O Último Oráculo — Light Novel | Capítulos 1 a 3

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Capítulo 1 — Invisível até o Fim

Bernardo acordou antes do sol.

Não porque queria — mas porque o corpo já não aceitava dormir mais do que aquilo. O chão de concreto da obra ainda guardava o frio da madrugada, mesmo com o cheiro pesado de tinta fresca impregnado no ar.

O Último Oráculo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Ele se levantou devagar, alongando as costas. Um estalo seco ecoou no silêncio.

— Mais um dia… — murmurou, sem entusiasmo.

Pegou a camiseta jogada sobre um balde vazio, vestiu sem se importar com as manchas antigas e saiu do cômodo improvisado que usava como dormitório. Não havia cama. Apenas um pedaço de papelão dobrado e uma mochila velha encostada no canto.

Bernardo era pintor.

Ou melhor… fazia de tudo numa obra, desde que pagassem.

Trabalhava de dia.
Trabalhava à noite.

Quando havia serviço, dormia ali mesmo, economizando passagem, comida, tempo.

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Dinheiro nunca sobrava.

As mãos estavam sempre manchadas de tinta, por mais que esfregasse. A pele ardia com o sol, com o pó, com o cansaço acumulado de semanas sem descanso de verdade.

Durante o dia, ninguém o notava.
À noite, ninguém se lembrava dele.

E quando alguma mulher aparecia — alguma moça rindo com amigas, passando perto da obra — ele já sabia.

Nem precisava tentar.

As poucas vezes em que criou coragem, ouviu variações do mesmo sorriso constrangido, do mesmo olhar de pena.

“Você é legal, mas…”
“Não faz meu tipo.”
“Prefiro só amizade.”

Bernardo aprendeu a sorrir de volta.
Aprendeu a fingir que não doía.

Naquela noite, o estômago roncou mais alto que o cansaço. O dinheiro do dia tinha sido pouco, mas suficiente para algo simples.

— Um hambúrguer… já tá bom.

Saiu da obra com passos lentos, atravessando a rua em direção à lanchonete da esquina. O sinal estava fechado. Algumas pessoas esperavam na calçada oposta.

Entre elas, um senhor mais velho, parado perto demais da rua.

Bernardo notou o caminhão tarde demais.

O som do motor veio alto, pesado. O sinal abriu… mas o caminhão não reduziu.

— Ei! — alguém gritou.

O velho deu um passo à frente, confuso.

Bernardo não pensou.

Correu.

Empurrou o senhor com força, sentindo o impacto seco dos corpos colidindo. O mundo pareceu girar por um segundo — e então veio o som.

Metal.
Freios.
Um impacto brutal.

O corpo de Bernardo foi lançado para o lado, o chão subindo rápido demais.

A dor não veio de imediato.

Veio o frio.

O céu acima parecia estranho. As luzes da rua borradas. Pessoas gritando. Alguém chamando por ajuda.

Ele tentou respirar… mas o ar não vinha direito.

O senhor estava vivo. Tremendo, mas vivo.

Bernardo sorriu, mesmo com a boca cheia de sangue.

— Ainda bem…

Enquanto a visão escurecia, uma única ideia atravessou sua mente — crua, feia, sincera.

Não sobre heroísmo.
Não sobre justiça.

Mas sobre tudo o que nunca viveu.

Nunca foi desejado.
Nunca foi escolhido.
Nunca foi visto.

Se tivesse… só uma chance.

Só uma.

Não para ser bom.
Não para ser justo.

Mas para não morrer invisível outra vez.

O som das sirenes ficou distante.

E então… não houve mais nada.

Capítulo 2 — Entre o Nada e a Possibilidade

O silêncio veio primeiro.

Não foi escuro.
Não foi claro.

Foi… ausência.

Bernardo tentou respirar — por reflexo — e percebeu que não precisava. Não havia ar entrando nos pulmões. Não havia pulmões.

Mesmo assim, ele pensava.

— …morri?

A palavra não ecoou. Não houve som algum. Ainda assim, ele a “ouviu”, como se o pensamento tivesse peso próprio.

Não sentia dor.
Também não sentia alívio.

Era como estar acordado demais.

As imagens da rua voltaram, quebradas. O caminhão. O impacto. O rosto assustado do velho. O gosto metálico na boca.

— Salvei alguém… — pensou.
— Que piada.

Se aquilo fosse o fim, não parecia recompensa nenhuma.

Algo estranho surgiu então. Não um toque, mas a sensação de estar sendo observado. Não por olhos — por algo mais amplo, mais distante.

Memórias começaram a surgir, uma após a outra, sem ordem.

As obras.
As noites dormindo no chão.
Os risos que nunca foram para ele.
Os “não”.

Sempre os “não”.

Ele fechou os olhos — mesmo sem saber se ainda os tinha.

— Se isso aqui for tudo… — pensou — …é sacanagem.

A frustração cresceu. Não como raiva explosiva, mas como algo denso, antigo, acumulado.

Ele não queria ser herói.
Não queria medalha.
Não queria agradecimento.

Só não queria que a vida acabasse daquele jeito.

— Eu trabalhava mais do que qualquer um…
— Aguentava mais do que qualquer um…

As palavras vinham sem som, mas com força.

— E mesmo assim… nada.

O vazio reagiu.

Não houve voz.
Não houve figura divina.

Mas o espaço ao redor pareceu se reorganizar.

Fragmentos surgiram na névoa.

Não imagens claras — mas possibilidades.

Cidades em chamas.
Bandeiras rasgadas.
Torres caindo.
Criaturas que não deveriam existir.
Pessoas olhando para o céu, esperando respostas.

