Light Novel – cap 2
O silêncio após a morte não era escuro.
Era branco — tão branco que parecia engolir até o próprio som.
Lucas abriu os olhos esperando a dor que sempre acompanhava sua existência, mas encontrou apenas um vazio imóvel. Seu corpo estava ali, de alguma forma, mas não carregava peso, nem frio, nem cansaço. Era como se estivesse… desligado.
Noir, o Lorde Falido do Sétimo Domínio é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
— Então é isso — murmurou. — Morri do jeito mais brasileiro possível: atropelado na volta do trabalho.
A voz que respondeu veio às suas costas, nítida e desesperada:
— VOCÊ NÃO ERA PRA ESTAR AQUI!
Lucas virou-se devagar, mais por hábito do que por susto. Já esperava problema, vivo ou morto.
Uma mulher brilhante deslizava em sua direção, cercada por três pergaminhos flutuantes, dois cristais instáveis e uma expressão de puro colapso administrativo. O contraste entre aparência divina e caos organizacional era tão absurdo que quase dava pena.
— Quem é você? — perguntou ele, mais curioso do que impressionado.
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A mulher passou uma mão pelo rosto, frustrada.
— Eu sou Seraphis, Deusa do Equilíbrio. Responsável pela organização das reencarnações, invocações de heróis, manutenção kármica… e, aparentemente, responsável por arruinar o meu próprio dia.
Lucas piscou lentamente.
— RH do além.
Ela congelou por meio segundo.
— …Tecnicamente… sim.
Os cristais ao redor dela começaram a trocar de cor, como computadores travando. Seraphis bateu em um deles com a palma da mão, do mesmo jeito que alguém bate num monitor velho.
— Não, não, não… você devia estar em outro arquivo!
Lucas cruzou os braços, resignado.
— Desculpa dar trabalho até morto.
Um dos cristais acendeu, projetando seu nome:
LUCAS ANDRADE — “Baixa relevância espiritual, histórico de sofrimento contínuo, potencial de reconstrução elevado.”
Seraphis soltou um gemido desesperado.
— Você devia ter ido para uma reencarnação tranquila! Vida nova, família nova, zero dívidas! E eu… eu te enviei para a fila errada!
— Parece normal vindo de repartição pública — comentou Lucas.
— NÃO É UMA REPARTIÇÃO PÚBLICA! — ela estourou, e seus cabelos dourados brilharam como um sol irritado. Depois respirou fundo, abraçando os pergaminhos como quem tenta impedir o próprio caos de cair no chão. — Escuta. Hoje estavam acontecendo duas invocações simultâneas no mesmo minuto.
Ela apontou para um cristal dourado.
— Primeiro, a Invocação do Herói Lendário dos humanos. Tudo certinho, organizado, dentro do cronograma.
Depois indicou outro cristal, este repleto de runas roxas rachadas.
— E ao mesmo tempo, a invocação do novo Lorde Demônio do Sétimo Domínio. Totalmente instável, cheio de maldições, dívidas ancestrais, runas quebradas… um pesadelo burocrático.
— E você errou o arquivo — Lucas completou.
Seraphis mordeu o lábio.
— …Troquei os destinos.
Lucas respirou fundo e encarou o branco infinito ao redor.
— Então eu, que já tava quebrado na Terra, vou ser mandado pra um inferno quebrado também?
— Exatamente — ela admitiu, encolhendo-se.
Ele não mostrou revolta. Não xingou. Não chorou. Apenas soltou um suspiro cansado.
— Coerente.
Seraphis ficou boquiaberta.
— “Coerente”? É só isso que vai dizer?
— Acontece. Minha vida inteira foi erro dos outros e eu arrumando. Dessa vez não é diferente.
A deusa sequer soube responder. Mas então, um terceiro cristal se acendeu. Runas vermelhas giraram ao redor de Lucas, analisando-o.
Seraphis inclinou a cabeça.
— Hm… isso é interessante. Sua capacidade emocional… sua resistência ao sofrimento… a maneira como absorve desgraça atrás de desgraça… Você é compatível com um dos Sete Pecados Capitais.
Lucas ergueu a sobrancelha.
— Qual deles?
— Gula.
Ele piscou.
— Eu nem comia tanto…
— Não é sobre comida — explicou ela. — É sobre devorar tudo: dor, conhecimento, poder, contratos, magia, miséria. Você tem a habilidade de absorver e reutilizar qualquer coisa. Até forças divinas.
Ela abriu a mão, e um artefato se materializou no ar.
Um livro negro, pulsante, com um olho fechado no centro e dentes metálicos ao redor, como se esperasse para morder o mundo.
— Este é o Grimório da Gula Infinita. Um artefato proibido que só desperta quando encontra alguém capaz de “engolir o mundo”.
O livro abriu a boca. O ar vibrou. Depois fechou, como se tivesse aprovado o cheiro de Lucas.
Ele apenas observou.
— Então eu recebo isso?
— Por causa do meu erro… sim — confessou Seraphis. — Considera… compensação divina.
— Ele morde? — perguntou.
— Às vezes.
— Melhor que patrão.
Seraphis quase deixou um cristal cair.
— Lucas… quando você assumir o Sétimo Domínio, encontrará ruínas. Dívidas antigas. Povos oprimidos. Conflitos internos. Humanos invadindo. Heróis sendo invocados para caçar seu povo. E onze outros lordes que querem devorar seu território.
Lucas assentiu, sem hesitação.
— Manda.
A deusa piscou rápido.
— Como assim “manda”?! Você não quer pensar? Negociar? Reclamar?!
— Minha vida na Terra era só obra inacabada. Se lá eu não consegui terminar nada… talvez eu termine lá.
A luz roxa e vermelha envolveu seu corpo, puxando-o para baixo como um redemoinho entre mundos.
Antes que desaparecesse completamente, Seraphis gritou:
— SE VOCÊ SOBREVIVER UM DIA, JÁ É MAIS DO QUE O ANTIGO LORDE CONSEGUIU!
E—
DESCULPA QUALQUER COISA!!
Lucas foi engolido pela espiral de luz.
O grimório o seguiu, vibrando como um animal faminto perseguindo seu dono.
O branco se rasgou.
O chão sumiu.
O som morreu.
Lucas Andrade deixou de existir.
E, naquele instante… nascia Noir Gluttonhart, o novo Lorde do Sétimo Domínio.
