janeiro 13, 2026 | Abraham Costa

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA — Light Novel (Capítulos 1 e 2)

Capítulo 1 — Dia -5

Kael acorda com o corpo travado.

Não é preguiça.
É como se alguém tivesse deixado um peso de concreto sobre o peito dele.

Ele abre os olhos com cuidado — como quem espera ver areia, sangue e um teto rachado.

APOCALIPSE: O MUNDO SOB A AREIA é uma obra de ficção original publicada em formato de light novel. Todo o conteúdo é autoral, criado por Abraham Costa, e protegido por direitos autorais.

Mas vê… o teto comum do quarto.

Por um segundo, não se mexe.
A respiração fica curta.
O silêncio parece alto demais.

O ventilador de teto gira devagar.
Há cheiro de quarto fechado, roupa limpa, café vindo de algum apartamento vizinho.

Normal.

O que é errado.

Porque a última lembrança de Kael não é normal.
É um chão quente demais, areia entrando no nariz, e uma dor nas costas…
uma dor que não era só física.

Era traição.

Ele leva a mão às costas sem perceber.
Não há ferida.
Não há sangue.
Nada.

Kael se senta na cama devagar, como se o movimento pudesse quebrar o mundo.

E então vem o primeiro flash.

Não é uma memória completa.
É um recorte. Uma imagem solta.

Um céu vermelho.
Um prédio sendo engolido até o quinto andar.
E uma sombra gigante passando por baixo da areia, como um tubarão.

Kael fecha os olhos com força.
Abre de novo.

Quarto.

Ele se levanta e vai até a janela.

O Rio está lá fora. Vivo.
Carros passando.
Gente conversando.
Um entregador com mochila nas costas.

Nada de deserto.
Nada de monstros.

Mesmo assim… ele sente o calor.

Não o calor normal do Rio.
Mas um calor seco, impossível — um calor que sua pele jura que já conheceu.

A mão treme por um instante.

E ele odeia isso.

Kael não é do tipo que desaba.

Ele respira fundo. Uma vez. Duas.

A mente tenta organizar o que aconteceu, mas o quebra-cabeça está faltando peças.

Ainda assim, ele sabe duas coisas com absoluta certeza:

O mundo vai acabar.

Ele já viveu isso.

Só que… não lembra de tudo.

E isso irrita.

Kael pega o celular.
Data. Horário.

Dia -5.

Mesmo sem entender como, ele sabe.
Cinco dias antes.

Fica parado encarando a tela, como se quisesse atravessar o vidro com os olhos.

Cinco dias…
Ou eu faço o impossível… ou morro do mesmo jeito.

A primeira reação não é emoção.

É cálculo.

Ele abre o aplicativo do banco.
Olha o saldo.

Pouco. Ridículo para um fim de mundo.

Um flash rápido corta a mente:

Ele segurando uma garrafa d’água como se fosse ouro.
Brigando por uma lata de comida.
Vendo gente morrer por causa de um filtro quebrado.

Kael trava a mandíbula.

— Tá.

Vai até a gaveta e puxa uma pasta com documentos.
Contrato do apartamento.
Recibos.
Papéis de cartório.

Coisas chatas.
Coisas que ninguém valoriza.

Mas ele valoriza.

Porque agora… papel é arma.

Kael senta à mesa e começa a escrever num caderno velho, do jeito mais simples possível.

  1. Dinheiro hoje.
  2. Comida e água hoje.
  3. Equipamento hoje.
  4. Lugar que não cai.

Ele encara o último item por mais tempo.

Lugar que não cai…

Outro flash vem — mais forte, quase como se alguém tivesse empurrado a memória dentro da cabeça dele.

Uma fachada de hotel antigo.
Um subsolo.
Gente sobrevivendo por anos.
Uma placa apagada pelo tempo.

Ele não consegue ler o nome.

Só sente a certeza no estômago.

É importante.

Kael se levanta.

Veste-se todo de preto, no automático.
Camiseta preta.
Calça cargo preta.
Tênis escuro.

Pega uma mochila vazia.

Quando abre a porta do apartamento, o corredor cheira a desinfetante barato.
Uma televisão ligada no vizinho.
Risos.
Novela.
Vida normal.

Kael desce as escadas sem pressa.
Por dentro, tudo está acelerado.

Na rua, ele não corre.
Não faz drama.
Não fala com ninguém.

Só observa.

O olhar de alguém que já viu o final do filme.

O celular vibra.

Mensagem de Lívia.

amor vc sumiu kkkkk
vai vir aqui mais tarde? 💙

Kael lê.

O rosto não muda.
Mas algo no olhar endurece, como vidro.

Ele digita.

Hoje não.

Apaga.

Digita de novo.

