Capítulo 2 — O Filho do Ferreiro
O cheiro de maresia e ferrugem desapareceu como se tivesse sido arrancado da memória. No lugar dele, um odor pesado de carvão queimado e graxa antiga dominava o ar, espesso o bastante para se sentir na garganta.
Dante abriu os olhos devagar.
O teto — de madeira velha, áspera, marcada pelo tempo — estava coberto por pequenos buracos onde a luz da manhã atravessava em feixes tímidos. O vento frio soprava pelas frestas com a insolência de quem já conhecia a casa, trazendo poeira e o som distante de martelos golpeando metal.
Ele tentou se levantar, mas o corpo respondeu com estranheza. Era diferente.
Mais jovem.
Mas fraco.
Ossos doloridos, músculos atrofiados — um recipiente que não lembrava nem sombra do homem que morrera esmagado por uma máquina industrial.
No canto do cômodo, uma forja quebrada exibia tijolos partidos e ferramentas enferrujadas. Todo o barraco era a imagem da decadência — um ferreiro morto-vivo, esquecido pela vila, abandonado por quem deveria sustentá-lo.
Uma voz suave quebrou o silêncio, quase hesitante:
— Você acordou… mestre Dante.
Ele virou o rosto.
Encostada à porta estava uma jovem de cabelos loiros presos em um rabo de cavalo. Suas roupas, simples e remendadas tantas vezes que já desafiavam a lógica, mal se sustentavam. Os olhos dela — um azul cortante, como lâminas de vidro — carregavam exaustão. Mas havia algo mais profundo ali, algo que fez Dante prender a respiração:
Lealdade.
Absoluta.
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— Quem… é você? — murmurou ele, a garganta seca e áspera.
Ela se aproximou com passos silenciosos e colocou um balde de água ao lado da cama improvisada.
— Sou Lira. A única que restou. — Sua voz era serena, mas manchada por tristeza. — Quando seu pai morreu, todos os servos abandonaram esta casa. O senhorio vendeu as terras, e os credores levaram tudo. Só restou isto.
Ela abriu os braços, apresentando o barraco miserável, cercado por muros desmoronados — ruínas de uma linhagem de ferreiros que já não tinha glória, nem nome.
Foi então que as memórias o atingiram como duas marretas colidindo.
Duas vidas.
Dois passados.
Duas identidades se fundindo como metal derretido.
De um lado, o engenheiro de Torres, morto pela falha de uma máquina industrial; do outro, o jovem falido, último descendente de um ferreiro decadente. O nome era o mesmo em ambos os mundos. O peso também.
Lira abaixou a cabeça com reverência tímida.
— Eles dizem que você não é digno de ser chamado de Vilar. Que sua família morreu junto com seu pai. Mas eu… — ela hesitou, dedos trêmulos apertando a barra do avental — eu acredito que ainda pode se erguer. Não sei por quê… mas acredito.
Dante respirou fundo.
E então ouviu.
Não com os ouvidos — mas com algo mais profundo. O mundo ao redor pulsava com engrenagens invisíveis, como se máquinas colossais girassem sob a terra. Em sua mente, linhas douradas se acenderam: diagramas, fórmulas, estruturas mecânicas… mas todas misturadas à magia daquele novo lugar.
Um dom antigo.
Uma memória perfeita.
Agora fundida com um poder que não existia em seu antigo mundo.
Ele olhou para a forja quebrada. Para as paredes que mal se sustentavam. Para Lira, que o encarava com uma esperança tão frágil quanto vidro — mas tão resistente quanto aço.
E pela primeira vez desde sua morte, Dante falou não como alguém que queria sobreviver.
Mas como alguém que queria conquistar.
— Então vamos reconstruir. — Sua voz saiu firme, sólida como ferro fundido. — Pedra por pedra. Ferro por ferro. Até que o mundo se curve diante das nossas máquinas.
Do lado de fora, o sino da vila soou com urgência, cortando o ar.
GONG.
GONG.
GONG.
Um rugido monstruoso ecoou das colinas logo em seguida.
As bestas Ravagers estavam se aproximando.
E Dante, filho de dois mundos, sentiu suas engrenagens internas começarem a girar.
