🌙 Bloco 5 — A Vila em Silêncio ( light novel)
O vento da manhã soprava fraco, arrastando poeira antiga e folhas secas pelas ruas vazias da vila. Não havia vozes, nem passos, apenas o som irregular do ar passando entre casas abandonadas.
Caio estava de joelhos na terra, suado, com as mãos cobertas de lama. A túnica clara que um dia fora limpa agora estava rasgada em vários pontos, manchada de terra e desgaste. Um pano improvisado estava amarrado à cabeça, tentando conter o cabelo verde que insistia em cair sobre seus olhos.
O guardião das Bruxas é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Ele enterrava sementes improvisadas no solo duro, uma por uma, como se cada gesto fosse um pequeno ato de teimosia contra o destino. Ou talvez esperança.
— Se isso brotar… — murmurou, ofegante — eu juro que faço uma festa. Sopa de raiz e pão de barro pra todo mundo. Mesmo que “todo mundo” seja só eu.
Lia o observava à distância, sentada sobre uma pedra próxima. Impecável, como sempre. Seu vestido preto contrastava com o avental branco sem uma única mancha, e as botas claras refletiam a luz do sol, intocadas pela poeira que dominava o vilarejo.
— Correção — disse ela, com a voz calma e precisa. — Taxa estimada de germinação das sementes: doze por cento. Mestre está apenas enterrando fracassos futuros.
Caio ergueu o rosto lentamente, encarando-a com descrença.
— Eu não sei o que me irrita mais — respondeu — você prever minha morte todos os dias… ou o fato de quase sempre estar certa.
Enquanto ele resmungava, Lia se levantou. Por um breve instante, o código de barras em seu pescoço brilhou em azul, e linhas luminosas percorreram seus braços como circuitos vivos antes de desaparecerem. Ela ajoelhou-se ao lado da horta improvisada e apoiou as mãos sobre a terra.
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Pequenas partículas azuladas se espalharam pelo solo, flutuando como poeira luminosa enquanto analisavam cada centímetro.
— Análise concluída — anunciou. — O solo necessita de rotação e adição de minerais básicos. Sugestão: coletar cinzas da praça queimada para enriquecimento nutricional.
Caio arregalou os olhos.
— Você… sabe de agricultura?
— Sou uma unidade de assistência — respondeu Lia, sem hesitar. — Conhecimento enciclopédico incluído. O Mestre, no entanto, permanece sendo apenas um humano suado com estatística de fracasso acima da média.
Por alguns segundos, Caio ficou em silêncio. Então caiu na gargalhada.
— Você é cruel, sabia?
Seguindo a orientação dela, caminhou até a antiga praça central da vila. O local parecia ainda mais morto do que o restante. Cinzas cobriam o chão, espalhadas como se algo tivesse sido queimado ali até desaparecer por completo.
No centro, uma pedra negra se erguia, marcada por símbolos circulares profundamente gravados. Não parecia um simples monumento. Havia algo errado ali.
Caio parou diante dela e engoliu em seco.
— Isso… não era só uma vila comum, né?
Lia observava à distância, os olhos azuis pulsando em silêncio enquanto analisava a estrutura.
— Constatação confirmada — disse por fim. — Evidências de ritual detectadas. Finalidade desconhecida. Recomendação: Mestre não encostar.
Caio estendeu a mão por reflexo, mas parou no meio do movimento. Riu, nervoso, recuando.
— Tá bom, tá bom. Eu já aprendi. Quando você diz “não encosta”, é melhor obedecer.
Ele recolheu apenas as cinzas espalhadas ao redor, evitando a pedra.
— Pronto. Cinza nutritiva, sem pacto demoníaco incluso.
De volta à casinha, espalhou o material sobre o solo da horta. Lia observava de braços cruzados, como uma supervisora exigente avaliando cada detalhe.
Quando terminou, Caio se deixou cair no chão, completamente exausto.
— Eu devia ter virado dublê — resmungou. — Não fazendeiro amaldiçoado. Você tem ideia de quantos pulos mortais eu dava sem reclamar?
Lia inclinou levemente a cabeça.
— Registro: Mestre demonstra nostalgia de seu ofício anterior. Pergunta: o que é um “pulo mortal”?
Caio abriu a boca para responder, mas fechou logo em seguida.
— … Melhor não te ensinar. Se não, você vai tentar pular do telhado calculando ângulos de morte.
Lia piscou, curiosa, mas não insistiu.
