Capítulo 3 — Sobrevivência e Sinais Esquecidos
O dia seguinte nasceu cinzento.
Um vento frio soprava pelas ruas desertas do vilarejo, atravessando o que restava das construções. Caio ajeitou a túnica suja e soltou um suspiro pesado enquanto observava a antiga praça.
Telhados haviam desmoronado.
Pedras enegrecidas pelo fogo se espalhavam pelo chão. Nas paredes, símbolos riscados com algo que lembrava carvão formavam desenhos inquietantes.
O guardião das Bruxas é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Ele franziu a testa e murmurou:
— Isso aqui tá mais pra cenário de filme de terror do que pra fazendinha dos sonhos.
Atrás dele, Lia caminhava em silêncio. Seus passos eram suaves demais, calculados, como se cada movimento fosse resultado de uma equação precisa. O vestido impecável destoava da destruição ao redor, e o código de barras em seu pescoço refletia a luz fraca da manhã.
— Constatação: esta vila foi abandonada às pressas. Índices de destruição indicam incêndios e símbolos de restrição mística. Conclusão provável: local amaldiçoado.
Caio se virou no mesmo instante, indignado.
— Amaldiçoado?! E só agora você me fala isso?!
— O Mestre não perguntou.
✍️ Desenhe QUALQUER ANIME com um método aprovado por +150 mil alunos
Já imaginou conseguir desenhar seu anime ou mangá favorito logo no primeiro dia,
mesmo começando do zero?
🎌 Aprenda com a maior referência em FanArt do Brasil usando um método simples,
prático e testado por mais de 150.000 alunos.
❌ Sem dom
❌ Sem traço perfeito
❌ Sem complicação
Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da situação.
— Ótimo… virei o zelador oficial da Vila da Maldição. Minha mãe estaria orgulhosa.
Com fome e o corpo pedindo descanso, Caio decidiu começar pelo básico: precisava de um abrigo decente. Arrastou pedaços de madeira, improvisou colunas e tentou erguer um teto. As calças logo ficaram rasgadas nos joelhos de tanto se ajoelhar no chão duro.
Lia observava tudo com os braços cruzados.
— Taxa de chance de desabamento em duas horas: noventa e sete por cento. Sugiro que o Mestre aprenda noções básicas de arquitetura antes de morrer esmagado.
Caio respirou fundo, segurando um graveto. Ao encostá-lo em uma das madeiras quebradas, algo inesperado aconteceu. A madeira se alinhou sozinha, encaixando-se com precisão, como se tivesse sido trabalhada por carpinteiros experientes. O teto se ergueu firme, formando uma estrutura sólida.
Ele arregalou os olhos, suado, mas com um sorriso surgindo no rosto.
— Ok… isso eu não esperava. Se esse graveto faz mágica, então a gente tem chance.
Lia aproximou-se, os olhos azuis brilhando com mais intensidade.
— Correção: chance de sobrevivência elevada para quarenta e um por cento. Ainda inaceitável, Mestre.
— Você sabe motivar alguém, hein…
No centro da vila, um antigo poço chamava atenção. Estava trancado com correntes e tábuas pregadas de forma improvisada. Caio se aproximou, animado.
— Isso é água, certeza. Finalmente alguma sorte!
Ele chutou a madeira. As correntes tilintaram até que cederam. Assim que o poço foi aberto, um cheiro pútrido escapou. A água lá dentro estava escura, coberta de limo.
Lia analisou a cena com olhar clínico.
— Contaminação elevada. Possibilidade de envenenamento imediato. Ingestão proibida.
Caio xingou baixo, frustrado.
— Nem água limpa esse lugar tem… que desgraça.
Foi então que percebeu os símbolos ao redor do poço. Círculos incompletos, marcas de fogo e figuras que lembravam olhos grotescos estavam riscados na pedra.
Ele engoliu seco.
— O que… aconteceu aqui?
Lia apenas observou.
— Sugestão: evitar questionar. O Mestre não possui recursos para enfrentar mistérios. Prioridade atual: não morrer de fome e sede.
No fim do dia, Caio conseguiu preparar novamente um pedaço de raiz. Lia permaneceu ao lado dele, corrigindo sua postura ao cortar madeira, ajudando a calcular buracos para o plantio e indicando pontos onde pequenas nascentes subterrâneas poderiam ser encontradas.
Enquanto mordia a raiz dura, Caio murmurou:
— Esse lugar… é assustador. Mas também é meu agora, né? Então vou fazer dar certo.
Lia voltou o olhar para ele. Os olhos azuis pulsaram levemente.
— Registro: Mestre declarou posse da vila amaldiçoada. Início do protocolo de restauração. Observação adicional: Mestre possui apenas vinte e oito por cento de chance de cumprir a promessa.
Caio riu sozinho, cuspindo um pedaço queimado da raiz.
— Se fosse pra me animar… você tá indo pelo caminho errado.
No céu, as primeiras estrelas começaram a surgir.
