Capítulo 1 — O Que Fica Enterrado
Elias Sampaio aprendeu cedo que algumas coisas simplesmente não chamavam atenção.
A argila era uma delas.
Ela sustentava construções, estradas, cidades inteiras — mas ninguém falava sobre argila. Não virava notícia. Não rendia status. Quem trabalhava com ela existia apenas enquanto fosse útil. Depois, era substituído sem cerimônia.
Indescartável: O Portador das Demon Spirits é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
A mina ficava afastada da cidade, cercada por mata fechada. O som constante das máquinas se misturava ao canto distante de insetos e pássaros, criando um ruído contínuo que, depois de um tempo, deixava de ser percebido. Era ali que Elias passava a maior parte dos dias, coberto de poeira vermelha, repetindo movimentos até o corpo agir sozinho.
Ele não reclamava.
Não porque gostasse — mas porque reclamar não mudava nada.
Enquanto os outros conversavam sobre motos novas, festas de fim de semana ou apostas, Elias mantinha o fone desligado e a mente ocupada com outras coisas. Mapas antigos, teorias esquecidas, estruturas que não se encaixavam na história oficial. Pirâmides fora do lugar. Ruínas soterradas que ninguém investigava porque não davam retorno financeiro imediato.
Mistérios não pagavam salário.
Naquele dia, o turno estava quase acabando quando o supervisor avisou que quem quisesse poderia ficar para hora extra. A produção precisava bater a meta da semana. Alguns recusaram. Elias aceitou sem pensar muito.
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Desceu mais fundo do que o habitual.
A argila naquela camada era diferente. Mais escura, mais compacta, como se tivesse sido comprimida por algo durante muito tempo. O impacto da pá não soava como antes. Havia um eco estranho, seco demais para ser apenas terra.
No terceiro golpe, a pá bateu em algo sólido.
Elias parou.
Ajoelhou-se e afastou a argila com cuidado. O objeto surgiu aos poucos: um medalhão antigo, coberto por marcas e símbolos desgastados. O metal estava corroído, manchado, como se tivesse atravessado décadas de água e calor — e, ainda assim, os símbolos permaneciam nítidos demais para algo comum.
Um arrepio leve percorreu sua nuca.
Não parecia valioso no sentido comum. Não brilhava. Não chamava atenção. Mas havia algo ali que fazia o olhar demorar mais do que o necessário.
Elias levou o medalhão até a superfície e mostrou ao supervisor, esperando curiosidade, algum protocolo, talvez uma foto.
O homem mal olhou.
Fez uma careta.
— Joga isso fora ou guarda no bolso, sei lá. Só não traz isso pra perto de mim. Coisa velha não vale nada.
Não houve discussão.
Não houve interesse.
Elias guardou o medalhão no bolso do uniforme. O metal estava frio contra a perna, pesado demais para algo tão pequeno.
O turno terminou pouco depois. Os outros subiram rindo, reclamando do cansaço. Elias ficou para trás por alguns minutos, observando a entrada escura do túnel que descia ainda mais fundo.
Ele não pensou em destino.
Nem em presságio.
Pensou apenas que, se algo estava enterrado ali há tanto tempo, não tinha sido por acaso.
Colocou o capacete, ligou a lanterna e desceu novamente.
O som do mundo foi ficando distante.
Capítulo 2 — Sob Camadas Antigas

Quanto mais Elias descia, mais a mina parecia antiga.
As marcas nas paredes já não eram apenas de máquinas. Havia trechos onde a argila fora arrancada de forma irregular, como se ferramentas diferentes tivessem sido usadas em épocas distintas. A madeira que sustentava o teto rangia baixo, num som contínuo que não era exatamente ameaça — era aviso.
Ele avançou com cuidado.
A lanterna iluminava poucos metros à frente, criando sombras longas que se moviam conforme ele respirava. O silêncio ali embaixo nunca era completo. Havia sempre o gotejar lento da água e o eco distante de algo cedendo.
Elias levou a mão ao bolso sem perceber.
O medalhão estava ali.
Frio.
Pesado demais.
Não queimava. Não vibrava. Não fazia nada que pudesse ser chamado de sobrenatural. Ainda assim, carregá-lo era como segurar algo que se recusava a ser esquecido.
Ele encontrou a camada exata de onde o retirara. A argila escura formava uma parede quase lisa, compacta demais para um depósito comum. Ao tocar a superfície, sentiu irregularidades que não seguiam padrão de escavação.
Era ali.
No terceiro golpe, o chão respondeu.
O rangido da madeira mudou de tom.
Não foi alto. Foi longo. Profundo. Como um suspiro preso.
Elias recuou.
O estalo veio do teto. Depois outro. A argila começou a ceder em placas. Ele virou para correr no exato momento em que o chão desapareceu sob seus pés.
A queda foi curta, mas violenta.
O ombro bateu primeiro. Depois as costas. Ele rolou até parar em água fria. A lanterna piscou… e apagou.
Escuridão.
Antes que pudesse se mover, o túnel desabou.
Terra e pedra se acumularam sobre suas pernas. O ar foi expulso dos pulmões. Elias tentou gritar, mas só conseguiu inspirar poeira e água.
Nada se movia.
Então, vozes.
— Tem alguém lá embaixo!
— A galeria cedeu!
Luzes surgiram entre frestas. Elias tentou responder, mas o corpo não obedecia.
Foi quando o medalhão esquentou.
Não queimava.
Mas acordava.
Uma luz fraca atravessou o tecido, refletindo na água ao redor. Por um instante, tudo pareceu distante. As vozes abafadas. O peso no peito absoluto.
Ele foi puxado para fora minutos depois.
O céu era azul demais.
O medalhão pressionava o peito como se quisesse atravessar a carne.
E então, o mundo começou a se afastar.
Capítulo 3 — Quando Ninguém Está Olhando

O hospital não estava preparado para milagres.
Elias chegou em uma maca, coberto de terra vermelha e água barrenta. O corpo imóvel demais para alguém tão jovem. As luzes da emergência revelaram ferimentos internos, costelas comprometidas, respiração irregular.
— Pressão caindo.
— Saturação despencando.
A médica leu o relatório sem levantar a voz. Não havia pânico ali. Apenas rotina.
Elias não ouvia.
Ou talvez ouvisse tudo de muito longe.
O tempo perdeu forma. Restaram fragmentos: o impacto, o peso da terra, o céu azul visto por um segundo.
E o medalhão.
Sob o lençol fino, ele começou a irradiar calor — lento, persistente, invisível aos monitores.
— Pupilas não respondem.
— Prepara intubação.
O tubo entrou. As máquinas assumiram.
Por alguns minutos, a linha estabilizou.
Depois, falhou.
— Parada.
Compressões. Medicamentos. Ordens curtas.
O corpo reagiu uma vez.
Depois, não reagiu mais.
— Hora do óbito: 03h17.
O hospital seguiu em frente.
Quando ninguém olhava, o medalhão brilhou.
A luz não escapou.
Foi absorvida.
Por dentro, algo se soltou.
Não houve dor.
Nem medo.
A sensação foi a de largar um peso antigo.
Elias foi puxado, rápido, como atravessar uma correnteza invisível.
O hospital desapareceu.
Não houve túnel de luz.
Apenas escuridão…
seguida pelo som de água correndo.