Naquela noite, os dois ficaram sentados em silêncio diante da fogueira. O vilarejo morto os cercava por todos os lados, mas, ao lado da casinha, havia agora um pequeno canteiro organizado. Frágil. Imperfeito. Mas vivo.
Caio olhou para Lia, que permanecia impecável, iluminada pelo reflexo das chamas.
— Sabe… se você não fosse uma lata com código de barras — disse, em tom leve — eu diria que é uma ótima parceira.
Ela respondeu sem hesitar:
— Registro: Mestre considera unidade uma parceira. Estatística de sucesso do vilarejo elevada para vinte e nove por cento.
Caio gargalhou alto.
— Vinte e nove por cento?! Então você tá dizendo que ainda vou morrer?
— Com certeza.
E assim ficaram, sob o silêncio da noite, entre cinzas antigas e novas esperanças — sem saber que o destino já preparava visitantes inesperados para aquele vilarejo amaldiçoado.
🌙 Bloco 6 — A Noite e o Fogo Azul ( light novel)

O dia havia sido longo.
Caio passou horas reforçando a casinha com tábuas soltas e pedras recolhidas das ruínas próximas, enquanto Lia observava tudo como uma inspetora incansável, corrigindo posições e apontando riscos estruturais.
A pequena horta dava sinais tímidos de vida, mas ainda não havia nada que pudesse realmente matar a fome.
Quando o sol se pôs, o vilarejo mergulhou em um silêncio absoluto.
Não havia grilos. Não havia vento. Nada.
O vazio sonoro incomodava mais do que qualquer ruído.
Caio estava sentado diante da fogueira, mordendo uma raiz dura demais para seu gosto.
— Sabe, Lia… — disse, pensativo — quando eu imaginava uma vida tranquila numa fazenda, não incluía passar fome e conversar com uma robô que me chama de incompetente todo dia.
Lia, impecável em sua roupa de maid, piscou os olhos azuis.
— Correção: não todos os dias. Apenas nos dias em que o Mestre respira.
Caio engasgou com a raiz e caiu na gargalhada.
— Você é impossível.
Foi então que um brilho estranho chamou sua atenção.
Na praça central, distante, os símbolos gravados na pedra começaram a arder em chamas azuis — sem fogo, sem calor visível. As linhas pulsavam, como se estivessem vivas.
Caio se levantou de um salto.
— Lia… você tá vendo isso?!
Ela também encarava a cena, os olhos refletindo a chama mística. Por um instante, o código de barras em seu pescoço brilhou intensamente, e sua voz mudou de tom. Fria. Mecânica demais.
— Alerta. Energia residual detectada. Categoria: abissal. Recomenda-se evacuação imediata.
Caio engoliu seco.
— Abissal? Evacuar pra onde?! O mundo inteiro é floresta e mato!
Ignorando o pânico dele, Lia começou a caminhar em direção à praça. Seus olhos brilhavam com intensidade crescente, como se processassem milhares de cálculos ao mesmo tempo.
Caio correu atrás.
— Ei! Onde você pensa que vai?! Eu sou o Mestre aqui, lembra?!
Ela parou diante da pedra envolta em fogo azul. Estendeu a mão lentamente, o vestido balançando com o vento inexistente, o código de barras brilhando com força.
Caio segurou seu braço.
— Tá maluca?! Isso aí pode te fritar por dentro!
Lia virou o rosto para ele. Pela primeira vez, sua expressão parecia… humana.
— Curiosidade — disse, em voz baixa. — Quero entender. Quero… sentir o que há aqui.
Caio congelou.
Por um breve momento, não era apenas uma máquina falando. Era alguém tentando compreender o mundo.
Mas antes que ela tocasse a pedra, o fogo azul se apagou sozinho. Restaram apenas marcas negras e um fio de fumaça que se dissipou no ar.
Lia recuou, sua postura voltando ao normal.
— Análise encerrada. Recomendação: evitar praça central durante o período noturno. Estatística de perigo: noventa e um por cento.
Caio ainda segurava seu braço quando riu, nervoso.
— Você quase virou churrasco arcano… e tá aí falando em estatística?
Ela ajeitou o avental, séria.
— Mestre, morrer é fácil. Viver exige planejamento. E você não tem nenhum.
Caio riu, mas sentiu um peso estranho no peito.
Aquela vila não era apenas ruínas esquecidas. Algo a mantinha presa no tempo.
E agora ele sabia.
A chama azul voltaria.
E da próxima vez… talvez não fosse apenas um aviso.
