Capítulo 1
O Beco Onde o Mundo Errou
Roberto caminhava sem pressa.
Não porque estivesse tranquilo.
Mas porque não havia lugar melhor para ir.
O turno tinha terminado tarde.
O salário… tinha terminado antes.
Sorte Maldita é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Ele chutou uma pedrinha na calçada rachada. A pedra rolou torta, como se até ela estivesse cansada de existir.
Um riso curto escapou de seus lábios.
— Caraca… até o chão tá cansado hoje.
Um ônibus passou ao longe. Vazio demais para aquele horário. As luzes internas piscavam como olhos com sono.
Roberto enfiou as mãos no bolso e virou em uma rua mais estreita.
Ali, o barulho da cidade diminuía.
Sem buzinas.
Sem vozes.
Só passos… e um choro baixo.
✍️ Desenhe QUALQUER ANIME com um método aprovado por +150 mil alunos
Já imaginou conseguir desenhar seu anime ou mangá favorito logo no primeiro dia,
mesmo começando do zero?
🎌 Aprenda com a maior referência em FanArt do Brasil usando um método simples,
prático e testado por mais de 150.000 alunos.
❌ Sem dom
❌ Sem traço perfeito
❌ Sem complicação
Ele parou.
Não era alto.
Não era desesperado.
Era um choro cansado.
— Sério mesmo… — murmurou, passando a mão na nuca. — Sempre tem alguma coisa estranha quando eu resolvo virar atalho.
O beco estava mal iluminado. A luz falhava, criando sombras que pareciam se mexer sozinhas.
No fundo… algo realmente se mexia.
Primeiro, Roberto pensou que fosse alguém sentado.
Depois percebeu que não era bem uma pessoa.
A forma era instável.
Como fumaça tentando lembrar como era ter ossos.
Ele ficou em silêncio.
Não gritou.
Não correu.
Só observou.
— …ok. — coçou a nuca outra vez. — Ou eu tô muito cansado… ou o mundo decidiu buggar hoje.
A coisa virou lentamente na direção dele.
O ar esfriou.
Não era uma sensação ameaçadora.
Era triste.
O peito de Roberto apertou sem motivo. E então um pensamento atravessou sua mente.
Sozinho.
Não era a voz dele.
Era… outra coisa.
Ele deu meio passo para trás.
— Tá… beleza… acho que já entendi o suficiente pra ir embora.
Virou o corpo.
E então—
O poste atrás dele estourou em faíscas.
A luz piscou violentamente.
O chão tremeu.
A criatura avançou — não como um predador… mas como alguém tropeçando no próprio peso.
Roberto escorregou.
Caiu de costas.
— Pô, sério?!
A fumaça tocou o braço dele.
E naquele instante…
O mundo pareceu errar o tempo.
Som distante.
Cores puxadas demais.
Um silêncio pesado esmagando tudo.
Algo abriu os olhos na escuridão.
Não à frente dele.
Dentro dele.
Uma presença antiga.
Divertida.
Perigosa.
“Interessante.”
A palavra não foi ouvida.
Foi sentida.
Roberto tentou se levantar.
O chão rachou antes.
O ar dobrou, como se tivesse tropeçado.
A criatura recuou. Confusa.
Ele respirou fundo.
— …não sei o que tá acontecendo… mas se isso aqui é sonho… tá caro demais pro meu padrão.
O céu ficou vermelho por um segundo.
Uma sombra gigantesca passou acima dos prédios.
Roberto ergueu o olhar.
Algo invisível observava.
Algo que não pertencia àquele mundo.
A Entidade do Acaso.
Ela não salvou.
Não atacou.
Só… tocou.
Um toque leve na realidade.
E tudo saiu do lugar.
Um carro perdeu o controle na esquina.
Metal gritou.
Luz branca.
Impacto.
Silêncio.
O beco voltou a ficar vazio.
A Sombra da Solidão se dissipou como poeira ao vento.
E o corpo de Roberto… parou de se mover.
Por um instante.
Só um.
O mundo prendeu a respiração.
Então—
A realidade rasgou.
Não como um portal mágico.
Mas como um erro sendo corrigido.
Escuridão.
Queda.
E um último pensamento atravessou a mente dele antes de desaparecer:
“Nem aqui deu certo… né?”
…
…
Luz.
Fria.
Diferente.
Respiração pesada.
Pedra sob as costas.
Cheiro de ferro no ar.
Roberto abriu os olhos devagar.
O céu acima dele não era mais o do Rio.
Era maior.
