APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA — Light Novel (Capítulos 5 e 6)

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Capítulo 5 — Conversão

Kael acorda suando.
Não de medo.
De calor.

O apartamento parece menor.
O ar, mais pesado.

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ele bebe água devagar — consciente de cada gole — e pensa em algo simples:

Não vai chover.
Não vai esfriar.
Não vai crescer nada.

No futuro, plantar virou piada.
A terra queimava.
A água evaporava.

Quem não tinha estoque…
morria tentando roubar.

Kael se levanta.

Hoje não é dia de observar.
É dia de converter tudo que ainda funciona.

Ele começa pelo celular.

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Apps de banco.
Crédito pessoal.
Limites emergenciais.
Parcelamentos longos.

Ele aceita tudo.

Sem hesitar.
Sem calcular juros.

Dinheiro agora não é dívida.
É tempo de vida.

Uma notificação aparece:

“Crédito aprovado.”
Outra.
“Limite temporário liberado.”

Kael não sorri.
Ele já sabe que isso tudo vai virar poeira.

Depois, ele troca de nome.

Não o dele.
O de Lívia.

Ele tem acesso.
Senha compartilhada.
Confiança antiga.

Kael não sente culpa.

No futuro, ela enterrou uma faca nas costas dele sem tremer.
Agora, ele enterra dívidas no nome dela com a mesma frieza.

Empréstimo aprovado.
Cartão virtual criado.
Limite extra liberado.

Ele fecha o app.

Emprestado. — pensa. — Não roubado.

Com dinheiro novo, ele sai.

Não para supermercados comuns.
Vai a distribuidores.

Lugares onde restaurantes compram.
Onde ninguém pergunta “por quê”, só “quanto”.

Água mineral em pallet.
Galões industriais.
Sal grosso.
Arroz em sacas.
Comida simples, calórica, que aguenta calor.

O vendedor comenta:

— Tá todo mundo comprando mais esses dias.

Kael assente.

— Vai piorar.

Ele não tenta carregar tudo de uma vez.
Já aprendeu.

O poder espacial resiste quando exagera.

Então ele faz em ciclos.

Compra.
Afasta.
Testa.

Algumas cargas entram no espaço comprimido.
Outras falham e voltam com impacto, fazendo os braços doerem.

O corpo começa a entender o limite.

É como treinar um músculo novo —
se romper agora, morre depois.

Kael para quando sente tontura.

Não força.

Anota mentalmente:

Capacidade atual:
água > comida > peso morto
Cansaço rápido
Recuperação lenta

Perfeito.

Limite é informação.

No caminho de volta, ele vê a primeira coisa estranha de verdade.

Um mercado fechado.

Não por greve.
Não por falta de energia.

Por falta de água.

Uma placa improvisada na porta:

“SEM ABASTECIMENTO HOJE”

As pessoas reclamam.
Algumas riem.
Outras filmam.

Kael passa direto.

No futuro, isso vira comum demais para virar notícia.

O celular vibra.

Lívia.

“pq tem notificação estranha do banco??
vc mexeu em algo?”

Kael lê andando.

Não para.

Responde simples:

“Depois falo.”

E silencia.

Em casa, ele sente o peso invisível no corpo.

Água.
Comida.
Mais do que qualquer pessoa comum poderia carregar.

O espaço comprimido empurra por dentro, como se reclamasse.

Kael se senta no chão.

Respira.

No futuro, ele lembra do calor.
Do sol queimando a pele em minutos.
Da sede enlouquecendo pessoas.
De brigas por uma garrafa.

Ele fecha os olhos.

— Quando isso começar… ninguém vai conseguir saquear nada.
— Vai estar quente demais pra correr. Quente demais pra lutar.

Ele abre os olhos.

— Quem estocou agora… vive.

O sol se põe.
O calor não vai embora.

O Dia -2 termina com o mundo ainda fingindo que amanhã vai existir.

