Capítulo 1
Ele Trabalhou Até Não Sobrar Nada
Ricardo desligou a máquina com um movimento automático.
O som metálico cessou, mas o zumbido permaneceu em sua cabeça, como se o corpo tivesse se acostumado demais ao barulho. Ele olhou o relógio na parede da fábrica: 18h47.
Reencarnado na Idade do Fogo é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Horas extras. De novo.
Limpou o suor do rosto com a manga da camisa azul já desbotada. As mãos estavam ásperas, marcadas por pequenos cortes. Trabalhar com máquinas fazia isso com qualquer um — principalmente com quem nunca recusava turno.
— Pode ir, Ricardo — disse o encarregado, sem levantar os olhos.
Nenhum “bom Natal”.
Ninguém esperava isso ali.
No vestiário, trocou de roupa em silêncio. O celular vibrava no bolso. Mensagens de cobrança. Banco. Dois números desconhecidos. Um áudio curto, ríspido, de alguém que não pedia — exigia.
Dívidas que não eram dele.
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❌ Sem dom
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Os pais haviam morrido deixando tudo para trás: casa penhorada, empréstimos, nomes sujos.
E Ricardo… ficou.
Pagando.
Sete namoradas ao longo dos anos. Sete términos parecidos.
“Você nunca está aqui.”
“Você só trabalha.”
“Não dá pra competir com essa fábrica.”
Ele nunca respondeu.
Porque sabia que era verdade.
Do lado de fora, a rua estava quase vazia. As luzes de Natal piscavam em algumas casas. Risadas vinham de longe, abafadas pelo som dos carros.
Ricardo colocou as mãos nos bolsos e começou a andar.
Naquela noite, ia comer qualquer coisa e dormir cedo. No dia seguinte, talvez tivesse turno extra. Talvez não.
Atravessou a rua sem pressa.
Não viu o farol vermelho.
O impacto veio seco. Rápido. Sem dor.
O mundo ficou em silêncio.
Branco.
Não havia chão.
Não havia céu.
Ricardo flutuava.
Uma voz neutra ecoou, sem emoção:
— Central de Reencarnações. Processando alma.
À frente, uma roleta gigante girava lentamente. Símbolos estranhos passavam diante de seus olhos. Ele tentou falar, mas nenhuma palavra saiu.
A roleta desacelerou.
Parou.
Habilidade Selecionada:
Merceria Online — Versão Ancestral
— O quê…?
Não houve explicação.
A luz o envolveu.
E então… ele caiu.
Capítulo 2

O Corpo Que Não Valia Nada
Asta acordou engasgando.
O gosto amargo queimava a garganta. O corpo estava pesado, fraco, como se cada respiração exigisse esforço consciente. Quando tentou se levantar, falhou.
Memórias que não eram suas surgiram em fragmentos.
Aquele corpo havia sido desprezado desde sempre. Não caçava bem. Não lutava. Servia apenas para carregar coisas… até o dia em que alguém decidiu que nem isso valia a pena.
Veneno.
— …então foi assim — murmurou.
A voz saiu diferente. Mais rouca. Mais simples.
A porta da cabana se abriu com um chute.
— Ainda vive? — perguntou um homem, indiferente.
— Se morrer hoje, joga fora antes de feder.
A porta se fechou.
Asta respirou fundo.
Só então percebeu o detalhe mais estranho.
Não havia fogo.
Nenhuma chama. Nenhuma tocha. Nenhuma fumaça subindo da aldeia.
Carne crua pendurada. Ossos espalhados. Pessoas comendo em silêncio, olhando para o chão.
Antes que o pânico se instalasse, algo piscou em sua visão.
Merceria Online — Versão Ancestral
Status: BLOQUEADA
Condição: sobreviver
Asta fechou os olhos.
Na vida passada, ele havia sido explorado.
Nesta… era descartável.
Passos leves se aproximaram do lado de fora.
Diferentes. Calmos.
A porta se abriu.
Ela entrou.
Cabelos azul-claro balançavam com o vento. Olhos azuis vivos observavam tudo com atenção calculada. A presença dela tornava o ar pesado.
Asta soube imediatamente.
Aquela mulher tinha poder.
— Então você não morreu — disse Nayara Ul’Khan.
Ela se aproximou e tocou o pulso dele com dois dedos.
— Ótimo — um sorriso discreto surgiu. — Ainda pode ser usado.
Asta engoliu em seco.
Ele ainda não entendia aquele mundo.
Mas uma coisa ficou clara.
Para viver ali…
precisaria se tornar necessário.
Capítulo 3

Comida Define Quem Vive
Asta foi arrastado para fora da cabana ainda fraco.
Não com violência — com descaso.
Dois homens o seguravam pelos braços como se carregassem um animal doente. Seus pés arrastavam na terra batida, levantando poeira fina. Em volta, ninguém dizia nada.
O centro da aldeia estava em silêncio.
Varas de madeira sustentavam pedaços de carne crua. Algumas ainda vermelhas. Outras já escurecidas pelo sol. Moscas pousavam sem medo.
O estômago de Asta embrulhou.
— Isso… vocês comem assim? — perguntou, sem perceber que falava alto.
Algumas pessoas o olharam como se tivesse dito algo idiota.
— Sempre foi assim — respondeu um dos anciãos. — O sol seca. O estômago aguenta.
Nayara observava.
Não interrompeu. Apenas cruzou os braços, avaliando.
Naquele momento, algo piscou novamente na visão de Asta.
Merceria Ancestral — Acesso Parcial Liberado
Categoria disponível: Conservação Básica
Não havia itens.
Não havia compras.
Apenas ideias.
Ele fechou os olhos por um instante… e entendeu.
— O sol não é o problema — disse, calmo. — É o jeito.
Risadas baixas surgiram. Um ancião cuspiu no chão.
— Você mal anda. Vai nos ensinar a viver?
Asta apontou para a carne mais escura.
— Essa apodrece primeiro. Porque fica grossa demais. A parte de dentro não seca.
Aproximou-se com dificuldade e se ajoelhou.
— Cortem mais fino. Sempre no mesmo tamanho. Pendurem onde o vento passa, não onde o sol queima.
Silêncio.
Nayara estreitou os olhos.
— Continue — ordenou.
— E sal — Asta tocou os lábios secos. — Vocês têm. Usam só para feridas. Usem na carne. Pouco. Não para dar gosto. Para tirar a água.
Um dos homens hesitou.
— Isso desperdiça sal.
Asta ergueu o olhar, firme.
— Carne perdida desperdiça caçadores.
Aquilo acertou em cheio.
Horas depois, pequenas mudanças estavam feitas. Nada milagroso. Nada rápido.
Mas naquela noite…
Ninguém passou mal.
Ninguém morreu.
Nayara observava a aldeia em silêncio.
Quando todos se dispersaram, aproximou-se de Asta.
— Você não ensinou magia — disse. — Nem força.
Ela o encarou.
— Ensinou a pensar.
Asta respondeu apenas:
— Comida decide quem vive. O resto vem depois.
Nayara sorriu de leve.
Não de charme.
De interesse real.