Bernardo sentiu um arrepio que não vinha do corpo.

— Que porra é essa…?

As cenas não vinham em sequência. Eram linhas sobrepostas, algumas se cruzando, outras se apagando antes de se formar por completo.

Ele entendeu, instintivamente.

Nada daquilo estava decidido.

Algumas imagens desapareciam quando ele tentava focar. Outras surgiam quando desviava a atenção.

— Isso… não é futuro.

Era diferente.

Era como observar caminhos que podiam existir — mas ainda não existiam.

— Então é isso? — pensou. — Vai me mostrar tudo o que eu nunca vou viver?

O ressentimento voltou, mais forte.

— Se eu tivesse outra chance…

O pensamento não foi bonito.
Não foi nobre.

Foi cru.

— Eu não ia aceitar ser invisível de novo.
— Eu não ia aceitar passar fome, dormir no chão, ser ignorado.
— Eu ia viver. Do meu jeito.

O vazio pareceu afundar ao redor dele.

As linhas se aproximaram.

Por um instante, Bernardo sentiu algo parecido com medo.

Não de morrer — isso já tinha acontecido.

Mas de acordar em algo pior.

— Se for pra recomeçar… — pensou — …então que não seja igual.

O cinza começou a se desfazer, puxando sua consciência como uma corrente silenciosa.

Não houve luz no fim do túnel.

Houve queda.

E, no fundo dela, algo o esperava.

Capítulo 3 — O Oráculo Que Não Deveria Existir

A primeira coisa que Bernardo sentiu foi o peso.

Não o peso do corpo —
mas o peso de estar dentro dele.

O ar entrou nos pulmões de uma vez, arrancando um engasgo seco de sua garganta. Ele se virou de lado por instinto, sentindo o tecido macio da cama sob os dedos.

— …gh…

O som saiu estranho. Mais baixo. Mais contido.

Bernardo abriu os olhos.

O teto não era concreto.
Nem madeira velha.

Era pedra lisa, clara, cortada por símbolos que ele não reconhecia — e que, estranhamente, pareciam familiares.

— Onde… — tentou falar.

A voz era jovem.

Mas não era a dele.

Ele se sentou devagar. O coração acelerado. A cabeça pesada, como se tivesse passado dias acordado. O ambiente entrou em foco aos poucos: velas, tapeçarias, o cheiro suave de incenso misturado com algo metálico.

Não era hospital.
Não era sonho.

Bernardo levou a mão ao rosto.

A pele era lisa.
Os dedos não tinham calos.
Não havia tinta impregnada.

Passou a mão pelo cabelo — e parou no meio do movimento.

— Roxo…?

Levantou-se com cuidado. As pernas tremiam. Um espelho simples, encostado na parede, refletiu uma figura que ele não reconhecia.

Jovem.
Pálido.
Cabelo roxo.
Olhos de um cinza estranho, quase metálico.

— …não sou eu.

A memória veio de uma vez.

O vazio.
As linhas.
A queda.

— Então… reencarnei.

Não houve euforia.
Nem gratidão.

Apenas cautela.

Bernardo fechou os olhos por um instante — e então sentiu.

Algo deslizando por trás da visão.

Não era imagem.
Não era som.

Era sobreposição.

Quando abriu os olhos, o mundo parecia o mesmo — e, ao mesmo tempo, não.

Linhas finas cruzavam o espaço como rachaduras no ar. Algumas eram estáveis. Outras tremiam. Algumas se apagavam quando ele tentava focar.

— …isso é…

Ele deu um passo à frente.

Uma linha à esquerda se dissolveu.
Outra surgiu, mais distante.

Bernardo recuou.

— Não é futuro… — murmurou. — São possibilidades.

Ele não via o que ia acontecer.

Via o que poderia ter acontecido… ou ainda podia, se algo mudasse.

Antes que pudesse pensar mais, a porta se abriu.

Dois homens entraram.

Vestes cerimoniais.
Expressões neutras demais.

— O Oráculo despertou. — disse um deles, sem emoção.

Bernardo sentiu um arrepio.

— Oráculo…?

O segundo homem se aproximou, observando-o como se fosse um objeto frágil.

— Não se levante demais. Seu corpo ainda é… instável.

Instável.

— Onde estou? — perguntou Bernardo, medindo cada palavra.

Os homens trocaram um olhar breve.

— Na capital. — respondeu o primeiro. — Você foi trazido há meses. Comprado, para ser mais exato.

A palavra atingiu como um soco.

— Comprado?

— Oráculos não nascem apenas do destino. — continuou o homem. — Alguns são… adquiridos.

O estômago de Bernardo revirou.

Memórias que não eram dele surgiram, fragmentadas.

Testes.
Previsões falhas.
Relatórios ignorados.
Olhares de desprezo.

— Suas leituras nunca coincidiram com as oficiais. — disse o segundo. — Por isso ficou desacordado tanto tempo. Alguns diziam que era fingimento.

Bernardo entendeu.

O corpo em que reencarnou…
já era considerado um erro.

— Então por que ainda estou aqui? — perguntou.

O primeiro homem sorriu. Um sorriso vazio.

— Porque até previsões erradas servem para alguma coisa.

Silêncio.

— E porque, até prova em contrário… — completou — …você ainda é oficialmente um Oráculo.

Bernardo baixou o olhar. As linhas ao redor vibraram levemente.

Ele não tinha poder.
Não tinha status.
Não tinha confiança.

Só tinha algo que ninguém ali compreendia.

E, se descobrissem…

Bernardo respirou fundo.

— Entendi.

Aquilo não era o começo de uma nova vida.

Era o início de uma sobrevivência muito mais perigosa.

Próximo capítulo

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