Kael já sabe:

Amanhã não vai ser um dia.
Vai ser o último aviso.

Capítulo 6 — O Último Estoque

Kael acorda com o ventilador ligado no máximo.

Não adianta.

O ar não refresca.
Só circula calor.

Ele levanta, bebe água com cuidado e sente algo claro no corpo:

Energia baixa.
Não fome.
Falta de proteína.

No futuro, isso matava mais devagar —
mas matava.

Arroz sustenta.
Água mantém vivo.

Mas sem proteína, o corpo quebra.

Kael se veste e sai.

Hoje é o último dia em que a cadeia inteira ainda funciona.

O primeiro lugar é um açougue grande, desses que atendem restaurantes.

O cheiro de carne crua se mistura ao calor.
O ambiente é abafado.

Pessoas compram mais do que o normal.
Nada em pânico —
mas ninguém compra pouco.

Kael não pede cortes nobres.

Pede volume.

Carne bovina.
Frango.
Qualquer coisa que vire proteína depois.

O açougueiro franze a testa.

— Vai fazer festa?

Kael responde sem emoção:

— Vou precisar.

Ele paga sem negociar.

O problema vem logo depois.

Carne estraga.
Rápido.

No futuro, muita gente morreu com estoque apodrecido.

Kael já sabe disso.

Ele passa em um depósito de gelo industrial.

Compra o que pode.

Freezers simples.
Geradores pequenos, portáteis.

Não pensa em longo prazo com energia.

Isso não vai durar.

O plano não é manter congelado para sempre.
É ganhar tempo suficiente.

No estacionamento, longe das pessoas, Kael testa o limite.

Caixas de carne.
Gelo.
Freezer desligado.

O espaço reage mal.

Diferente da água.

Mais pesado.
Mais “vivo”.

Algumas caixas entram.
Outras resistem, como se o próprio espaço rejeitasse matéria orgânica em excesso.

Quando força demais, uma caixa reaparece com impacto, quase quebrando o pé dele.

Kael para.

Respira.

Entende.

— Não é infinito.
— Nem neutro.

Mas algo fica claro:

Lá dentro, o tempo parece mais lento.

Não parado.
Só… atrasado.

Isso basta.

Ele armazena o que consegue.

O resto?
Consome rápido ou perde.

Ele aceita isso.

Sobrevivência não é perfeição.

No caminho de volta, vê algo que não viu antes.

Um cachorro na rua.

Magro demais.
Pelo falhando.
Olhos estranhamente opacos.

Ele rosna para um carro passando e tenta morder o pneu.

Kael observa por alguns segundos.

Nada sobrenatural ainda.
Mas errado.

No futuro, os primeiros mutantes começaram assim.

Não monstros.
Animais quebrados.

Kael segue andando.

O celular vibra.

Lívia.

“kael
tem coisa errada acontecendo
mercado fechou aqui
pq vc ta gastando tudo?”

Kael lê.

Responde só:

“Cuida do que é teu.”

Silencia.

Não é hora de cortar laços.
Nem de manter.

No apartamento, Kael se senta no chão, cercado por caixas vazias.

O corpo dói.
A cabeça pesa.

O espaço comprimido parece pressionar por dentro, como um órgão novo aprendendo a existir.

Ele fecha os olhos.

No futuro, ele lembra:

do calor insuportável
da carne virando moeda
dos mutantes surgindo da fome e da adaptação
dos cristais deixados para trás, brilhando no meio da areia

Mas isso ainda não chegou.

Ainda não.

O sol se põe no último dia normal.

Não há pôr do sol bonito.
Só um disco esbranquiçado desaparecendo atrás dos prédios.

Kael bebe água devagar.

Amanhã, o mundo não vai acabar de vez.

Mas vai quebrar.

E quando quebrar, ele não vai correr.
Não vai ajudar.
Não vai discursar.

Ele vai sobreviver.

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