O último herdeiro de Verdevale – Light Novel cap 2
Ele fechou os olhos.
A cena de sua morte no hospital voltou à mente como uma lâmina fria atravessando a memória.
Aquela promessa silenciosa.
Desta vez… ele não seria apenas um espectador.
Desta vez, tomaria as rédeas.
O Último Herdeiro de Verdevale é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.
Renato abriu os olhos, e neles brilhou determinação.
Não havia castelo.
Não havia exército.
Não havia respeito.
Mas havia ele.
E havia conhecimento.
E isso… seria suficiente para começar.
O sol subia preguiçosamente no céu cinzento de Verdevale. A neblina se desfazia devagar, revelando a verdadeira extensão da ruína que cobria o território: casas abandonadas, campos secos, estradas partidas. O que antes fora um domínio cobiçado agora se resumia a um esqueleto esquecido.
Renato sentou-se diante de uma mesa improvisada, montada com tábuas velhas apoiadas sobre pedras. Espalhou os documentos que encontrara no baú: listas de impostos, registros comerciais, cobranças de dívidas, cartas de vizinhos, ordens do Império. Seu olhar verde percorreu cada linha com frieza analítica.
Não havia desespero nele.
Apenas cálculo.
Ao fundo, Líria limpava o chão de terra batida com um balde de água. Ajudava-se com magia de nível básico, e de tempos em tempos lançava um olhar rápido para o jovem mestre.
— Jovem mestre… está tudo bem? Faz horas que está aí parado.
Renato não respondeu de imediato. Pegou uma pena quebrada e começou a rabiscar no verso de uma folha. Colunas, números, anotações rápidas. Estava reconstruindo, linha por linha, a estrutura administrativa de Verdevale.
E quanto mais analisava, mais evidente se tornava…
— Eles arruinaram tudo — murmurou.
A voz era baixa, mas firme.
— Taxas sobre colheita, sobre transporte, sobre criação de animais… até sobre pesca em rios secos. Nenhum camponês sobreviveria a isso. Não foi o Império que destruiu Verdevale. Foram eles mesmos.
Líria se aproximou, hesitante.
— Mas… o que vamos fazer? Não temos dinheiro, nem pessoas. E se não pagarmos as próximas dívidas, os cobradores do Império virão em poucos meses.
Renato apoiou o queixo nas mãos, pensativo. Lembranças da vida passada se misturavam com o presente. Histórias de reinos falidos que renasceram não com poder, mas com confiança.
Ele lembrava de ler livros madrugada adentro, enquanto o mundo dormia.
E havia uma frase que nunca esquecera:
“Antes de conquistar territórios, conquiste corações.”
Ele se levantou de forma repentina, surpreendendo Líria. Sua voz ecoou pelo barraco:
— Vamos abolir todos os impostos. Três meses sem cobrar nada de ninguém.
Líria arregalou os olhos.
— O quê? Jovem mestre, isso é impossível! Se fizer isso, ninguém mais vai respeitar a autoridade da Casa Verdevale. Eles vão rir de nós!
Renato virou-se para ela, o olhar firme como aço.
— Eles já riem, Líria. Já me veem como um nobre falido, herdeiro de um nome morto. Mas se quero reconstruir Verdevale, preciso dar um primeiro passo ousado. Não com espadas… mas com um gesto que ninguém espera.
Ela engoliu em seco.
— E… qual seria?
Renato caminhou até a janela quebrada e observou as terras silenciosas diante de si.
— Vou chamar todos os sobreviventes para uma reunião pública na praça central. Quero olhar nos olhos deles. Ou eles acreditam em mim… ou esse território morre de vez.
O vento soprou, trazendo poeira pelas frestas da cabana.
A decisão estava tomada.
Na manhã seguinte, Renato e Líria desceram juntos até o antigo centro de Verdevale.
O caminho era feito de pedras rachadas e tomado pelo mato. As ruínas da antiga praça nobre se erguiam ao fundo — um local onde, no passado, festas, anúncios e julgamentos movimentavam o coração do território. Agora, tudo estava deserto. Apenas corvos observavam dos telhados.
A estátua que um dia fora símbolo de glória estava quebrada ao meio, coberta de musgo.
Renato arregaçou as mangas, caminhou até uma das paredes caídas e pegou uma pá velha encostada ali.
— Jovem mestre… está… limpando? — Líria perguntou, surpresa.
— Sim — respondeu ele, sem hesitar. — Se quero que me vejam de forma diferente, tenho que agir diferente. Não sou um senhor sentado em um trono. Sou alguém que está construindo algo do nada.
Líria observou em silêncio. Depois, levantou as mãos. Um fluxo de água azulada surgiu de suas palmas, molhando e limpando a pedra suja. Era uma magia simples… mas eficaz.
E assim, lado a lado, começaram a reconstruir a praça central.
Varreram. Removeram escombros. Empilharam pedras.
Endireitaram bancos quebrados.
Horas se passaram.
E então, aos poucos, algumas figuras começaram a surgir nos cantos da praça.
Camponeses.
Poucos, mas atentos. Observando de longe. Cochichando entre si.
O renascimento de Verdevale… começava ali.