Tenho coisa pra resolver.

Envia.

Guarda o celular como quem guarda uma arma.

Não vai confrontar agora.
Não vai explodir.
Não vai dar satisfação.

Só pensa:

Se eu lembrar exatamente quando você me apunhalou…
eu te apago do meu mundo com a mesma frieza.

Ele segue andando.

Primeiro destino: banco.
Depois: cartório.
Depois: lojas.

No meio do caminho, algo chama atenção.

O vento.

Quente.
Seco.
Vindo de uma direção errada — como se o mar tivesse virado deserto por alguns segundos.

Kael para por meio segundo.
Fecha a mão.

E segue.

Porque se o mundo vai acabar…

Ele vai fazer o mundo pagar caro por cada grão de areia.

Capítulo 2 — Antes do Mundo Aprender a Correr

Kael anda pelo centro sem pressa.

Não porque esteja calmo —
mas porque quem corre chama atenção.

O mundo ainda funciona.
Ou, pelo menos, finge que funciona.

As pessoas reclamam do calor.
Batem boca por fila.
Buzinam mais do que o normal.

Kael reconhece isso.

No futuro, esse era o começo.
Antes da fome.
Antes da areia.
Antes do medo virar violência aberta.

Ele entra no banco.

O ar-condicionado é fraco.
A fila é longa.
A impaciência, geral.

Kael observa em silêncio.

Nenhum olhar curioso.
Nenhum funcionário desconfiado.

Perfeito.

Quando chega a vez dele, explica apenas o necessário.
Não tenta convencer ninguém.
Não pede favores.

Aceita o que vem rápido.
Crédito.
Antecipação.
Limites que alguém comum evitaria.

Kael não pensa em juros.
Não pensa em amanhã.

Porque amanhã, do jeito que eles conhecem, não existe.

Sai do banco com dinheiro suficiente para transformar tempo em vantagem.

Na rua, uma rajada de vento quente passa entre os prédios.
Curta.
Seca.
Errada.

O corpo reage antes da mente.

Flash.

Areia subindo pelo meio-fio.
Um carro atolando onde antes era asfalto.
Gente tropeçando porque o chão vira instável.

Kael para por meio segundo.

Pisca.

Asfalto normal.
Carros andando.
Nada mudou.

Ainda.

Ele segue.

A loja de camping não chama atenção.
Pequena.
Apertada.
Ignorada por quase todo mundo.

Exatamente por isso Kael se lembra dela.

Ele escolhe sem exagero.
Sem ansiedade.

Filtros de água.
Comida de alta durabilidade.
Lanternas simples.
Pilhas.
Corda.
Ferramentas que não quebram fácil.

Nada chamativo.
Nada em quantidade absurda.

O vendedor comenta, meio rindo:

— Vai acampar no inferno, parceiro? Esse calor tá estranho.

Kael paga.

— Só quero estar pronto.

Sai da loja.

A mochila agora pesa.
Do jeito certo.

O celular vibra.

Lívia.

amor vc ta sumido
tá tudo bem?

Kael lê andando.

Outro flash corta a mente — rápido, violento.

Um quarto escuro.
Gente rindo.
Ele no chão, fraco.
A lâmina entrando pelas costas.

Kael fecha os olhos por um instante.

Não responde.

Guarda o celular.

Ele não está com raiva.
Ainda não.

Está confirmando.

O último lugar do dia não é óbvio.

Um prédio antigo, misto de escritórios e apartamentos.
Estrutura grossa.
Escadas largas.
Subsolo fundo.

Kael não entra.

Observa.

Conta andares.
Avalia a fundação.
Repara onde a sombra bate ao meio-dia.

Outro fragmento tenta surgir — mas falha.
Deixa apenas um peso estranho no estômago.

Não é esse.

Mas chega perto.

Quando o sol começa a baixar, o calor não diminui.

Isso não é normal.

As pessoas reclamam mais alto.
Uma mulher discute com um motorista por nada.
Um homem joga água no rosto na calçada.

Kael sente a pele arder levemente.

Não é insolação.

É antecipação.

Ele volta para casa sem pressa.

No apartamento, espalha tudo no chão.
Organiza.
Separa.

Nada é aleatório.

Ele não está acumulando.
Está preparando camadas.

Kael se senta no chão, encosta as costas na parede e fecha os olhos.

Pela primeira vez no dia, ele não anda.

Ele pensa.

O mundo ainda finge que está vivo.
Daqui a alguns dias, ninguém vai fingir mais.

Abre os olhos.

Sem drama.
Sem promessa.

Apenas uma certeza fria:

Enquanto eles ainda acham que amanhã existe,
Kael já está vivendo depois do fim.

Proxímo Capítulo

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