A vila esquecida permanecia mergulhada em silêncio, mas algo havia mudado. Entre as ruínas, uma pequena chama de esperança começava a se formar — enquanto um mistério ainda maior permanecia escondido sob aquelas pedras antigas.
Capítulo 4 — A Primeira Casa e a Vontade de Ficar

O sol já estava alto quando Caio decidiu que não podia mais continuar dormindo em casas prestes a desabar.
A ideia de acordar soterrado por tábuas velhas não parecia exatamente parte de um plano de sobrevivência bem-sucedido.
Ele limpou um espaço na rua principal do vilarejo e começou a empilhar tudo o que encontrou: tábuas tortas, pedras irregulares e telhas quebradas. O esforço fazia o suor escorrer pelo rosto, enquanto a túnica já encardida ficava ainda mais pesada.
Lia o observava com os braços cruzados. A postura era impecável, quase como a de uma chefe de obras feita de porcelana.
— Sugestão: estrutura irregular. O teto desabará em no máximo cinco dias. Conclusão adicional: o Mestre parece incapaz até de alinhar uma parede.
Caio limpou a testa com o antebraço e a encarou.
— E você parece incapaz de calar a boca.
A cada erro dele, Lia estalava os dedos metálicos. Pequenos circuitos se acendiam sob o avental, e hologramas rúnicos surgiam no ar, projetando exatamente como a estrutura deveria ser montada.
Caio arregalava os olhos a cada nova projeção.
— Você tem projetor 3D embutido?! Isso é apelação!
Mesmo reclamando, ele seguiu as instruções. Usou o graveto para reparar as madeiras, moldar as pedras e encaixar as telhas com mais precisão do que imaginava ser capaz. O trabalho levou horas, mas, ao fim da tarde, a casinha estava de pé.
Era simples. Pequena.
Mas sólida.
Caio se jogou no chão, ofegante, encarando o teto improvisado.
— Tá vendo isso, Lia? Minha primeira casa medieval.
Ela ajustou o avental, que permanecia impecável apesar de tudo.
— Correção: sua primeira casa que não parece uma armadilha mortal. Nível de risco reduzido para trinta e nove por cento.
Caio gargalhou.
— Pior que eu tô ficando acostumado com suas ofensas.
Com a casinha pronta, ele decidiu dar o próximo passo: preparar uma pequena horta. Cavou buracos no solo duro, plantou sementes mofadas e algumas raízes que havia encontrado pelo caminho.
Enquanto enfiava as mãos na terra, sujando ainda mais a túnica, Lia ajoelhou-se ao lado dele para observar. Os olhos de cristal azul brilharam com intensidade.
— Sugestão: rotacionar os buracos para receber mais luz solar. Correção: o Mestre está cavando como se fosse um cachorro desesperado. Estatística: sessenta e sete por cento de falha na colheita.
Caio bufou, sem paciência.
— Você pode até ser uma máquina perfeita, mas não sabe o prazer que é enfiar a mão na terra.
Ela inclinou levemente a cabeça, como se estivesse processando aquela informação.
— Registro: Mestre demonstra apego emocional ao contato físico com o solo. Possível defeito humano.
Caio riu.
— É, pode anotar aí no seu banco de dados: defeito humano chamado “querer viver”.
No fim do dia, Caio tentou mais uma vez puxar água do poço envenenado. Algo, porém, o incomodava. Os símbolos riscados nas pedras pareciam diferentes à noite, quase como se se movessem. Como olhos atentos, observando cada passo.
Ele desviou o olhar, fingindo não perceber.
Atrás dele, Lia falou com calma.
— Sugestão: não encarar por muito tempo. Símbolos instáveis podem afetar a mente do Mestre. Estatística: quarenta e dois por cento de chance de alucinações.
Caio engoliu seco.
— Ótimo… além de fome e sede, agora tenho que me preocupar com olhos demoníacos piscando na parede.
Naquela noite, dentro da casinha recém-erguida, Caio sentou-se diante da fogueira. A túnica exalava cheiro de fumaça, e as calças ainda estavam manchadas de terra. Lia, sentada com elegância ao seu lado, parecia deslocada demais naquele cenário rústico — como uma dama de ferro em meio às ruínas.
Caio olhou em volta e respirou fundo.
— Isso aqui… ainda não é nada. Mas vai ser. Vou transformar essa vila amaldiçoada numa fazenda de verdade. Nem que eu morra tentando.
Lia piscou lentamente. O código de barras em seu pescoço emitiu um brilho azulado.
— Registro salvo. Mestre declarou objetivo de transformação da vila. Probabilidade de falha: setenta e dois por cento. Observação: apesar da estatística, a expressão do Mestre sugere convicção.
Caio sorriu.
— Pode anotar aí também: eu sou teimoso. Isso não tem estatística que explique.
Do lado de fora, o vento soprou forte.
As ruínas ainda escondiam segredos, mas havia algo novo naquele lugar. Uma chama acesa — pequena, frágil, mas real. Lia registrou aquele momento em silêncio, ciente de que ali começava, de verdade, algo muito maior.
