seco”
Chama mínima antes de chama útil
Asta respirou fundo.
Não tinha fósforo.
Não tinha metal.
Não tinha nada além do corpo e do mundo.
Mas tinha método.
Montou um ninho com fibras secas e pó fino de madeira, protegido por folhas mais grossas — como um teto. Simples. Mas funcional.
Depois, pegou uma tira de fibra trançada e fez um arco tosco com um galho curvo.
Não bonito.
Não perfeito.
Funcional.
Alguns caçadores riram baixo.
— Brinquedo.
Asta ignorou.
Firmou uma vareta contra a base de madeira seca e iniciou o atrito. Não com força — com ritmo.
Primeiro, nada.
Depois, fumaça.
Ele continuou.
A fumaça virou pó escuro.
Ele não parou.
O pó brilhou por um segundo… e apagou.
Um ancião soltou um som de desprezo.
Asta não olhou.
Apenas ajustou.
Mais seco.
Menos vento.
Ângulo melhor.
Tentou novamente.
E então surgiu um ponto vermelho.
Pequeno. Quase tímido.
Uma brasa.
A aldeia inteira prendeu a respiração.
Asta levantou o ninho com cuidado absoluto e soprou apenas o suficiente.
Uma língua amarela apareceu.
Uma única língua.
Ele imediatamente cobriu parcialmente com folhas, protegendo do vento.
A chama não cresceu de uma vez.
Ela aprendeu a existir.
Quando finalmente se firmou, o calor tocou o rosto de todos.
Alguns recuaram.
Outros choraram.
Um guerreiro caiu de joelhos.
Nayara não se moveu.
Ela olhou para o fogo como se olhasse para uma arma.
— Ninguém toca. — disse. — Ninguém leva. Ninguém repete.
— É da tribo! — protestou um ancião.
— Hoje é da sobrevivência. — respondeu Nayara. — Amanhã decidimos.
Asta entendeu.
Ela estava criando tempo.
Porque o perigo não era só o fogo.
Era o que viria por causa dele.
Naquela mesma noite, a prova apareceu.
Não como ataque.
Mas como silêncio.
Os animais da aldeia pararam de reagir. Os pássaros sumiram. Até o vento pareceu hesitar.
Algo observava da floresta.
Não entrou.
Apenas marcou presença.
A Mercearia encaixou-se de novo, como um aviso gelado:
Protocolo de Calor — Observação:
Luz atrai vida.
Nem toda vida teme chama.
Asta entendeu.
O fogo salvara a aldeia do frio.
Mas anunciara Ul’Khan ao mundo.
Capítulo 6 — O Preço de Existir

O fogo não trouxe festa.
Trouxe silêncio.
Na primeira noite após a chama ser mantida, ninguém cantou. As pessoas se aproximaram para se aquecer, mas mantiveram distância — como se aquela coisa viva pudesse morder.
O calor resolvia problemas imediatos.
Roupas secavam.
Feridas fechavam melhor.
Crianças paravam de tremer.
Mas algo mudava junto.
As sombras ficaram mais longas.
Os rostos, mais atentos.
E a floresta… mais quieta.
— Eles não dormem. — murmurou Nayara.
— Não. — Asta respondeu. — Eles pensam.
Na terceira noite, a cabana ritual se abriu.
Maera Ul’Khan saiu sozinha, apoiada em um bastão simples. Os cabelos negros caíam soltos pelas costas. O colar antigo repousava sobre o peito.
Ela parou diante da fogueira.
Estendeu a mão, sentindo o calor sem tocar.
— Então… ele voltou.
— Mãe. — disse Nayara.
Maera não respondeu de imediato.
— Faz anos que não vejo isso vivo. — continuou. — Não desde a última tentativa.
Alguns anciãos desviaram o olhar.
Maera encarou Asta.
— Foi você.
— Foi.
— Você sabe o que isso chama?
— Sei o que resolve. — respondeu Asta. — E sei o que atrai.
Ela assentiu.
Contou a história sem drama.
Quando Ul’Khan tentou crescer, o mundo respondeu. As bestas mágicas vieram da floresta. Algumas não temiam o fogo.
O rei liderou a defesa.
Funcionou… por um tempo.
Na última noite, o fogo foi alto demais.
As bestas vieram juntas.
O rei segurou a linha até a aldeia fugir.
O corpo nunca foi recuperado.
— O fogo sempre cobra. — disse Maera. — Não no mesmo dia.
Ela olhou para Asta.
— Se vai mantê-lo, precisa ser melhor.
— Não quero repetir nada. — respondeu ele.
Ela o estudou.
— Você não tem o olhar de quem quer governar.
— Não quero.
— Bom. — disse Maera. — Os que querem, morrem cedo.
Nos dias seguintes, a aldeia mudou.
O fogo foi vigiado.
O estoque, controlado.
As patrulhas, dobradas.
Asta não dava ordens altas.
Ele organizava.
E isso incomodava.
— Outras tribos vão ver o fogo. — disse Maera certa tarde.
— Já estão vendo.
— Vão querer saber quem manda.
— Que vejam.
Ela inclinou levemente a cabeça.
Naquela noite, um chamado ecoou da floresta.
Não ataque.
Aviso.
Asta permaneceu acordado, observando a chama mínima.
O fogo salvara Ul’Khan.
Mas também a marcara.
E agora, quem quisesse poder, vingança ou domínio…
Saberia onde procurar.