Profundo demais.
Silencioso demais.
Ele piscou.
Confuso.
— …tá. — murmurou, olhando as próprias mãos. — Se isso for depois da morte… o RH do universo precisa melhorar a recepção.
Algo se moveu nas sombras ao redor.
E pela primeira vez…
o Acaso respirou junto com ele.
Capítulo 2

A Garota de Olhos Verdes e as Regras Quebradas
Roberto permaneceu deitado alguns segundos.
Não por estratégia.
Por pura preguiça existencial.
— …ok. — piscou devagar. — Morri. Confirmado. Agora tô no modo DLC.
Ele ergueu o tronco.
Nada do Rio.
Nada de buzinas.
Nada de gente gritando.
Só um vazio que parecia observar de volta.
O chão era frio demais.
Pedra negra. Lisa.
Como se tivesse sido queimada por dentro.
Ele respirou fundo.
O ar tinha gosto metálico.
— Se isso aqui for céu… propaganda enganosa.
Um estalo ecoou atrás dele.
Roberto virou rápido.
Algo passou correndo entre pedras distantes.
Baixo.
Rápido.
Errado.
Ele ficou quieto.
Não era coragem.
Era cálculo simples:
“Se eu correr, provavelmente tropeço.”
Um vulto surgiu… e parou.
Era uma garota.
Cabelo roxo escuro balançando levemente.
Olhos verdes brilhando com curiosidade.
Ela inclinou a cabeça.
— …você caiu do céu?
Roberto olhou para cima.
Depois para ela.
— Eu tava esperando algo mais… tipo anjo, harpa… não entrevista.
Ela riu curto.
Não parecia surpresa.
Só… interessada.
Alexa deu dois passos à frente.
As botas fizeram um som seco na pedra.
— Você não tem marca de Desejo. — disse, observando o peito dele. — E ainda tá vivo.
— Obrigado pela parte motivacional.
Ela ergueu uma sobrancelha.
Antes que respondesse—
Um som rasgou o silêncio.
Algo rastejando.
Pesado.
Lento.
Roberto sentiu antes de ver.
O ar ficou mais denso.
Como no beco do Rio.
O Acaso sussurrou dentro dele.
Não com palavras.
Com sensação.
Erro se aproximando.
Das sombras surgiu a criatura.
Alta demais.
Magrela demais.
Braços longos arrastando no chão.
Sem rosto.
Só uma cavidade aberta onde deveria existir uma cabeça.
Alexa suspirou.
— Ótimo… uma Devoradora Fraca.
Ela estalou os dedos.
Uma lâmina curta surgiu na mão dela como se sempre tivesse estado ali.
Roberto levantou as mãos.
— Beleza… eu voto em fugir.
A criatura avançou.
Rápida.
Alexa girou o corpo e cortou o braço da coisa.
A lâmina atravessou… mas não completamente.
A criatura soltou um grito seco.
Roberto tentou dar um passo para trás.
Pisou numa pedra solta.
Escorregou.
— Ah… clássico.
Caiu sentado.
A criatura mudou a direção.
Direto para ele.
Alexa virou.
— Ei! Levanta!
— Tô tentando manter minha tradição de morrer cedo!
A Devoradora atacou.
No último segundo—
O chão rachou sob o peso da criatura.
Ela perdeu o equilíbrio.
Alexa aproveitou.
Um corte diagonal preciso.
A criatura se desfez em fumaça escura.
Silêncio.
Roberto piscou.
Olhou o chão.
Depois olhou para Alexa.
— …isso contou como ajuda?
Ela observou a rachadura.
Depois encarou ele.
— Você não se mexeu direito… e ela errou o ataque.
— Eu chamo isso de estilo passivo.
Alexa guardou a lâmina.
Os olhos verdes analisavam cada detalhe dele.
— Algo em você… não segue as regras.
Roberto se levantou devagar.
— Relaxa. Nem eu sigo.
Um vento frio passou.
Cinzas rodopiaram ao redor.
Por um segundo…
a sombra atrás dele pareceu ganhar asas.
Alexa estreitou os olhos.
— …tem alguém com você?
Roberto olhou por cima do ombro.
Nada.
— Só meus problemas emocionais.
Ela deu um meio sorriso.
— Então você vai se dar bem aqui.
Ao longe…
os portões da cidade começaram a se abrir.
Um som grave ecoou pelas planícies.
Algo maior despertava.
E o Acaso…
parecia animado.
Roberto coçou a cabeça.
— Tá… me diz uma coisa. — olhou para Alexa. — Aqui sempre tenta me matar… ou eu tenho cara de tutorial errado?
Ela começou a caminhar.
— Vem comigo, estranho do céu.
Ele seguiu.
Sem perceber…
uma pena negra incandescente caiu lentamente atrás deles…
e desapareceu antes de tocar o chão.
Capítulo 3

O Toque das Lanternas
Roberto caminhava atrás de Alexa sem pressa.
Na verdade… estava apenas tentando parecer que sabia para onde estava indo.
Os muros diante deles eram altos demais. Antigos. Grossos como se já tivessem sobrevivido a mais coisas do que qualquer cidade deveria enfrentar.
Ele quebrou o silêncio:
— Então… — olhou para as muralhas imensas. — aqui é tipo capital do apocalipse ou só terça-feira normal?
Alexa não respondeu de imediato.
Os olhos dela estavam atentos aos guardas.
Armaduras pesadas.
Movimentos rígidos.
Olhos cansados demais para serem apenas soldados comuns.
— Se você quer continuar respirando… evita piadas com os portões. — disse ela em voz baixa.
Roberto soltou um meio sorriso.
— Relaxa. Eu só faço piada quando tô nervoso… ou vivo.
Um dos guardas encarou Roberto.
Tempo demais.
Como se estivesse procurando algo que deveria estar ali… mas não estava.
— Marca? — perguntou seco.
Alexa respondeu antes que Roberto abrisse a boca.
— Errante. Caiu fora da muralha norte.
O guarda franziu o cenho.
Roberto levantou a mão, quase educado.
— Eu também tô tentando entender.
Silêncio.
O homem se afastou.
O portão abriu apenas o suficiente para que passassem.
Quando cruzaram para dentro…
o ar mudou.
Cheiro de ferro.
Vozes baixas.
O som distante de algo sendo arrastado em pedra.
Roberto desacelerou.
Os prédios eram altos, inclinados uns sobre os outros como se conspirassem para esconder o céu. As ruas, estreitas. Pessoas usavam máscaras leves, como se o ar pudesse morder.
— …tá. — murmurou ele. — definitivamente não é resort.
Algo passou correndo acima.
Som de asas cortando o vento.
Por um instante… uma pena negra surgiu no canto do campo de visão dele.
E desapareceu.
“Você chegou mais cedo do que imaginei.”
A voz não veio de fora.
Veio de dentro.
Calma.
Quente.
Perigosa.
Roberto parou.
O coração bateu errado por meio segundo.
— …tá ouvindo alguém falando comigo? — perguntou para Alexa.
Ela não parou de andar.
— Só você reclamando. Por quê?
Ele coçou a cabeça.
— Nada… deve ser trauma recente.
Nas sombras acima das muralhas, algo se moveu.
Uma sombra longa deslizou pelo topo da estrutura.
Mas ninguém além dele pareceu notar.
Milena observava.
Divertida.
Alexa virou em uma rua lateral.
— Você precisa de abrigo antes do toque das lanternas.
Roberto piscou.
— Toque das lanternas?
Ela apontou discretamente para o céu.
As nuvens começaram a escurecer rápido demais.
Uma sirene baixa ecoou pela cidade.
Grave. Lenta. Antiga.
As pessoas aceleraram o passo.
Portas sendo fechadas.
Trancas girando.
Janelas seladas.
Roberto olhou ao redor.
— …isso aqui nunca é coisa boa.
Um impacto distante fez o chão vibrar sob seus pés.
Algo gigante caminhava do lado de fora das muralhas.
Pesado.
Paciente.
Alexa segurou o braço dele.
— Anda.
Eles correram.
Viraram um corredor estreito entre duas construções inclinadas.
Outro impacto.
Mais perto.
Quando chegaram a uma pequena casa de pedra…
o céu ficou vermelho por um segundo.
Sombras começaram a se mover pelas paredes da cidade.
Não como ausência de luz.
Mas como presenças.
Alexa abriu a porta rapidamente.
— Entra.
Roberto hesitou apenas um instante.
Não por medo.
Mas por aquela sensação persistente de estar sendo observado…
por alguém muito alto.
Muito distante.
E ainda assim… muito próximo.
Ele entrou.
A porta fechou com força.
Do lado de fora…
as lanternas vermelhas começaram a acender.
Uma.
Depois outra.
Depois todas.
A cidade mergulhou em um brilho carmesim.
No escuro acima das muralhas, Milena sorriu.
“Agora começa de verdade.”
